Pesquisa relaciona náuseas na gravidez a mecanismos biológicos de defesa do bebê
O desconforto da gravidez pode indicar equilíbrio imunológico saudável
São Paulo – abril 2026 - Muitas mulheres, na gestação, experimentam com frequência o enjoo matinal, mas um estudo descobriu que essa manifestação não tem relação com um mal-estar aleatório: ela tem uma explicação biológica. Segundo estudo publicado no Evolution, Medicine & Public Health, periódico de Oxford, o enjoo matinal, incluindo náuseas, vômitos e aversões a certos alimentos e cheiros, estão ligados à resposta imunológica natural, porém complexa, do corpo durante a gravidez. “Os pesquisadores descobriram uma ligação entre os sintomas de ‘enjoo matinal’, incluindo náuseas, vômitos e aversões a certos alimentos e cheiros, e a resposta inflamatória natural, porém complexa, do corpo às mudanças biológicas e corporais durante a gravidez”, explica o ginecologista e obstetra Dr. Nélio Veiga Júnior*, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). “Sintomas como náusea e vômito geralmente começam na 4ª a 5ª semana e desaparecem no segundo trimestre, mas podem voltar a ocorrer a qualquer hora do dia”, completa o médico.
Estima-se que até 80% das gestantes em estágio inicial apresentam náuseas, vômitos e aversões a alimentos e cheiros. “Embora desconfortáveis, esses sintomas normalmente não são um sinal de que algo esteja errado com a saúde da mãe ou do feto em desenvolvimento, mas sim um indício de um delicado equilíbrio característico das gestantes”, diz o médico. "Durante a gravidez, o sistema imunológico da mãe enfrenta um desafio complexo: precisa proteger tanto ela quanto o feto de infecções, mas sem atacar acidentalmente o feto, cuja identidade genética é metade estranha (derivada do pai). Normalmente, o sistema imunológico ataca qualquer coisa que pareça estranha, então, na gravidez, ele precisa se ajustar cuidadosamente para manter o feto seguro e, ao mesmo tempo, defendê-lo contra infecções", explica o médico.
Os pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), acreditam que esse delicado equilíbrio, que protege a mãe e o feto, é alcançado por uma combinação única de respostas inflamatórias. “Elas funcionam para impedir que o corpo da mãe rejeite o feto, juntamente com mecanismos comportamentais adaptativos, como náuseas, que incentivam a mãe a evitar alimentos potencialmente prejudiciais, especialmente no primeiro e segundo trimestres, quando o feto está mais vulnerável”, diz o médico.
Metodologia e descobertas
Para o estudo, cientistas coletaram e analisaram amostras de sangue para medir moléculas do sistema imunológico chamadas citocinas. “As citocinas são proteínas que enviam sinais para ajudar o corpo a iniciar uma defesa rápida contra doenças e regular a inflamação”, diz o Dr. Nélio. As participantes também preencheram questionários que perguntavam sobre sintomas relacionados ao enjoo matinal e aversões a alimentos e odores durante os primeiros estágios da gravidez. As participantes eram 58 mulheres latinas do sul da Califórnia, acompanhadas desde o início da gravidez até o pós-parto. Dessas, 64% apresentaram aversão a odores ou alimentos, principalmente à fumaça do tabaco e à carne, 67% relataram náuseas e 66% apresentaram vômitos.
A equipe do estudo mediu citocinas que promovem a inflamação (pró-inflamatórias), bem como citocinas que suprimem a inflamação (anti-inflamatórias). “Eles descobriram que mulheres com aversão à fumaça do tabaco apresentaram uma mudança perceptível em direção a uma resposta mais inflamatória. Aversões alimentares, náuseas e vômitos também foram associados a um equilíbrio imunológico mais pró-inflamatório”, diz o médico. Essa correlação seria consistente com a teoria dos pesquisadores de que esses sintomas podem ser parte de uma adaptação evolutiva que ajuda os corpos das mães grávidas a minimizar a exposição a substâncias nocivas. “Essas alterações imunológicas podem induzir náuseas, o que por sua vez incentiva a evitação de alimentos, o que pode atuar como uma camada adicional de proteção”, comenta o Dr. Nélio.
Os pesquisadores afirmaram que o estudo pode ajudar a reforçar o reconhecimento de que náuseas e vômitos são sintomas normais com bases biológicas associadas a gestações saudáveis. “Para aliviar esses sintomas, recomendamos comer um menor volume em refeições mais frequentes, preferir alimentos leves e evitar odores fortes, alimentos picantes e gordurosos. Cereais, bananas, iogurte podem ser introduzidos na alimentação como exemplo de alimentos mais leves. Quando o enjoo for frequente de manhã, a gestante pode manter lanches saudáveis ao lado da cama para comer antes de levantar. Além disso, o cuidado com a hidratação também pode ajudar. Se os sintomas forem graves e levarem à perda de peso e desidratação, é essencial procurar um médico”, finaliza o Dr. Nélio Veiga Junior.
*DR. NÉLIO VEIGA JUNIOR: Médico ginecologista e obstetra, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). Atua em consultório privado e já foi médico preceptor no curso de Medicina da UNICAMP e médico pesquisador no Centro de Pesquisa em Saúde Reprodutiva de Campinas. Participa periodicamente de congressos, eventos e simpósios, além de ser autor de diversos artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. CRM 162641 | RQE 87396 | Instagram: @neliojuniorgo
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Estudos recentes reforçam que sintomas comuns da gestação, muitas vezes vistos apenas como desconforto, podem representar mecanismos sofisticados de proteção materno-fetal. A pesquisa amplia a compreensão científica sobre o enjoo matinal e ajuda a combater mitos, valorizando a orientação médica e o cuidado informado durante a gravidez.
Pesquisa relaciona náuseas na gravidez a mecanismos biológicos de defesa do bebê
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
Comentários
Enviar um comentário
🌟Copie um emoji e cole no comentário: Clique aqui para ver os emojis