Estado reconhece quatro marcos históricos e reforça identidade fluminense
Preservar é um ato de responsabilidade coletiva. Quando a memória é protegida, o futuro ganha raízes.
O Estado do Rio de Janeiro oficializou o tombamento definitivo de importantes bens históricos de São Fidélis, no Norte Fluminense, reforçando a política pública de valorização do património cultural. A medida, publicada em Diário Oficial pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SececRJ), por meio do Instituto Estadual do Património Cultural (Inepac), garante proteção formal à Igreja Matriz de São Fidélis de Sigmaringa, ao Solar do Barão de Vila Flor e à emblemática Ponte Metálica sobre o Rio Paraíba do Sul — bens que, na prática, já eram símbolos da cidade, mas que agora passam a ser também património oficialmente reconhecido pelo Estado.
O ato, homologado após parecer do Conselho Estadual de Tombamento e assinado pela secretária Danielle Barros, consolida a atuação do Inepac na salvaguarda da memória fluminense. Mais do que um gesto administrativo, trata-se de um compromisso com a identidade dos territórios e com a preservação de narrativas que atravessam gerações.
Igreja Matriz de São Fidélis
Fundada em 1808 e aberta ao culto em 1809 por monges capuchinhos italianos, a Igreja Matriz de São Fidélis nasceu num contexto histórico marcado pelo apoio de fazendeiros locais e pela utilização de mão de obra escravizada, com recursos provenientes de taxas sobre terras indígenas ocupadas. É uma construção que carrega, portanto, tanto a dimensão espiritual quanto as complexidades sociais do seu tempo.
Projetada com proporções monumentais para a realidade interiorana da época, a igreja apresenta planta em cruz latina, nave única, abóbadas de berço e piso em mármore. O estilo barroco italianizado, com influências clássicas, revela uma transição estética entre o Renascimento e o Barroco. No interior, destacam-se as pinturas murais — como os quatro evangelistas sob a cúpula — e a riqueza decorativa dos altares laterais. Na Capela do Santíssimo encontram-se os túmulos dos fundadores, além de talhas em madeira com detalhes dourados.
Ao longo dos séculos, o templo enfrentou períodos de abandono e passou por restauros importantes, especialmente em 1845 e 1962. Esta última intervenção preservou o interior, mas alterou elementos da fachada original. Ainda assim, a igreja permanece como um marco da arquitetura brasileira, sobretudo pela técnica construtiva singular que utilizou materiais regionais, como o saibro, para erguer uma estrutura de inspiração europeia no interior fluminense.
Endereço: Rua Coronel João Sanches, 248, Santa Lúcia.
Solar do Barão de Vila Flor
Construído em 1847 por João Manoel de Souza, futuro Barão de Vila Flor, o solar está intimamente ligado ao desenvolvimento político e social de São Fidélis. O proprietário teve papel decisivo na elevação do povoado à categoria de Vila, em 1850, após articulação direta com D. Pedro II. O casarão tornou-se, assim, palco de encontros históricos e hospedou figuras ilustres como o Imperador e a Imperatriz, a Princesa Isabel, o Conde d’Eu e, já no século XX, o presidente Getúlio Vargas.
Arquitetonicamente, o edifício é um exemplar típico da construção colonial brasileira de meados do século XIX. Possui pavimento único, alinhamento frontal, telhado em duas águas com telhas capa-canal e fachada composta por corpo central ladeado por alpendre com rendilhado em madeira e forro do tipo “saia e camisa”. No interior, preserva piso em tábua corrida e forros originais em madeira, elementos que reforçam o seu valor histórico.
Doado à Prefeitura em 1957 pelos descendentes do Barão, o imóvel ganhou nova vida como espaço cultural e educativo. Atualmente abriga a Biblioteca Municipal, o Museu Municipal e dependências da Secretaria de Cultura e Turismo, mantendo-se como centro ativo de memória e formação cidadã.
Endereço: Praça São Fidélis, 60, lote 130, Santa Lúcia.
Ponte Metálica de São Fidélis
Inaugurada em agosto de 1891, a Ponte Metálica representa um capítulo marcante da engenharia ferroviária no Brasil. Embora o projeto seja atribuído à engenharia inglesa, a estrutura foi fabricada pela empresa americana Phoenix Iron Company. Seu diferencial técnico é a utilização da chamada Coluna Phoenix, estrutura tubular de ferro forjado, oca e circular, considerada inovadora à época, compondo treliças conectadas por pinos que sustentam a ponte.
Com cerca de 460 a 500 metros de extensão, divididos em oito vãos apoiados sobre sete pilares maciços de alvenaria de pedra, a ponte foi inicialmente concebida para o tráfego ferroviário. Com o declínio das linhas férreas, recebeu tabuleiro de concreto e passou a servir ao tráfego rodoviário, ligando o 1º Distrito ao 2º Distrito (Ipuca).
Mais do que via de passagem, tornou-se cartão-postal da chamada “Cidade Poema”. Em 2020, passou por revitalização com nova pintura e iluminação, preservando sua identidade visual e reafirmando seu valor histórico, turístico e simbólico como ícone da industrialização do século XIX no interior fluminense.
Endereço: Vila Tião Paulo, São Fidélis.
O tombamento destes bens não é apenas um selo oficial. É uma declaração de que a memória importa, de que a arquitetura conta histórias e de que o património não é ornamento: é fundamento. São Fidélis ganha, assim, não só proteção legal, mas reconhecimento público da sua relevância histórica para o Estado do Rio de Janeiro.
Nota do Editor - Portal Splish Splash
Valorizar o património é mais do que conservar paredes antigas; é respeitar as camadas de tempo que moldam a identidade de um povo. Ao proteger estes marcos de São Fidélis, o Estado reafirma que desenvolvimento e memória não são opostos — são aliados quando há visão cultural e responsabilidade histórica.
Estado reconhece quatro marcos históricos e reforça identidade fluminense
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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