Calor e memória moldam contos amazónicos

Livro de Myriam Scotti transforma o clima amazónico em protagonista de contos sobre história, migração e desigualdade.
Capa do livro Sol abrasador prepara solo fértil de Myriam Scotti

Livro de Myriam Scotti transforma o clima em força narrativa e social


O calor não é cenário — é personagem.

Em Sol abrasador prepara solo fértil, da escritora brasileira Myriam Scotti, o clima amazónico deixa de ser pano de fundo e assume protagonismo absoluto. O calor, a humidade e a densidade do ar atravessam corpos, relações e escolhas, funcionando como uma força invisível que molda vidas — ora sufoca, ora fecunda.

A obra, publicada pela editora Orlando, apresenta um conjunto de contos que percorrem diferentes épocas da história da Amazónia, desde o auge do ciclo da borracha até aos dias atuais. Mais do que uma viagem no tempo, trata-se de um mergulho nas marcas deixadas por processos históricos, económicos e sociais que continuam a ecoar no presente.

Com uma escrita que oscila entre o lirismo e a aspereza, Myriam Scotti constrói personagens densas e profundamente humanas. São, sobretudo, mulheres que enfrentam o peso da sobrevivência quotidiana, equilibrando trabalho, maternidade e solidão num território simultaneamente belo e implacável. Aqui, não há caricaturas: há vidas concretas, moldadas por escolhas difíceis e circunstâncias muitas vezes adversas.

A estrutura do livro nasce de uma intenção clara: desenhar uma linha do tempo que permita ao leitor compreender fragmentos da história do Amazonas através da ficção. Cada conto situa-se numa década distinta, começando no primeiro ciclo da borracha, período marcado pela chegada de imigrantes em busca de prosperidade — e, muitas vezes, confrontados com uma realidade bem mais dura.

Essa travessia histórica não surge como mero pano de fundo. Pelo contrário, os acontecimentos moldam diretamente o comportamento e a evolução das personagens. A autora privilegia o impacto emocional e psicológico desses contextos: o abandono, a solidão, o isolamento extremo ou a luta pela sobrevivência tornam-se motores narrativos tão relevantes quanto o próprio cenário.

Outro eixo central da obra é a migração — partir, ficar ou regressar. A Amazónia surge como território de encontros e tensões, formado por sucessivas ondas migratórias desde o século XIX. Scotti relembra que, muito antes de ser vista como “terra virgem”, a região já era habitada e cuidada por povos originários. Nesse cruzamento de histórias, emergem figuras como os ribeirinhos, guardiões silenciosos da floresta, que aprenderam a respeitar o ambiente como condição de sobrevivência.

O espaço urbano, especialmente Manaus, também ganha destaque. No entanto, mais do que a cidade em si, é o clima equatorial que dita o ritmo da vida. Não como espetáculo exótico, mas como experiência concreta e inevitável — algo que organiza rotinas, limita ações e influencia decisões.

A linguagem acompanha essa complexidade. A autora assume que a escrita nasce da observação atenta: ouvir vozes diversas, captar gestos, absorver realidades distintas. É dessa escuta que surgem personagens credíveis, afastadas de estereótipos fáceis. Afinal, como a própria autora sugere, a natureza humana — tal como a floresta — pode ser simultaneamente acolhedora e brutal.

O livro também revela marcas da formação da autora em Direito, especialmente na forma como expõe estruturas de poder e injustiças sociais. Experiências vividas durante o período em que trabalhou em defensorias públicas ressurgem transformadas em ficção, carregadas de um subtil desejo de reparação.

Escrito ao longo de sete anos, Sol abrasador prepara solo fértil reflete um processo de maturação pessoal e literária. A autora reconhece que foi preciso viver, errar e ganhar distância emocional para, só depois, revisitar os textos e entregá-los ao público. E é precisamente nesse ponto que a obra se abre: cada leitura torna-se uma continuação da escrita.

Apesar de marcar a sua estreia no conto, o livro integra uma trajetória já consolidada. Myriam Scotti é autora do romance Terra Úmida, vencedor do Prémio Literário de Manaus em 2020, além de outras obras que transitam entre o romance juvenil e a poesia. Ao longo dos anos, tem vindo a afirmar um projeto literário consistente: afastar a visão exótica da Amazónia e revelar o seu quotidiano real, complexo e profundamente humano.

Com novos romances em desenvolvimento — e a ambição de construir uma trilogia centrada nos ciclos da borracha — a autora continua a explorar o universo amazónico com um olhar crítico e sensível, onde o território não é apenas cenário, mas destino.

Leia abaixo uma entrevista com Myriam Scotti e descubra os bastidores, inspirações e reflexões por trás de sua nova obra.

“Sol abrasador prepara solo fértil” percorre diferentes momentos históricos da Amazônia, do ciclo da borracha aos dias atuais. Como você estruturou essa travessia temporal na construção do livro?

Quando cogitei reunir contos para um livro, imediatamente pensei em traçar um panorama histórico e por isso decidi escrever a partir de uma linha do tempo que pudesse iluminar um pedaço da  história do Amazonas para os leitores. Por já pesquisar o ciclo da borracha para a escrita dos meus romances, decidi que o marco inicial dos contos seria o primeiro ciclo da borracha, com a chegada dos imigrantes de várias partes do mundo atrás de prosperidade e a partir daí, cada história se passaria em uma década diferente até chegar à atualidade.

Seus contos alternam lirismo e aspereza. Como você trabalha essa tensão na linguagem para dar conta tanto da dureza das experiências quanto da delicadeza dos afetos?

Gosto de escrever sobre a complexidade humana. Não somos lineares e mesmo o mais violento dos seres, pode ser capaz de algum gesto delicado e amoroso. Da mesma forma, a violência, às vezes, pode vir da figura menos provável, daquela pessoa em quem deveríamos confiar cegamente e, no entanto, é justamente a capaz de cometer as maiores atrocidades. Isso tem a ver com a metáfora em relação à floresta, que pode ser mãe e acolhedora um dia e carrasca em outro, se não a respeitamos ou a compreendemos em sua complexidade.

As personagens não são alegorias, mas mulheres concretas, atravessadas por trabalho, maternidade e solidão. Como você constrói essas subjetividades sem cair em explicações excessivas ou estereótipos?

Acredito que seja pela observação. Entendi que escrever literatura é saber escutar outras vozes, de preferência bem longe e diversa das que nos rodeiam. É preciso absorver outros vocabulários, outras maneiras de viver, se quisermos construir personagens complexos e não estereotipados. Sou muito atenta às pessoas, ao que escuto quando percorro as ruas da cidade. Aliás, é imprescindível se deslocar, viver, experimentar para depois sentar e escrever. 

Manaus aparece como presença ativa nas narrativas. Em que medida o espaço molda as escolhas, frustrações e desejos das personagens?

Acredito que mais do que o espaço é o clima que comanda a vida de quem mora na Amazônia. Logo que comecei a escrever os primeiros contos, compreendi a força inescapável do clima equatorial. No entanto, longe de desejar escrever o calor e a umidade como espetáculos, me interessava descrevê-los como experiência e, sobretudo, como força organizadora da rotina das gentes amazônidas.

A migração – partir, ficar, retornar — é um eixo forte do livro. O que mais te interessava explorar nesses movimentos e nos dilemas que eles geram?

Mostrar a pluralidade da região Norte, a qual se estabeleceu por meio de um forte processo migratório, sobretudo a partir do século XIX, com a intenção de expandir e ocupar o território tido como terras virgens, quando na verdade, sabemos, já era amplamente ocupado e cuidado pelos povos originários. Muitos imigrantes se tornaram verdadeiros guardiões da floresta, os ribeirinhos, unindo forças com as comunidades indígenas a fim de impedir a destruição daquilo que logo entenderam ser sua casa e por isso respeitar a floresta era/é questão primordial.

Em contos como “Terra Prometida” e “O Soldado da Borracha”, conflitos sociais e ambientais atravessam as histórias. Como equilibrar o pano de fundo histórico com a dimensão íntima das personagens?

Enquanto escrevo, prefiro pensar em como meus personagens serão levados a agir ou quem se tornarão a partir dos eventos históricos e climáticos. O que determinado evento, por exemplo, o abandono do marido que vai se embrenhar na floresta para ser regatão, pode causar na estrutura emocional de sua companheira. Ou, como a dura realidade de se ver sozinho na floresta durante catorze horas por dia pode forjar um homem nascido no Nordeste e que antes de enfrentar a floresta enfrentava a seca e a fome. Ao apresentar o pano de fundo histórico, não escapo da densidade dos meus personagens que se formam a partir dos eventos que os atravessam.

Você levou sete anos escrevendo o livro. O que mudou na sua escrita e na sua própria percepção da Amazônia ao longo desse processo?

Gosto do que a escritora argentina Ariana Harwicz escreveu em seus ensaios para falar de seu processo de escrita. Ela comenta que para escrever, antes é preciso viver, amadurecer. Pois quando se decide escrever uma obra, é necessário deixar de lado o mundo lá fora por um período, às vezes longo. O livro levou o tempo necessário para que eu vivesse, errasse, sofresse, calejasse. Então, já mais distanciada das emoções, achei que estava na hora de revisá-los e oferecê-los para os leitores, os quais, acredito verdadeiramente, continuam a escrita das nossas obras através das leituras plurais que realizam.

Esta é sua estreia no gênero conto, depois de romances e poesia. O que o conto permite fazer, em termos de ritmo e intensidade, que outros gêneros não permitem?

Acredito que os contos me permitiram ser menos prolixa e deixar a escrita mais ágil, sem me preocupar em deixar a história tão redonda. Ademais, não há espaço para tantos personagens e isso permitiu que eu trabalhasse melhor somente um ponto de vista para o qual eu queria jogar o holofote. Foi uma experiência muito rica.

Sua formação em Direito aparece na maneira como as estruturas de poder atravessam as narrativas. Em que momentos essa formação influenciou diretamente a construção dos conflitos?

Esse livro me fez enxergar que eu saí do Direito mas ele nunca saiu de mim totalmente. À medida que ia escrevendo os contos, muitas histórias que escutei enquanto trabalhava como estagiária das defensorias públicas do Estado e da União voltaram à mente com força total. Uma espécie de revolta e desejo de reparação me inspirou a escrever alguns personagens, como o soldado da borracha, por exemplo.

Depois de prêmios e reconhecimento com obras anteriores, como você percebe que “Sol abrasador prepara solo fértil” dialoga ou tensiona sua produção literária anterior?

Logo nos primeiros livros percebi que precisava escrever histórias que não mais associassem a minha região apenas ao exotismo ou ao extraordinário. Desejava escrever histórias que, embora relatassem fatos históricos pouco conhecidos, também mostrassem a realidade do cotidiano. Então, olhando para as minhas obras ao longo de dez anos, percebo que deslocar o olhar do leitor para uma região pouco explorada pelo mercado editorial é algo que fui realizando sem me dar conta. Hoje sim, percebo com clareza o meu projeto literário.

Após a publicação de “Sol abrasador prepara solo fértil”, você já mencionou estar trabalhando em dois novos romances. O que pode adiantar sobre esses projetos e de que forma eles dialogam com o universo amazônico e as personagens femininas que marcam sua obra até aqui?

Continuo pesquisando os ciclos da borracha e gostaria de construir uma trilogia. O primeiro livro já está no mundo, o romance “Terra Úmida”, e os demais estou na fase de pesquisa histórica. Vamos ver se dará certo.

Nota do Editor - Portal Splish Splash
Uma obra que prova que, na literatura, até o clima pode ser protagonista — e dos mais implacáveis. 
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