Chocolate, enxaqueca e infância: o alerta de Virginia Fonseca

Chocolate, cafeína e outros alimentos podem agravar a enxaqueca. Entenda a relação entre dieta, infância e controle das crises.

Virginia Fonseca ao lado da filha Maria Alice em foto familiar

 

Quando a alimentação vira aliada no controle da enxaqueca desde cedo


O que vai ao prato não faz milagres, mas pode ser o empurrão certo para menos crises e mais qualidade de vida

São Paulo – fevereiro 2026 - Na terça-feira (03), a influenciadora e empresária Virginia Fonseca contou, pelos stories do Instagram, que sua filha Maria Alice parou de comer chocolate preto por conta de dores de cabeça. “Mariazinha parou de comer chocolate preto porque estava dando dor de cabeça e foi muito fofinha porque eu só falei assim: ‘Maria, a mamãe também sente dor de cabeça quando come chocolate preto, por isso eu só como o branco’. E antes ela não comia o branco de jeito nenhum e começou a comer. Ela é muito determinada quando é para se cuidar", disse Virginia, que já compartilhou diversos relatos sobre suas crises de enxaqueca, doença neurológica crônica que afeta cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), e é considerada a segunda principal causa de anos vividos com incapacidade. “A doença é genética, com cerca de 180 loci (locais no código genético) que predispõem à doença, mas existe também uma questão hormonal. Hormônios como o estrogênio influenciam na sensibilidade e prevalência dos sintomas. Por isso, é mais comum em mulheres. E crianças sofrem muito porque muitas vezes as dores são invalidadas, tratadas como ansiedade, medicadas de maneira errada, com remédios que muitas vezes mascaram a doença", ressalta o Dr. Tiago de Paula*, neurologista especialista em Cefaleia, membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Dada a sua gravidade, não é possível sentenciar que a alimentação pode ser a única responsável por tratar a enxaqueca. Mas fatores epigenéticos, isto é, do ambiente em que a pessoa está inserida, possuem um impacto importante na evolução da doença. "A alimentação pode favorecer uma piora da enxaqueca, principalmente aqueles alimentos que deixam o cérebro mais acelerado, pois trata-se de uma doença relacionada à hiperexcitabilidade cerebral. Por isso, é recomendado evitar estimulantes, como café, chocolate e energéticos, e termogênicos, incluindo gengibre e pimenta vermelha, por exemplo”, detalha o médico.

Para entender a relação entre enxaqueca e alimentação, é importante saber que existem basicamente duas classificações para alimentos que influenciam na enxaqueca: os que são gatilhos e aqueles considerados cronificadores. “O vinho, por exemplo, é um gatilho. Além do álcool, ele tem taninos que podem causar a liberação de serotonina, um neurotransmissor que pode afetar a circulação sanguínea no cérebro, levando à dor de cabeça. No caso dos queijos, alguns podem ser gatilhos. Esses alimentos podem ser retirados em um primeiro momento, mas com o tratamento adequado, eles podem ser reintroduzidos, pois perdem a força com o passar do tempo. O mesmo não ocorre com os cronificadores, como o chocolate. Ele entra na mesma linha do café. O cacau é uma das sementes com mais cafeína depois do próprio café”, comenta o médico. “A cafeína, se consumida em quantidade excessiva, pode causar sintomas indesejáveis, entre eles a cefaleia. Além disso, algumas pessoas são sensíveis à cafeína e mesmo com pequenas doses podem desencadear dores de cabeça. E pessoas habituadas a consumir café diariamente, se ficarem um dia sem tomar café, podem também ter cefaleia, pela falta”, destaca a Dra. Marcella Garcez*, médica nutróloga, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia. “A cafeína presente no café e nos chás estimulantes é conhecida como cronificador da doença. Um exemplo clássico de dor rebote pela cafeína se dá quando o paciente deixa de tomar por um dia o café que toma diariamente e tem uma dor de cabeça, e então toma o café para melhorar”, diz o médico. Além disso, o neurologista explica que o cérebro de quem sofre com enxaqueca já apresenta uma tendência maior a reagir de forma intensa a estímulos sensoriais, como luzes fortes, ruídos ou variações hormonais. “Fatores cronificadores ampliam essa reatividade, modificando circuitos cerebrais relacionados à dor e dificultando o retorno ao padrão normal”, diz o Dr. Tiago de Paula. “Quando há uma recomendação de redução no consumo, a bebida pode ser substituída por chás, por exemplo”, diz a Dra. Marcella. “Chás relaxantes, como o de erva-cidreira, camomila e hortelã podem ser ingeridos”, sugere o médico.

De acordo com a médica nutróloga, alguns dos fortes sintomas da enxaqueca podem ser amenizados com uma alimentação equilibrada. “É interessante principalmente a inclusão de castanha-do-pará, atum, canela, vegetais verde escuros e grão de bico, que podem ajudar a diminuir as crises de enxaqueca. Alimentos ricos em selênio e magnésio são importantes para diminuir o estresse”, explica a Dra. Marcella. “Evitar fast-foods, frituras e alimentos gordurosos, que têm perfil mais inflamatório e liberam prostaglandina, também é fundamental, assim como diminuir o consumo de cafeinados, substâncias que alteram a circulação sanguínea e de bebidas alcoólicas, ligadas à vasodilatação”, explica a médica.

Mas o tratamento da condição vai além do manejo dos gatilhos e cronificadores da enxaqueca. E segundo o Dr. Tiago de Paula, hoje já existem evidências de opções terapêuticas  eficazes que podem ser usadas em criança, como o Fremanezumabe, medicamento de primeira linha de tratamento para enxaqueca que, segundo estudo  publicado no ano passado, pode ser usado com eficácia, segurança e tolerabilidade em crianças acima de seis anos e adolescentes. "Antes disso só existiam remédios orais como os anticonvulsivantes e outros que foram emprestados de outras doenças para tratar a enxaqueca nessa faixa etária. Tínhamos muitos casos que não respondiam de forma adequada a esses medicamentos. Esse tratamento já existe no Brasil, só que era restrito aos adultos, não era usado em crianças. E agora pode. Criança tem que ficar sem crise, tem que ir para a escola, brincar. Muitas crianças sofrem muito com enxaqueca. Os pais, muitas vezes por desconhecimento, lidam com isso de forma equivocada, achando que a criança está ansiosa, querendo chamar atenção, que é preguiçosa e não quer ir para a escola. Então, tratamentos como esse são uma virada de página para crianças com enxaqueca”, diz o médico. Mas a avaliação individual é essencial para recomendação do plano de tratamento mais adequado para cada caso. "O médico também poderá auxiliar na identificação de gatilhos e fatores cronificadores da doença, o que é fundamental para o controle das crises”, finaliza.

*DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). Pesquisador sobre dores de cabeça, o médico também é palestrante em congressos nacionais e internacionais e autor de artigos, capítulos, livros e publicações científicas. CRMSP 168999 | RQE 18111 | Instagram: @drtiagodepaula
*DRA. MARCELLA GARCEZ: Médica nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Federal de Medicina (CFM), Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo. Além disso, é membro da Sociedade Brasileira de Medicina Estética e da Sociedade Brasileira para o Estudo do Envelhecimento. Instagram: @dra.marcellagarcez

Nota do Editor – Portal Splish Splash
Casos como o relatado por Virginia Fonseca ajudam a tirar a enxaqueca da sombra do “drama exagerado” e a colocá-la onde deve estar: como um problema neurológico real, que exige informação, acompanhamento médico e escolhas conscientes desde a infância.
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