Marco da Silva Ferreira estreia no CCB uma criação onde o corpo resiste, insiste e transforma o futuro em movimento coletivo
Não sabemos o que vem a seguir. Mas sabemos que não ficamos parados
Há espetáculos que não se explicam: atravessam-se. Fcking Future*, nova criação de Marco da Silva Ferreira, assume essa condição desde o primeiro gesto. Em cena, não há a procura de uma forma acabada, confortável ou facilmente identificável. Há, antes, uma insistência. Uma repetição que não esgota, que não fecha, que insiste até dissolver a própria ideia de forma.
Como escreve Cristina Planas Leitão, existe aqui uma liberdade rara, possível apenas porque “estamos todos juntos”. Uma liberdade que nasce da persistência, do continuar, continuar, continuar — até que essa insistência se transforme em libertação coletiva. Mesmo quem não está em palco faz parte desse “nós”, porque Fcking Future* não pertence apenas aos intérpretes: pertence ao campo comum que se cria entre corpos, espaço e tempo.
A peça convoca a chamada Quinta Essência, não como elemento isolado, mas como aquilo que atravessa e integra Terra, Água, Ar e Fogo. Um estado de equilíbrio instável, invisível, onde tudo se articula. Na tradição alquímica, seria o ouro filosófico entendido como estado e não como objeto. Aqui, manifesta-se como um quinto lado que emerge da frontalidade das quatro frentes de um palco quadrifrontal, expondo tensões e fricções sem as suavizar.
Entre militância e militarização, Fcking Future* coreografa a fricção real entre sistemas que moldam corpos, comportamentos, expectativas e desejos. Não como metáfora distante, mas como prática física. Os mesmos sistemas que nos formatam são usados em cena até ao limite. O resultado é um território de resistência ativa: permanecer, insistir, mover-se. Não recuar.
Apresentado no Palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, de 20 a 22 de fevereiro, o espetáculo reúne um elenco e uma equipa artística que partilham essa ética de risco e de exposição total. A distinção recente de Marco da Silva Ferreira com o Chanel Next Prize 2026 sublinha o impacto internacional de um trabalho que não procura consenso fácil, mas transformação profunda.
Porque o futuro pode ser incerto. Mas aqui, pelo menos, não é passivo.
Nota do Editor – Portal Splish Splash
Entre a urgência política e a fisicalidade extrema, Fcking Future* afirma-se como um gesto artístico que não pede licença nem oferece conforto, lembrando-nos que o movimento continua a ser uma forma radical de resistência.
Marco da Silva Ferreira estreia no CCB uma criação onde o corpo resiste, insiste e transforma o futuro em movimento coletivo
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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