Reunião de Condomínio: ninguém é inocente por completo

Resenha do livro Reunião de Condomínio, de Alexandre Lino, que explora com humor e crítica as contradições da vida urbana e das relações humanas.
Capa do livro Reunião de Condomínio, de Alexandre Lino, ao lado do autor

Contos urbanos revelam o lado oculto das relações cotidianas


Nem o elevador social salva as aparências

"Onde há convivência forçada, há conflito, silêncio e pequenas vinganças."
Alba Fraga Bittencourt

Alexandre Lino estreia na literatura com a coletânea de contos Reunião de Condomínio, um retrato afiado — e muitas vezes desconfortável — das dinâmicas sutis e desarmoniosas da vida urbana. Aqui, o banal nunca é apenas banal. Cada gesto, cada reclamação e cada silêncio carrega algo a mais, como se o cotidiano estivesse sempre prestes a descarrilar.

O conto que dá nome ao livro funciona como cartão de visita do universo criado pelo autor. Numa assembleia de condomínio, ninguém é exatamente vítima, ninguém é exatamente culpado. Há o morador que transforma a raiva em “presentes” deixados à porta alheia, a idosa incomodada por um simples desenho, o vizinho que faz festas madrugada adentro e parece imune a qualquer reclamação. Situações reconhecíveis, tratadas com humor ácido e um leve desconforto moral.

Esse tom se espalha por toda a obra. As narrativas transitam com naturalidade entre o cômico e o trágico, o cotidiano e o extraordinário. Em uma cidade sem nome — justamente para poder ser qualquer cidade — cada conto apresenta um narrador diferente, ampliando o mosaico humano que sustenta o livro.

Thiago é o empresário que acredita não repetir os vícios do mercado, até perceber que a realidade cobra seu preço. Ferraz planeja pedir demissão como quem busca um último gesto de autonomia. Abílio, um idoso multimilionário, idealiza a vida simples de Luiz Américo, sem saber que este leva uma existência dupla como agiota. Angelique, defensora fervorosa do pensamento positivo, deve mais do que gostaria de admitir — inclusive a Luiz Américo.

Um dos trechos mais reveladores expõe o discurso corporativo moderno, embalado por marketing e boas intenções, até que as engrenagens começam a ranger:

Se a empresa era tão boa, isso precisava ser dito ao mundo. Fechou contratos com agências de marketing para divulgar prêmios de ‘Melhor Lugar para Trabalhar’, com fotos do escritório e discursos sobre inovação. Os clientes precisavam enxergar o diferencial. Os funcionários precisavam saber quão legal era a empresa deles. Só que um dos maiores clientes era um banco. E banco gostava de certas formalidades. A vestimenta precisou se adequar. Nada grave, só ajustes. E já que as contas não batiam, o expediente de sexta-feira, antes meio período, passou a ser integral. (Reunião de Condomínio, p. 21-22)

A formação em Psicologia de Alexandre Lino não aparece como discurso acadêmico, mas como ferramenta narrativa. O autor observa seus personagens sem maniqueísmo, interessado menos em julgá-los e mais em expor as contradições que os tornam humanos. Não há heróis nem vilões. Há pessoas comuns tentando se sustentar em meio a pequenas hipocrisias, desejos frustrados e escolhas mal resolvidas.

Como o próprio autor define, este livro é uma tentativa de organizar a desordem do pensamento e da vida. E talvez seja exatamente isso que torna Reunião de Condomínio tão próximo do leitor: a sensação incômoda de que, em alguma medida, todos nós já estivemos — ou ainda estamos — naquela assembleia.

Ficha técnica
Título: Reunião de Condomínio
Autor: Alexandre Lino
ISBN: 978-65-01-75696-7
Páginas: 178
Preço: R$ 75,77 (físico) | R$ 8,99 (e-book)
Onde encontrar: Uiclap | Amazon

Sobre o autor
Alexandre Lino é psicólogo formado pela Universidade Federal da Bahia, pós-graduado em Gamificação pela Unifacs e atua há mais de 15 anos na área de recursos humanos, com projetos de desenvolvimento de pessoas, treinamento e gestão. Trabalha também com produção e desenvolvimento de jogos. Reunião de Condomínio marca sua estreia na literatura.Instagram: @alexandrelinoescritor

*Nota do Editor – Portal Splish Splash*
Condomínios são microcosmos sociais: o livro de Alexandre Lino entende isso e explora o tema com inteligência, ironia e um olhar clínico sobre o que preferimos fingir que não vemos. 
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