Edifício Vertigem estreia com humor e confronto social

Edifício Vertigem estreia dia 1º de maio na Laura Alvim com humor, crítica social e embates geracionais em uma comédia dramática provocadora.
 Ilustração do espetáculo Edifício Vertigem com duas vizinhas em confronto no corredor de prédio durante a madrugada no Rio de Janeiro

Peça na Laura Alvim mergulha em crises geracionais e encontros transformadores no Rio


Duas mulheres, um corredor e uma madrugada capaz de desmontar certezas


O teatro contemporâneo ganha uma nova provocação com a estreia de Edifício Vertigem, no dia 1º de maio, no Espaço Rogério Cardoso, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. Com dramaturgia de Pedro Gomes e direção de Lara Coutinho, o espetáculo conduz o público para dentro de um corredor de prédio que, longe de ser apenas cenário, torna-se território simbólico de confronto, revelações e rupturas.

A trama parte de um encontro aparentemente banal: em plena madrugada carioca, duas vizinhas cruzam seus caminhos no corredor do edifício onde vivem. Fernanda surge envolta em touca, roupão e luvas de plástico, carregando o peso de uma rotina controlada; Raquel retorna embriagada da Lapa, trazendo consigo os excessos, as frustrações e o improviso. Desse choque inicial nasce uma sucessão de confissões, acusações e tentativas de compreender escolhas que, talvez, já tenham sido feitas tarde demais.

É desse embate entre duas mulheres em crise que se ergue a força dramatúrgica do espetáculo. Combinando humor, tensão psicológica e crítica social, Edifício Vertigem investiga temas como casamento, maternidade, luto, solidão, perdas e a difícil relação com o próprio corpo. Ao mesmo tempo, amplia o olhar para um recorte social específico, observando os dilemas existenciais de mulheres privilegiadas e as contradições que emergem dentro dessa bolha.

Pedro Gomes, estreando na dramaturgia teatral, constrói um texto atravessado por inquietações contemporâneas, especialmente sobre o esvaziamento das relações humanas e a dificuldade crescente de conexão com o outro. Nesse corredor, Fernanda e Raquel não são apenas vizinhas — funcionam como espelhos desconfortáveis, projetando ausências, desejos reprimidos e fragilidades que nenhuma delas consegue mais ignorar.

As interpretações de Ana Cordeiro e Tamie Panet aprofundam essa dimensão contraditória das personagens. Fernanda surge como alguém que percebe tarde o tempo escorrendo entre amarras emocionais e estruturas que a aprisionaram. Já Raquel carrega a vertigem do excesso e a consciência fragmentada de quem tenta sobreviver ao próprio caos. Juntas, formam um jogo cênico onde afeto, hostilidade e reconhecimento coexistem.

Na direção, Lara Coutinho propõe uma encenação que equilibra humor e desconforto, controle e colapso. Ao lado de Ana Elisa Schumacher, também parceira na direção de arte, constrói uma atmosfera em que o corredor concreto é atravessado por sons, presenças e ruídos do mundo exterior — elementos que rompem a bolha das protagonistas e lembram que há uma realidade pulsando além de seus dramas privados.

Essa dimensão sonora e simbólica amplia a crítica do espetáculo: enquanto as personagens se debatem em seus conflitos internos, o mundo segue acontecendo ao redor, muitas vezes silenciado pelo “barulho interior” que sufoca a escuta do coletivo. É justamente nessa fricção entre o íntimo e o social que a peça encontra sua potência.

Com trilha sonora de Ivan Lima, desenho de luz de Clarice Sauma, figurinos de Ana Elisa Schumacher e produção de Débora Fiuza e Daniella Mynssen, a montagem reúne uma equipe afinada em sustentar a tensão entre comédia e drama, oferecendo ao público uma experiência que provoca tanto riso quanto incômodo.

Em cartaz até 31 de maio, com sessões de sexta a domingo, Edifício Vertigem chega como uma reflexão aguda sobre os labirintos emocionais de uma geração e sobre aquilo que só o encontro com o outro pode revelar.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Mais do que narrar um encontro entre vizinhas, Edifício Vertigem parece capturar o mal-estar silencioso de um tempo marcado por desconexões, autocentramento e fragilidade afetiva. Ao transformar um corredor em arena simbólica de embates íntimos e sociais, a montagem evidencia como o teatro segue sendo espaço privilegiado para tensionar discursos, iluminar contradições e provocar reconhecimento. A estreia surge, assim, como um sinal vigoroso de uma dramaturgia contemporânea atenta às inquietações do presente e às fissuras de uma geração em permanente estado de vertigem.


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