ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

8/17/2019

Abertura nova exposição


O Jardim de Minha Mãe, exposição individual da artista mineira Cristina Marigo

 O Jardim de Minha Mãe (2018/2019) parte de dois grandes motivos: o jardim, tema de imensa recorrência nas artes; além da figura materna, a quem pertenceria o jardim-modelo das telas e desenhos presentes nesta mostra.

No entanto, ao invés de meros retratos, o que temos são corpos vegetais matizados de modo a quase se dissolverem nas pinceladas grossas e densas, o que faz com que a forma, em cada uma das obras, se torne tão importante quanto o conteúdo. Daí advém um forte caráter autoral da série, e a filiação à tradição ou à figura materna, que, aliás, se condensam na figura do jardim, é tornada bastante complexa, num jogo de continuidade, ruptura e reinvenção.

Para Cristina, “o jardim rememorado traz a consciência da perda do Paraíso e clama pelo retorno ao centro, mesmo quando nos parece impossível a travessia das múltiplas camadas que o cercam; muros que foram erguidos em busca de proteção.” Esta complexidade se adensa numa marca deste trabalho, a melancolia. Ela ganha corpo pelo protagonismo dos tons amenos e turvos de verde e azul em detrimento de cores mais quentes e, sobretudo, nítidas, como o vermelho e o alaranjado. É menos frequente, também, um fundo branco para dar maior nitidez ou contorno às figuras; ao contrário, quase sempre temos pinceladas espessas e irregulares tornando porosas as fronteiras que separam as plantas, lagos e troncos uns dos outros. E a identidade das formas vegetais fica submetida a uma lógica das intensidades e nuances. Logo, portanto, a visão deste jardim se torna turva: ele, delicadamente, se perde para seu observador devido ao modo como é representado.

Lembramos, também, que o jardim é a natureza organizada pelo trabalho da mãe, fazendo com que nele se inscreva duas origens: da pintora (mãe) e da pintura (modelo), da cria e da criatura. Uma origem da qual as pinceladas, paradoxalmente, nos fazem afastar, pela pouca figuratividade que possuem, e da qual nos aproxima, pela explícita remissão. “Tempo e lugar da memória da infância no pequeno jardim materno, coberto pelos corpos vegetais, vasos, frescores, cadeiras de varanda e cuidados diários. Tempo de Paraísos e Abundâncias: a vida preenchia todos os nossos espaços internos e os vazios futuros” lembra Cristina. Logo, temos um jardim-uterino perdido ao qual nunca se volta, mas do qual, por outro lado, nunca se afasta completamente.

Da biografia e tradição às pinceladas, finalmente, O Jardim de Minha Mãe elabora uma fina camada de nuances, consciente que é da impossibilidade de uma recuperação total do jardim-uterino. Livre da tarefa documental, sua pintura inverte, por outro lado, o sinal da melancolia: pois a perda se torna, aqui, elemento criativo, e a insubmissão à retratação se converte na invenção de novos objetos. Assim, os fortes tons rosados que irrompem em meio ao verde e que poderiam ser lidos como as flores emergindo das plantas, também sinalizariam a uma certa alegria em meio à melancolia. Algo vivo e carnal brotando em meio à nebulosidade e turbidez do azul esverdeado.

Entre o passado e a face oculta deste, ao mesmo tempo, estranho e familiar jardim-uterino, nascem plantas-borrões, caules- pinceladas, lagos-flores brutos e indomesticados, oriundos da mão de um jardineiro não adâmico que, num corpo a corpo com sua matéria bruta, interfere e se deixa atravessar por ela, estando ambos em mútua reinvenção. No eterno e recíproco cultivo que não visa angariar formas acabadas e definitivas, mas matizar, entre memória e invenção, intensidades e nuances.

Texto crítico: Marina Câmara e João Guilherme Dayrell. Curadoria: Laura Barbi (GAL) e Nydia Negromonte (ESPAI)

CRISTINA MARIGO (1955, Governador Valadares - MG), vive e trabalha em Belo Horizonte.
É artista visual formada em artes plásticas pela Escola Guignard (UEMG). Participou da Residência Artística Ocupa Espai sob a orientação de Nydia Negromonte e Marcelo Drummond em 2018-2019. Foi contemplada com o 1o Prêmio BDMG Cultural / 1o Salão de Arte da Escola Guignard (1996) e realizou exposições individuais no Minas Centro (2011) e no BDMG (1992) ambas em Belo Horizonte e na Galeria Monhangara - Palácio da Cultura (1991) em Governador Valadares. Dentre outras, participou das exposições coletivas Re fartura - Galpão Paraiso (2015), Fartura - Galpão Paraíso (2014), Daqui A Um Século, Centro Cultural da UFMG (1997), todas em Belo Horizonte.

O JARDIM DE MINHA MÃE
EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL - Cristina Marigo
abertura: 20 de Agosto 2019 • 19 - 22h exposição continua até 8 de Setembro 2019.
CENTRO CULTURAL SESIMINAS
Padre Marinho, 60 - Santa Efigênia Belo Horizonte, MG, Brasil
Terça - Domingo, 9 - 19h

Sobre a GAL
GAL é uma galeria e um projeto de arte contemporânea que propõe novos contextos para a fruição, participação, criação, crítica e consumo de arte. "A proposta é expandir o mercado de arte em ações físicas e virtuais para criar oportunidades para artistas, colecionadores e novos consumidores de arte”, explica Laura Barbi, uma das idealizadoras do projeto.
Em seu acervo, estão disponíveis trabalhos de Aleta Valente (ex miss febem), Aline Xavier, Carolina Botura, Clara Moreira, erreerre (Ricardo Reis), Giulia Puntel, Guilherme Cunha, Julia Panadés, Marina Tasca, Ricardo Burgarelli, Roberto Bellini e Rodrigo Borges. Artistas de múltiplas realidades e trajetórias que têm como premissa a liberdade artística, individual e expressiva.
GAL ocupa espaços com exposições e ações temporárias e gratuitas; produz edições limitadas e numeradas de obras; edita e comercializa publicações além de conceber e produzir outros projetos voltados à memória e difusão de arte brasileira. Por fim, estabelece um modelo de galeria online para a compra e venda de arte com transparência e rapidez na entrega. GAL é acrônimo para Galeria Livre, Galeria de Arte ou Artistas Livres. Surgiu em 2018 em Belo Horizonte e suas ações têm alcance global, inclusive entregas para todo Brasil e exterior.
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Alda Jesus

Sobre a autora

Alda Jesus - Doutorada em Robertologia Aplica e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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