Estudo brasileiro associa dores musculares infantis à fibromialgia e enxaqueca
Dores nas pernas da infância podem sinalizar condições crônicas futuras
São Paulo – setembro 2025 - A dor do crescimento é um termo utilizado para caracterizar dores musculares em crianças, principalmente nas regiões das pernas (coxas, panturrilhas ou atrás dos joelhos). Essa dor, que surge mais à noite, pode ser difusa, frequente ou esporádica, mas apesar de ser tratada como benigna, ela pode estar associada a doenças sérias e crônicas, como enxaqueca e fibromialgia. É o que mostra estudo retrospectivo brasileiro apresentado em setembro no Congresso Internacional de Cefaleia: o trabalho destaca que 62,9% dos pacientes diagnosticados com fibromialgia e enxaqueca crônica relataram dor do crescimento de forma consistente na infância. “Os dados revelam que os pacientes com histórico de dor do crescimento na infância exibem padrões de dor e sintomas característicos de enxaqueca e fibromialgia, sugerindo uma possível ligação entre as condições ao longo do tempo”, explica o neurologista Dr. Tiago de Paula*, autor principal do estudo e especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).
O estudo avaliou 780 pacientes diagnosticados com enxaqueca crônica e, entre eles, 162 tinham o diagnóstico de fibromialgia. Durante as entrevistas com os pacientes, foi feito um questionário padronizado sobre histórico de dor nos membros durante a infância, potencialmente correspondente a dores do crescimento. As respostas foram registradas e analisadas em relação aos dados clínicos dos pacientes. Segundo o especialista, a sensibilização central, um mecanismo comum em condições como fibromialgia e enxaqueca, pode começar na infância com as dores do crescimento, representando um estágio inicial do processo. “A predominância de dor nas extremidades observadas em crianças podem indicar que o sistema nervoso está começando a processar os sinais de dor de maneira muito mais amplificada, o que pode ser exacerbado por fatores ambientais ou genéticos”, comenta o autor do estudo.
O neurologista explica que existem fatores comuns entre as três condições (dor do crescimento, enxaqueca e fibromialgia). “Entre esses fatores temos os distúrbios do sono comuns na infância com dor de crescimento e também presentes na enxaqueca e na fibromialgia; os transtornos do humor como ansiedade e depressão, frequentemente associados a essas condições; e a desregulação da dor central, com dificuldade do cérebro em “filtrar” ou modular adequadamente os sinais de dor”, completa o especialista.
O trabalho também mostra que a transição das dores do crescimento para dores crônicas em adultos requer investigação mais aprofundada, particularmente a respeito do papel da sensibilização central no desenvolvimento de condições como enxaqueca e fibromialgia. “O estudo mostra que os médicos devem estar atentos a esse tipo de dor na infância e tentar identificar esses mecanismos para prevenir a evolução para quadros de dor crônica como enxaqueca e fibromialgia”, finaliza o Dr. Tiago de Paula.
*DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). Pesquisador sobre dores de cabeça, o médico também é palestrante em congressos nacionais e internacionais e autor de artigos, capítulos, livros e publicações científicas. CRMSP 168999 | RQE 18111 | Instagram: @drtiagodepaula
Estudo brasileiro associa dores musculares infantis à fibromialgia e enxaqueca
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