Mudanças climáticas e o futuro da alimentação na América do Sul

Seminário da Conab reúne países da América do Sul para discutir segurança alimentar e sistemas agroalimentares resilientes diante das mudanças climáti
 Encontro internacional sobre sistemas agroalimentares sustentáveis realizado pela Conab em Brasília

Encontro em Brasília debate cooperação regional e sistemas agroalimentares resilientes


Sem cooperação regional, a segurança alimentar torna-se cada vez mais frágil


Em um momento em que os eventos climáticos extremos se tornam cada vez mais frequentes e intensos, representantes de diversos países da América do Sul reuniram-se em Brasília para discutir caminhos concretos capazes de tornar os sistemas agroalimentares mais resilientes. O seminário internacional “Desafios e soluções para as mudanças climáticas: impactos na agricultura e nos sistemas agroalimentares do futuro”, realizado nos dias 11 e 12, foi sediado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e promovido pela Rede de Sistemas Públicos de Abastecimento e Comercialização de Alimentos (Rede SPAA) na América Latina e Caribe.

O encontro reuniu representantes de nove países — Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela — além de organismos internacionais e especialistas ligados à área da segurança alimentar. O objetivo central foi claro: fortalecer a cooperação regional e discutir políticas públicas capazes de enfrentar os impactos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola, o abastecimento de alimentos e a segurança alimentar das populações.

A Rede SPAA, atualmente presidida pelo governo brasileiro por meio da Conab e coordenada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), surge como um espaço estratégico de articulação entre países que enfrentam desafios semelhantes. Secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e outras ocorrências climáticas extremas estão a afetar diretamente as colheitas, as cadeias logísticas e o acesso da população aos alimentos.

Durante a abertura do evento, o presidente da Conab e da Rede SPAA, Edegar Pretto, destacou que a cooperação entre países se tornou uma necessidade prática e urgente. Segundo ele, a Conab tem sido observada por outros países da rede como um modelo de gestão e organização institucional na área do abastecimento alimentar. Ao mesmo tempo, o intercâmbio de experiências permite que o Brasil também aprenda com as iniciativas adotadas pelos demais países membros.

Na prática, a lógica é simples: as mudanças climáticas não respeitam fronteiras. Um evento climático severo num país pode ter repercussões diretas na produção, no comércio e no abastecimento de toda a região. Por isso, a construção de estratégias conjuntas passa a ser um passo essencial para enfrentar desafios comuns.

O seminário contou ainda com a presença do ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, do embaixador Ruy Pereira, diretor da Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores, do representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, e do diretor-executivo de Operações e Abastecimento da Conab, Arnoldo de Campos.

Mais do que um espaço de debate, o encontro buscou identificar soluções concretas e promover o intercâmbio de experiências entre os países participantes. Entre os instrumentos considerados estratégicos estão as reservas públicas de alimentos, os mercados institucionais e os chamados circuitos curtos de comercialização — modelos que aproximam produtores e consumidores e ajudam a fortalecer a agricultura familiar.

Esses mecanismos são vistos como fundamentais para garantir o abastecimento alimentar, sobretudo em períodos de crise climática. Ao mesmo tempo, ajudam a reduzir desigualdades, fortalecer economias locais e assegurar que alimentos de qualidade cheguem à mesa da população.

O seminário também integra o projeto “Ação regional para fortalecer as instituições públicas de abastecimento e comercialização de alimentos”, desenvolvido no âmbito da cooperação Sul-Sul entre o Brasil — por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC/MRE) — e a FAO, com apoio técnico e financeiro da Conab.

Um dos momentos mais relevantes do encontro foi o anúncio da criação de uma estratégia regional para respostas rápidas em situações de emergência alimentar. Ao final do primeiro dia de debates, o presidente da Rede SPAA anunciou um aporte inicial de 1 milhão de dólares para a implementação de um projeto que permitirá estruturar um sistema integrado de cooperação entre os 19 países da rede.

A proposta prevê a criação de um Fundo de Reserva Estratégica de Alimentos. A iniciativa parte de um princípio simples, mas poderoso: conhecer, mapear e coordenar os estoques de alimentos disponíveis na região. O objetivo é identificar onde os alimentos estão armazenados, qual a capacidade de estocagem de cada país e como esses recursos podem ser mobilizados rapidamente em situações de crise.

Além disso, pretende-se desenvolver um protocolo regional de resposta rápida, permitindo que países afetados por eventos climáticos extremos recebam apoio imediato de outras nações da rede. Trata-se de um mecanismo de solidariedade regional voltado para garantir o abastecimento alimentar e proteger populações vulneráveis.

Nesse processo, a experiência acumulada pela Conab desempenha um papel central. A empresa brasileira tem desenvolvido, ao longo dos anos, sistemas de monitoramento, logística de distribuição e programas de apoio alimentar capazes de mitigar os impactos de crises climáticas e sociais. Esse conhecimento agora será compartilhado com os demais países da Rede SPAA, contribuindo para a construção de uma base comum de dados, inteligência e estratégias de atuação.

O segundo dia do evento incluiu uma visita de campo à Cooperativa da Agricultura Familiar de Produção Orgânica e Agroecológica (COOPERAF), localizada no Assentamento Chapadinha, na zona rural de Sobradinho, no Distrito Federal. A cooperativa, fundada em 2019, reúne atualmente 67 famílias produtoras que cultivam cerca de 167,5 hectares em regime de agricultura familiar, orgânica e agroecológica.

Durante a visita, os participantes puderam conhecer de perto a diversidade da produção local, que inclui raízes, tubérculos, hortaliças, folhosas, grãos, legumes, frutas, ervas aromáticas e até sistemas de piscicultura. Mais do que uma vitrine agrícola, a cooperativa funciona como um exemplo concreto de produção sustentável associada à organização comunitária.

Os produtores locais também explicaram como ocorre a comercialização dos alimentos. Parte da produção abastece feiras livres da região e a Central de Abastecimento do Distrito Federal (CEASA/DF). Outra parte é destinada a programas institucionais importantes, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que garantem mercado para os agricultores familiares e, ao mesmo tempo, fornecem alimentos de qualidade para escolas e comunidades.

A cooperativa também apresentou aos visitantes diversas iniciativas voltadas ao fortalecimento da produção e da comunidade local. Entre elas estão a implantação de sistemas de energia fotovoltaica, instalação de kits de irrigação, programas de capacitação para o empoderamento feminino, formação de jovens agricultores e investimentos em infraestrutura produtiva, incluindo máquinas e equipamentos.

No encerramento do seminário, os participantes voltaram ao Centro de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Conab para discutir a agenda de cooperação futura da Rede SPAA na América do Sul. O objetivo foi definir ações coordenadas e de longo prazo capazes de enfrentar os impactos das mudanças climáticas sobre a agricultura e os sistemas alimentares da região.

O encontro terminou com um balanço das atividades realizadas durante os dois dias e com a definição dos próximos passos da rede. A aposta é que, através de uma abordagem participativa e multissetorial, seja possível fortalecer a capacidade de resposta dos países sul-americanos e construir sistemas alimentares mais resilientes, sustentáveis e preparados para os desafios climáticos do século XXI.

Nota do Editor - Portal Splish Splash
Num mundo onde o clima muda mais depressa do que as políticas públicas, encontros como este revelam algo essencial: nenhum país resolve sozinho o problema da segurança alimentar. A cooperação regional, o fortalecimento da agricultura familiar e a partilha de conhecimento técnico podem ser as peças decisivas para garantir que, mesmo diante das turbulências climáticas, o alimento continue a chegar à mesa de milhões de pessoas.
Enviar um comentário

Comentários