Um documentário brasileiro investiga como conflitos distantes moldam redes de poder na América Latina
O que parece distante pode estar perigosamente próximo
"As fronteiras invisíveis são, muitas vezes, as mais fáceis de atravessar."
Carmen Augusta
O documentário brasileiro Pacto Invisível, produzido pela Luz em Ação, propõe uma investigação séria e desconfortável sobre ligações raramente discutidas entre radicalização ideológica no Oriente Médio, organizações criminosas transnacionais e o narcotráfico na América Latina. A partir de uma história real, o filme revela como conflitos geopolíticos aparentemente distantes acabam por ter impactos diretos na segurança, na política e no quotidiano de vários países da região. A estreia está marcada para o dia 23 de janeiro, às 18h, no canal oficial da produtora no YouTube.
A narrativa acompanha o percurso de um homem que, ainda jovem, se envolve com um grupo radical no Líbano. Impulsionado por perdas pessoais profundas e por um discurso de libertação nacional, o que começa como adesão ideológica rapidamente degenera em participação activa em acções extremas. O documentário mostra como este envolvimento o conduz a redes de violência estruturadas e operações de elevado risco, onde a ideologia serve muitas vezes de porta de entrada para dinâmicas bem mais pragmáticas.
Ao deixar o Oriente Médio, o protagonista acaba por se inserir em estruturas ligadas ao narcotráfico internacional na América Latina. Pacto Invisível expõe de forma clara como grupos extremistas passaram a estabelecer ligações estratégicas com organizações criminosas latino-americanas, sobretudo quando essas rotas se tornaram fontes alternativas de financiamento. Segundo a investigação apresentada, as sanções internacionais impostas ao Irão não interromperam os fluxos financeiros destinados a grupos aliados, mas forçaram uma reconfiguração das suas estratégias. Diversificar fontes de rendimento tornou-se uma questão de sobrevivência operacional.
Neste contexto, o documentário aponta organizações como o Hezbollah como exemplos de actores que passaram a explorar conscientemente parcerias com redes de tráfico de drogas na América Latina, numa lógica de manutenção de poder, influência e capacidade de actuação. O tema é tratado sem alarmismo, mas também sem ingenuidade, deixando claro que estas alianças não são acidentais nem episódicas.
A Venezuela surge como um dos eixos centrais da investigação. A produção apresenta o país como um território estratégico para a expansão da influência iraniana e de grupos aliados, apoiando-se em depoimentos de especialistas e em dados que evidenciam a fragilidade institucional, o isolamento internacional e a crise prolongada como factores facilitadores. O documentário mostra ainda como essa presença passa por estratégias de inserção social e por ligações directas a estruturas que dialogam com o crime organizado regional, com impactos claros na segurança dos países vizinhos.
O ponto culminante da narrativa ocorre na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, uma região historicamente marcada por actividades ilícitas e pela actuação de organizações criminosas transnacionais. É ali que o protagonista vive um episódio decisivo, que altera de forma radical o rumo da sua vida. A partir desse momento, o filme amplia o foco e discute como fronteiras frágeis, corrupção, ausência do Estado e redes internacionais de crime se interligam, criando um terreno fértil para a actuação conjunta de traficantes e grupos extremistas.
Dirigido por Marcelo Enns, Pacto Invisível adopta uma abordagem ética e investigativa, fugindo ao sensacionalismo fácil e à glorificação da violência. O interesse está nas consequências humanas, sociais e políticas destas redes, e não na sua estetização. Para garantir rigor e profundidade, o documentário reúne especialistas reconhecidos internacionalmente nas áreas do terrorismo, inteligência, história islâmica e segurança internacional, como Emanuele Ottolenghi, Joseph Humire, Phil Gursky e o professor Marcos Alan.
Ao ligar Oriente Médio, América Latina e Brasil numa mesma narrativa, Pacto Invisível afirma-se como uma obra relevante para o debate contemporâneo sobre radicalização, narcotráfico, crime transnacional e geopolítica. Não oferece respostas simples, mas ajuda a fazer as perguntas certas — e isso, hoje, já não é pouco.
Num tempo em que a realidade insiste em ser mais complexa do que os slogans, Pacto Invisível presta um serviço essencial: expõe ligações incómodas, sem histeria nem filtros ideológicos. Ver este documentário é aceitar que o mundo não funciona por compartimentos estanques — e que ignorar essas ligações tem sempre um preço.
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