Disautonomia: quando a enxaqueca afeta o corpo inteiro

Disautonomia associada à enxaqueca crônica pode provocar desmaios. Entenda causas, sintomas e tratamentos indicados por especialistas.

Cartaz informativo sobre disautonomia associada à enxaqueca crônica e episódios de desmaio


A enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça: pode afetar vários sistemas do organismo


Em alguns casos, a instabilidade do sistema nervoso autônomo pode até provocar desmaios

São Paulo – março 2026 - Pacientes com enxaqueca crônica, além das fortes dores de cabeça, maior sensibilidade à luz e ao som, também podem sofrer com desmaios, em um quadro conhecido como disautonomia. De acordo com o Dr. Tiago de Paula*, neurologista especialista em Cefaleia, membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC), existe sim relação. “Dentro de um contexto de enxaqueca crônica, ocorre com frequência a disautonomia, uma perda do controle automático. A enxaqueca é uma doença neurológica que afeta o cérebro como um todo, inclusive o sistema que controla a pressão, o batimento do coração e até a circulação do sangue. Durante uma crise, o sistema nervoso autônomo que deveria manter tudo estável entra em pane. É o que a gente chama de disautonomia. A pressão pode cair, o sangue pode não chegar direito ao cérebro... e pronto: o corpo apaga por alguns segundos. Isso acontece mais em quem tem enxaqueca crônica, porque o cérebro vive em alerta, sensível a qualquer estímulo. Ou seja, o desmaio não é ‘drama’ nem frescura, assim como a enxaqueca”, diz o médico.

De forma fisiológica, o neurologista explica que, durante a crise de enxaqueca, há uma ativação do sistema trigeminovascular, com liberação de mediadores, como CGRP, serotonina e óxido nítrico. “Essas substâncias podem alterar o tônus dos vasos sanguíneos, afetando esse sistema nervoso autônomo, causando a disautonomia”, explica o médico.

Segundo o médico, ao contrário do senso comum, a dor de cabeça não é o único sintoma da enxaqueca. “A enxaqueca impacta a vida das pessoas em diversos aspectos. Além da dor latejante, o paciente fica mais sensível à luz, aos sons e ao barulho, sofre com náuseas e tontura e tem uma piora no sono, na atenção e na memória”, explica o Dr. Tiago de Paula.

A doença é genética, mas há vários fatores de risco para o agravamento da doença. “Existe também uma questão hormonal. Hormônios como o estrogênio influenciam na sensibilidade e prevalência dos sintomas. Por isso, é mais comum em mulheres”, pontua. Mas o Dr. Tiago ressalta que os fatores epigenéticos, isto é, do ambiente em que a pessoa está inserida, também possuem um impacto importante na evolução da doença. “Por exemplo, uma pessoa que tem uma vida muito intensa, está sempre exposta a estímulos, sofre com grande estresse e não dorme direto tende a sofrer com crises mais frequentes e mais graves”, ressalta o médico. “A alimentação também pode favorecer uma piora da enxaqueca, principalmente aqueles alimentos que deixam o cérebro mais acelerado, pois trata-se de uma doença relacionada à hiperexcitabilidade cerebral. Por isso, é recomendado evitar estimulantes, como café, chocolate e energéticos, e termogênicos, incluindo gengibre e pimenta vermelha, por exemplo”, detalha o médico.

Mas o tratamento da condição vai além do manejo dos gatilhos e cronificadores da enxaqueca, podendo incluir uma série de outras estratégias para melhorar a intensidade da dor e diminuir a frequência das crises. Porém, o neurologista ressalta que os remédios para crises de enxaqueca não tratam o problema. “Pelo contrário. Os remédios para crises são cronificadores da enxaqueca. Esses medicamentos não tratam a doença de forma efetiva e, quanto mais remédios você toma, menos eles funcionam e mais dor você sente. É um quadro conhecido como cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Além disso, esses remédios podem prejudicar a eficácia dos tratamentos de primeira linha”, alerta o médico.

O tratamento da enxaqueca deve focar em uma abordagem global e integrada para atuar em todos os aspectos da doença, assim promovendo uma melhora rápida e devolvendo qualidade de vida ao paciente. “Além de mudanças na alimentação e no estilo de vida acompanhadas por nutricionistas e psicólogos, utilizamos tratamentos de primeira linha com evidência cientifica para a condição, como a toxina botulínica, que é aplicada em pontos nervosos específicos para reduzir a sensibilidade do cérebro a dor, ajudando, assim, no controle da enxaqueca”, diz o especialista.

O médico explica que outra opção entre os tratamentos de primeira linha são os medicamentos monoclonais Anti-CGRP, primeiros medicamentos desenvolvidos, do início ao fim, para enxaqueca. “Eles bloqueiam o efeito do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), que contribui para a inflamação e transmissão de dor e está presente em maiores níveis em pacientes com enxaqueca”, detalha o neurologista, que acrescenta que, em pacientes com enxaqueca crônica, a combinação da toxina botulínica com os anti-CGRPs tem se mostrado mais eficaz do que o uso isolado dessas terapias.

Além disso, sessões de fisioterapia também podem ser indicadas, inclusive com o uso de dispositivos de neuroestimulação que ajudam a aliviar as crises de enxaqueca. “Essa tecnologia promove uma estimulação elétrica transcutânea do nervo trigêmeo, diminuindo a transmissão de sinais de dor e reduzindo a excitabilidade cerebral, o que contribui para a redução da intensidade e da frequência das crises”, detalha o Dr. Tiago de Paula. Por fim, é importante ressaltar que a enxaqueca crônica não tem cura, mas tem controle. “A avaliação individual é essencial para recomendação do plano de tratamento mais adequado para cada caso. O médico também poderá auxiliar na identificação de gatilhos e fatores cronificadores da doença, o que é fundamental para o controle das crises”, finaliza.

*DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).  Autor principal de estudo premiado como Melhor Pôster pelos participantes do Congresso Internacional de Cefaleia 2025, o médico tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia.  Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). Pesquisador sobre dores de cabeça, o médico também é palestrante em congressos nacionais e internacionais e autor de artigos, capítulos, livros e publicações científicas. CRMSP 168999 | RQE 18111 | Instagram: @drtiagodepaula

Nota do Editor - Portal Splish Splash
A enxaqueca continua a ser subestimada por muitas pessoas, que a confundem com uma simples dor de cabeça passageira. No entanto, trata-se de uma doença neurológica complexa que pode interferir em diversos sistemas do organismo, incluindo o sistema nervoso autónomo. Este artigo ajuda a compreender melhor a disautonomia associada à enxaqueca crónica, um quadro que pode provocar sintomas intensos, como tonturas e até desmaios, reforçando a importância do diagnóstico e acompanhamento médico adequados.

 

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