Interrupção compromete neuromodulação e faz regressar crises dolorosas
Parar antes do tempo pode custar caro… em dor
São Paulo – março 2026 - Após adiar o tratamento por quase um mês, a influenciadora Virginia Fonseca relatou em suas redes sociais que teve um quadro de piora das dores. “Esses últimos dias foram horríveis, gente. Eu não estava comentando muito aqui, senão seria todos os dias a mesma coisa. Mas nos dias em que eu não acordava com dor de cabeça, eu ia dormir com dor de cabeça", disse a influenciadora, que admitiu ter ‘espaçado’ o tratamento. “Ela é uma paciente grave com a enxaqueca crônica e quando há esse espaçamento, essa interrupção temporária do tratamento, o paciente volta a ter de fato mais dores e acaba piorando. Não é tão frequente o paciente espaçar o tratamento, mas isso acontece quando se sentem bem, com menos crises, ou sem crises e acreditam que é possível espaçar o tratamento. Mas temos que entender que essa é uma doença crônica, genética, que precisa de um cronograma de tratamentos para que o paciente tenha realmente de volta sua qualidade de vida”, explica o neurologista Dr. Tiago de Paula*, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). O médico faz parte da equipe que atende a influenciadora e reforça a importância de seguir o tratamento, que muitas vezes envolve a aplicação da toxina botulínica.
O neurologista explica que o tratamento visa ensinar um cérebro que aprendeu um caminho de dor a desfazer esse caminho. “É basicamente isso. A gente está desfazendo um caminho da dor que o cérebro aprendeu a fazer, principalmente no paciente crônico. No tratamento, que visa a neuromodulação, tanto com a toxina botulínica quanto medicamentos monoclonais Anti-CGRP, o objetivo é ensinar o cérebro a não causar mais dor”, explica o médico. “Quando espaçamos ou interrompemos o tratamento, começamos a perder essa neuromodulação e o paciente, invariavelmente, começa a piorar das dores. E perdemos a melhora progressiva”, destaca o Dr. Tiago de Paula. “Toda vez que o paciente segue o tratamento, ele fica melhor nos outros três meses. Quando ele não faz isso, ele perde essa melhora. E ainda há piora das dores”, explica.
O neurologista lembra que a enxaqueca impacta a vida das pessoas em diversos aspectos. “Além da dor latejante, o paciente fica mais sensível à luz, aos sons e ao barulho, sofre com náuseas e tontura e tem uma piora no sono, na atenção e na memória”, explica. Segundo o especialista, a doença é genética. “Existe também uma questão hormonal. Hormônios como o estrogênio influenciam na sensibilidade e prevalência dos sintomas. Por isso, é mais comum em mulheres”, pontua. Mas o Dr. Tiago ressalta que os fatores epigenéticos, isto é, do ambiente em que a pessoa está inserida, também possuem um impacto importante na evolução da doença. “Por exemplo, uma pessoa que tem uma vida muito intensa, está sempre exposta a estímulos, sofre com grande estresse e não dorme direto tende a sofrer com crises mais frequentes e mais graves”, ressalta o médico. “A alimentação também pode favorecer uma piora da enxaqueca, principalmente aqueles alimentos que deixam o cérebro mais acelerado, pois trata-se de uma doença relacionada à hiperexcitabilidade cerebral. Por isso, é recomendado evitar estimulantes, como café, chocolate e energéticos, e termogênicos, incluindo gengibre e pimenta vermelha, por exemplo”, detalha o médico.
O tratamento da condição vai além do manejo dos gatilhos e cronificadores da enxaqueca, podendo incluir uma série de outras estratégias para melhorar a intensidade da dor e diminuir a frequência das crises. “A abordagem global e integrada no tratamento visa atuar em todos os aspectos da doença para promover melhora rápida e devolver qualidade de vida ao paciente. Além de mudanças na alimentação e no estilo de vida acompanhadas por nutricionistas e psicólogos, utilizamos tratamentos de primeira linha com evidência cientifica para a condição, como a toxina botulínica, que é aplicada em pontos nervosos específicos para reduzir a sensibilidade do cérebro a dor, ajudando, assim, no controle da enxaqueca”, diz o especialista. “Mas é fundamental seguir o plano de tratamento”, finaliza.
*DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Autor principal de estudo premiado como Melhor Pôster pelos participantes do Congresso Internacional de Cefaleia 2025, o médico tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). Pesquisador sobre dores de cabeça, o médico também é palestrante em congressos nacionais e internacionais e autor de artigos, capítulos, livros e publicações científicas. CRMSP 168999 | RQE 18111 | Instagram: @drtiagodepaula
Nota do Editor - Portal Splish Splash
A enxaqueca continua a ser subestimada por quem nunca a sentiu — e, muitas vezes, mal gerida por quem a sofre. O caso relatado mostra algo simples, mas crucial: quando o tratamento funciona, não é altura de o “testar”. É altura de o respeitar. Em doenças crónicas, a disciplina não é um detalhe — é o próprio tratamento.
Interrupção compromete neuromodulação e faz regressar crises dolorosas
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
Comentários
Enviar um comentário
🌟Copie um emoji e cole no comentário: Clique aqui para ver os emojis