Calor extremo no verão exige atenção redobrada à saúde

Especialista alerta para os riscos do calor extremo, sintomas de desidratação e golpe de calor, além de dicas práticas de prevenção no verão.
Cartaz informativo sobre prevenção da desidratação e do golpe de calor no verão

Altas temperaturas aumentam riscos de desidratação e golpe de calor


O calor intenso não é apenas desconforto, é um risco real à saúde

"Prevenir hoje é evitar urgências médicas amanhã."
Alda Jesus

Com a chegada do verão e o avanço de ondas de calor cada vez mais intensas, o cuidado com a saúde deixa de ser apenas uma recomendação e passa a ser uma necessidade concreta. Estudos recentes já demonstram que temperaturas extremas, tanto de frio como de calor, têm impacto direto na mortalidade urbana na América Latina, revelando um cenário que exige atenção, prevenção e informação clara para a população.

Dados do estudo “Salud Urbana em América Latina” (Salurbal), publicado em 2022 na revista Nature, indicam que quase 6% das mortes registadas em grandes cidades da região estão associadas a temperaturas extremas. A investigação analisou 326 municípios de nove países, com participação de instituições como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de São Paulo (USP).

Segundo o médico de família Dr. Raul Queiroz, da UBS Jardim Valquíria, unidade gerida pelo  CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”  em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, o golpe de calor é uma das situações mais graves associadas às altas temperaturas. O quadro ocorre quando a temperatura corporal ultrapassa os 40 °C e o organismo perde a capacidade de regular o próprio calor.

Nesse processo, mecanismos essenciais como a dilatação dos vasos sanguíneos, a sudorese, o controlo da frequência cardíaca e o equilíbrio de líquidos deixam de funcionar adequadamente. O resultado pode ser febre elevada persistente, confusão mental, ausência de suor e rápida deterioração do estado clínico.

A exposição prolongada ao calor provoca exaustão fisiológica, desencadeando processos inflamatórios e alterações metabólicas que podem comprometer órgãos vitais como cérebro, rins, fígado e coração. Em situações extremas, o quadro pode evoluir para síncope, falência orgânica e colapso circulatório.

Já a exaustão térmica representa uma forma mais leve de distúrbio relacionado ao calor. Ocorre quando há perda significativa de líquidos e sais minerais, mas ainda existe alguma capacidade de dissipação do calor corporal. Nesses casos, a temperatura tende a manter-se abaixo dos 40 °C, surgindo sintomas como fraqueza, dor de cabeça, náuseas e tonturas. Se não for controlada, pode evoluir para fadiga intensa, lentidão mental e diminuição da atenção, sinais de alerta para um possível colapso térmico.

Entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos do calor estão idosos, crianças pequenas, gestantes, trabalhadores e atletas expostos ao sol, pessoas com doenças cardíacas, renais ou metabólicas e moradores de áreas urbanas com pouca ventilação, onde predominam as chamadas ilhas de calor.

A desidratação, muitas vezes subestimada, apresenta sinais que variam conforme a gravidade. Nos quadros leves, surgem sede, boca seca e urina amarelada. Em situações moderadas, aparecem tonturas, fraqueza, taquicardia e urina escura. Já nos casos graves, podem ocorrer confusão mental, sonolência, redução ou ausência de urina, queda da pressão arterial e pele fria.

O médico reforça que, em situações leves, o mal-estar tende a melhorar com repouso, sombra e hidratação adequada. Crianças e idosos exigem atenção redobrada, pois podem apresentar sinais mais discretos ou difíceis de identificar.

Em situações de urgência, algumas medidas imediatas podem ser decisivas enquanto o socorro não chega. A orientação é acionar o SAMU pelo número 192, levar a pessoa para um local ventilado e sombreado, deitá-la com as pernas elevadas, aplicar panos húmidos, borrifar água fria, utilizar ventiladores e oferecer pequenos goles de água, desde que a pessoa esteja consciente.

Também é fundamental evitar erros comuns, como oferecer grandes quantidades de água de uma só vez, administrar bebidas alcoólicas ou energéticas e utilizar banhos excessivamente frios. A reposição intravenosa de líquidos é indicada quando há vómitos, sonolência, confusão mental, hipotensão ou ausência de urina, sendo o soro fisiológico isotónico o mais utilizado.

Para prevenir problemas relacionados ao calor intenso, recomenda-se evitar atividades físicas ao sol entre as 10h e as 16h, optar por horários mais frescos, fazer pausas regulares, hidratar-se constantemente e descansar em locais sombreados. O uso de roupas leves, claras e de tecidos respiráveis, bem como chapéus, óculos escuros e protetor solar, contribui de forma significativa para a proteção térmica.

A ingestão de água, sucos naturais, leite, água de coco, chás leves e frutas ricas em água é essencial para manter o equilíbrio hídrico e de eletrólitos. Bebidas alcoólicas, refrigerantes e opções muito açucaradas devem ser evitadas. Um indicador simples e eficaz de hidratação adequada é a cor da urina, que deve ser clara e em volume habitual.

Dr. Raul Queiroz destaca ainda a importância de políticas públicas estruturadas diante do aumento das ondas de calor, incluindo alertas meteorológicos, campanhas educativas, pontos de hidratação em áreas de grande circulação, capacitação das equipas de saúde e oferta de locais de descanso para trabalhadores expostos ao sol. Medidas simples, mas eficazes, que podem reduzir internações, prevenir acidentes e salvar vidas.

Nota do Editor – Portal Splish Splash
O calor não avisa, mas o corpo dá sinais. Ignorá-los pode custar caro. Informação, prevenção e bom senso continuam a ser os melhores aliados contra os excessos do verão.
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