Outros Bárbaros: rock e MPB em Pelas Ruas das Américas

Outros Bárbaros lançam Pelas Ruas das Américas, álbum que mistura rock com a influência da MPB dos anos 70 e letras de forte discurso contemporâneo.
 Capa do álbum Pelas Ruas das Américas do grupo Outros Bárbaros

Trio de Florianópolis mistura herança da MPB setentista com energia rock


Quando o rock dialoga com a MPB dos anos 70, o resultado pode surpreender


Os Outros Bárbaros chegam ao terceiro álbum com mudanças importantes na formação e também na direção sonora. Em “Pelas Ruas das Américas”, o grupo de Florianópolis assume oficialmente o formato de trio — Maurício Peixoto (voz e guitarra), Eduardo Lehr (baixo) e Marco Mibach (bateria e percussão) — e apresenta um trabalho que amplia a identidade artística da banda sem abandonar a intensidade que sempre marcou o seu som.

O novo disco surge como um passo natural após “Interlúdio na Beira do Caos”, lançado em 2022. Se naquele momento já era possível perceber sinais de aproximação com referências da música brasileira, agora essa ligação torna-se mais evidente. “Pelas Ruas das Américas” dialoga com a tradição da canção brasileira enquanto mantém a energia do rock e um discurso crítico que atravessa o repertório.

Com dez faixas no alinhamento — entre elas os singles “Fortaleza Hostil” e “Nós Dois”, já divulgados nas plataformas digitais — o álbum reúne composições predominantemente assinadas por Maurício Peixoto, além de parcerias que enriquecem a proposta estética do grupo. A única releitura presente é “Alucinação”, clássico de Belchior, incluído como homenagem a um dos nomes mais marcantes da música brasileira.

Gravado no Bárbaro Estúdio, em Florianópolis, o álbum ganhou finalização em Portugal pelas mãos do produtor Alexei Leão, responsável pela mistura e masterização. O disco também conta com colaborações que ampliam a paleta sonora do trabalho, como a participação do tecladista Donatinho e os arranjos de metais assinados por Hemerson Calandrini. Para completar o projeto, todo o processo de criação e gravação foi acompanhado por um mini documentário dirigido por Antonio Rossa, revelando bastidores desta nova fase da banda.

A transformação da banda em trio teve impacto direto no processo criativo. A saída do tecladista Diego Stecanela aconteceu no meio das gravações, num momento em que ele se preparava para a chegada do primeiro filho. A conciliação de agendas já vinha sendo um desafio, já que os integrantes mantêm diversos projetos paralelos. Isso levou a banda a adotar uma dinâmica diferente: muitas das músicas foram desenvolvidas em sessões individuais de estúdio, em vez do formato tradicional de ensaio coletivo.

Segundo Maurício Peixoto, essa mudança acabou influenciando também o papel das teclas no disco. Em vez de protagonismo, os teclados passaram a funcionar mais como camadas de ambientação e textura. O resultado final é um álbum que talvez seja o menos característico de uma “banda de rock” dentro da discografia do grupo — sem perder, no entanto, a força e a identidade sonora que os define.

Outro elemento central do disco é o diálogo com a MPB dos anos 70. A banda reconhece que esse espírito já estava presente nas próprias composições desde o início do processo criativo. Ao mesmo tempo, a dimensão política das letras surge de forma natural, refletindo o contexto em que o grupo nasceu e se desenvolveu. Formada durante a ascensão do bolsonarismo no Brasil, a banda passou a incorporar temas políticos e sociais como parte do seu discurso artístico.

Essa combinação entre tradição e atualidade também se reflete no tratamento sonoro do álbum. Em parceria com Alexei Leão, a banda procurou criar um equilíbrio entre texturas vintage e uma produção contemporânea, mantendo o impacto e a potência sonora que o rock exige.

A inclusão de “Alucinação”, de Belchior, não foi uma escolha casual. O artista cearense é unanimidade entre os integrantes do grupo. Em 2024 e 2025, a banda levou à estrada um espetáculo que interpretava na íntegra o álbum “Alucinação”, misturando essas canções com o próprio repertório. A vontade de registrar uma dessas músicas acabou surgindo naturalmente durante o processo do novo disco.

A escolha da faixa-título do clássico de 1976 teve também um significado especial. A banda procurava uma canção que não fosse nem excessivamente conhecida — como “Como Nossos Pais” — nem totalmente obscura. Além disso, a força da letra continua impressionantemente atual. Para os integrantes do grupo, algumas composições de Belchior parecem ter sido escritas ontem, tamanha a capacidade de dialogar com o presente.

As participações especiais também ajudaram a dar novos contornos ao álbum. A presença de Donatinho, convidado para colaborar na faixa “Enfim Renascerá”, surgiu a partir da ligação de Marco Mibach com músicos da cena carioca. O tecladista trouxe uma mistura de sensibilidade para a música brasileira e paixão por sintetizadores, acrescentando novas cores à faixa.

O mini documentário dirigido por Antonio Rossa representa outro passo importante para a banda. Embora o desejo inicial fosse produzir algo mais extenso, as limitações orçamentais levaram à criação de um formato mais compacto. Ainda assim, o resultado final cumpre o objetivo de apresentar um retrato da trajetória do grupo e do processo criativo por trás do álbum.

Nós Dois - Outros Bárbaros


No fundo, “Pelas Ruas das Américas” funciona como um retrato do tempo em que foi criado. As canções abordam temas universais — relações, encontros, desencontros — mas também refletem inquietações muito presentes no mundo contemporâneo: conflitos políticos, tensões sociais e um cenário global cada vez mais instável.

Curiosamente, os próprios músicos reconhecem que o mundo muda tão rapidamente que algumas letras parecem envelhecer poucos meses após o lançamento. O single “Fortaleza Hostil”, por exemplo, foi escolhido justamente pela urgência do seu discurso, retratando um momento político específico que fazia todo sentido quando foi lançado, no final de 2025.

Entre memória, crítica social e paixão pela canção brasileira, “Pelas Ruas das Américas” mostra uma banda em transformação — e ao mesmo tempo cada vez mais consciente do seu lugar dentro da música contemporânea.

Nota do Editor - Portal Splish Splash
Entre a herança da MPB setentista e a urgência das questões atuais, os Outros Bárbaros mostram que tradição e modernidade podem caminhar juntas quando há identidade artística. “Pelas Ruas das Américas” confirma que a canção brasileira continua viva, reinventando-se geração após geração.
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