TITUS: Shakespeare, violência e poder em palco

Cartaz do espetáculo TITUS no CCB, releitura de Titus Andronicus de Shakespeare sobre violência e poder

Uma releitura radical de Titus Andronicus à luz da brutalidade do mundo atual

O poder, quando não encontra limites, devora tudo à sua volta

"A violência nunca é neutra."
Vímara Porto

Entre 16 e 18 e 23 e 25 de janeiro, o Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém recebe TITUS, uma criação da Estrutura que revisita Titus Andronicus, uma das primeiras e mais violentas tragédias de William Shakespeare, confrontando o público com a inquietante atualidade dos seus temas.

Nesta adaptação e encenação de Cátia Pinheiro e José Nunes, com texto desenvolvido em conjunto com Hugo van der Ding, a violência deixa de ser apenas matéria dramática para se tornar espelho do presente. Guerra, vingança, autocracia, misoginia e abuso de poder são expostos sem filtros, num espetáculo assumidamente para maiores de 18 anos, que não procura conforto nem soluções fáceis.

TITUS parte de uma obra marcada pelo excesso — excesso de sangue, de crueldade e de ambição — para questionar a normalização contemporânea da violência como instrumento político, social ou moral. Num mundo onde discursos autoritários se disfarçam de “guerra justa” e a paz é frequentemente imposta pela força, esta criação recusa a anestesia e insiste no desconforto.

Shakespeare não celebrava a violência: escancarava-a. É precisamente essa herança que TITUS recupera, mostrando como os mecanismos de desumanização, vingança e domínio continuam ativos e perigosamente naturalizados. A encenação aposta numa leitura crítica e física, onde o corpo, a palavra e a imagem constroem uma experiência intensa, perturbadora e deliberadamente frontal.

O elenco reúne Cátia Pinheiro, João Nunes Monteiro, João Oliveira, Maria Inês Peixoto, Pedro Frias, Roldy Harrys, Rui Maria Pêgo, Tiago Jácome, Tita Maravilha e Vicente Gil, dando voz e corpo a um universo onde a barbárie não pertence ao passado — apenas muda de máscara.

O espetáculo integra ainda um debate público intitulado Ecos de Titos Andrónicos: da Tragédia à Geopolítica, no dia 22 de janeiro, às 19h00, na Sala Sophia de Mello Breyner Andresen. Com Joana Ricarte e Nuno Severiano Teixeira, e moderação de Rui Maria Pêgo, a conversa parte da tragédia shakespeariana para refletir sobre os conflitos contemporâneos, com destaque para Gaza, Ucrânia e Sudão. Uma discussão onde teatro, pensamento crítico e análise política se cruzam para questionar a banalização da violência e a sua aceitação crescente no espaço público.

Horários do espetáculo
Sextas-feiras às 20h00
Sábados às 19h00
Domingos às 17h00

Local
Centro Cultural de Belém
Pequeno Auditório

*Nota do Editor – Portal Splish Splash*
Há espetáculos que não servem para agradar. Servem para acordar. TITUS pertence a essa categoria rara e necessária: teatro que incomoda, obriga a pensar e recusa pactuar com a indiferença. Num tempo de discursos simplistas e violência normalizada, este é um murro no estômago — e ainda bem. 
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