Concerto-manifesto celebra mulheres comuns e extraordinárias no Grande Auditório do CCB
Uma homenagem poderosa às mulheres que moldam vidas em silêncio
O Centro Cultural de Belém recebe, nos dias 21 e 22 de março, às 19h00, no Grande Auditório, o espetáculo Carta Branca: A garota não — A Vulgar Mulher Extraordinária. Concebido e dirigido artisticamente por Cátia Mazari Oliveira, conhecida do público como A garota não, este projeto assume-se como uma reflexão artística e emocional sobre as vidas das mulheres comuns, tantas vezes invisíveis, mas profundamente extraordinárias.
Mais do que um concerto, trata-se de um ensaio cénico e musical sobre memória, identidade e herança emocional. No centro desta criação está a figura da mãe da artista, cuja presença continua a ecoar através das histórias, dos gestos e das marcas deixadas na vida daqueles que ficaram.
Anos depois da sua morte, Cátia Oliveira reconheceu uma espécie de necessidade íntima de falar dela. Inicialmente pensou que o fazia para atenuar saudades ou remorsos, como se revisitar as memórias fosse uma forma de manter viva essa presença. Com o tempo, percebeu que a razão era mais profunda: uma vontade quase instintiva de impedir que essa mulher desaparecesse do mundo, de a fazer continuar a viver através daquilo que transmitiu — a força do colo, os valores, os afetos, os gestos simples de proteção e cuidado.
A partir desse impulso nasceu a ideia de construir um retrato artístico que não seria uma biografia tradicional, organizada em datas e acontecimentos, mas antes uma exploração sensível das batalhas interiores e exteriores que moldam uma vida. Um retrato que percorre medos, resistências e forças invisíveis.
À medida que o projeto foi crescendo, tornou-se claro para a autora que falar da mãe significava inevitavelmente falar de muitas outras mulheres: amigas, conhecidas e desconhecidas que, todos os dias, dedicam mais tempo a cuidar dos outros do que de si próprias. Mulheres que atravessam a vida entre expectativas sociais, tradições herdadas e desafios contemporâneos, aceitando muitas vezes destinos menos justos do que mereciam.
Assim nasceu uma espécie de biografia coletiva. Um retrato que reúne gerações de mulheres — mães, tias, avós — cujas histórias se cruzam, se prolongam e por vezes se quebram. Histórias que revelam continuidades e fraturas, como correntes de água que se juntam ou se afastam, mas que continuam sempre a influenciar o curso da vida.
Este espetáculo transforma essa herança num gesto de celebração e agradecimento. Celebra as mulheres que vieram antes, as que viveram ao lado da protagonista e as que continuam depois dela. Ao mesmo tempo, levanta questões incómodas, interroga dogmas e desafia normas sociais que durante demasiado tempo moldaram as expectativas sobre o papel das mulheres na sociedade.
No palco, a música assume-se como veículo de emoção, memória e crítica. A garota não conquistou um lugar singular no panorama da música popular portuguesa com apenas três discos — Rua das marimbas (2019), 2 de abril (2022) e Ferry Gold (2025). Nestes trabalhos, a autora trouxe um novo fôlego à tradição da música de intervenção, renovando o cancioneiro de autor português nas décadas que se seguiram ao 25 de Abril.
As suas canções mantêm uma forte consciência social e política, onde ecoam reivindicações culturais, económicas e humanas em nome de uma sociedade mais justa. No entanto, a abordagem não segue o tom declamatório de outros tempos. Pelo contrário, parte frequentemente de pequenos episódios do quotidiano, sobretudo de comunidades mais vulneráveis, para construir um olhar crítico que denuncia sem gritar, mas também sem esconder.
É nessa atenção aos detalhes da vida real que nascem as suas canções. Nelas encontramos histórias de gente comum, fragilidades sociais e a persistente luta pela dignidade humana. Ao mesmo tempo, a música de A garota não recusa o pessimismo absoluto: mesmo no inconformismo, existe sempre um espaço para a esperança e para a ideia de que a solidariedade pode reconstruir o futuro.
Essa dimensão coletiva é central no percurso artístico da cantora. As suas composições procuram unir emoções, indignações e afetos, criando um espaço onde a crítica social convive com a sensibilidade humana.
Por vezes, esse espírito lembra o legado de José Mário Branco, compositor e figura maior da música de intervenção portuguesa, cuja influência a artista reconhece e homenageia na canção Canção a Zé Mário Branco, incluída no álbum 2 de abril. No refrão, ecoa um imperativo que resume a essência deste percurso artístico: “Liberdade, querida liberdade / O nosso chão tem sonhos e vontade”.
Entre Rua das marimbas e Ferry Gold, Cátia Oliveira tem vindo a cartografar o mal-estar e as contradições da sociedade portuguesa contemporânea. Fá-lo a partir da sua própria experiência de vida, transformando inquietações pessoais e coletivas em matéria poética e musical.
O espetáculo apresentado no CCB insere-se nesse mesmo caminho artístico. Ao reunir música, narrativa e reflexão, propõe uma viagem emocional que atravessa memórias individuais para alcançar um sentido coletivo.
Em palco, Cátia Mazari Oliveira assume voz e guitarras, acompanhada pelos músicos Sérgio Mendes (guitarras e baixo), João Mota (vozes, guitarras e teclados) e Diogo Sousa (bateria). O espetáculo conta ainda com um conjunto notável de convidados: Ana Bacalhau, Ana Deus, Angel Gomes, Bárbara Wahnon, Isa da Costa, Joana Alegre, Joana Seixas, José Nobre, Natália Abreu, Orlanda Guilande, Paula Cortes, Rita Redshoes, Selma Uamusse e Sheila Pereira.
A equipa técnica integra Hugo Valverde no som de frente, Ricardo Costa no som de palco, Roger Madureira na encenação e cenografia, Joana Mário na iluminação e João Gabriel como técnico de backline. A componente visual é assegurada por Pedro Semedo, Mário Guilherme e António Aleixo, com operação de vídeo de Fábio Vicente e teleponto de Sammer Ramos. A fotografia é de Nuno Batista, com Sandra Cardoso como road manager e José Morais na gestão artística.
O espetáculo tem duração aproximada de 120 minutos e a sessão de 21 de março contará com interpretação em Língua Gestual Portuguesa.
Mais do que um evento musical, A Vulgar Mulher Extraordinária afirma-se como um gesto artístico de memória e reconhecimento. Um convite para revisitar histórias de mulheres que, mesmo sem ocupar páginas de biografias oficiais, moldaram silenciosamente a vida de muitas outras.
Porque as vidas, como ondas sucessivas, acabam sempre por se derramar umas nas outras. E é nessa mistura de memórias, afetos e lutas que se constrói aquilo que somos.
Nota do Editor - Portal Splish Splash
O espetáculo Carta Branca: A garota não — A Vulgar Mulher Extraordinária chega ao CCB como uma poderosa celebração da memória feminina e da liberdade. Mais do que um concerto, é um tributo às histórias invisíveis que moldam a sociedade e continuam a inspirar novas gerações.
Concerto-manifesto celebra mulheres comuns e extraordinárias no Grande Auditório do CCB
Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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