Paulinho da Viola está ensaiando num
estúdio de Botafogo, na zona sul do Rio, quando se lembra de uma padaria que
ficava ali perto e foi fechada, apesar de protestos dos moradores. "E
tinha o cinema Nacional, onde eu vi um filme pela primeira vez. Era do
Tarzan", conta.
Como se sabe, memória é algo central
na vida e na obra de Paulinho. "Quando eu penso no futuro/ Não esqueço meu
passado", diz na letra de "A Dança da Solidão".
Não por acaso, o show em que
comemora 50 anos de carreira –a partir desta quinta (9), no Sesc Pinheiros, em
São Paulo, com ingressos esgotados– começa com "14 Anos", aquela em
que é avisado pelo pai de que "sambista não tem valor nessa terra de
doutor". E depois vem "Botafogo, Chão de Estrelas", parceria com
Aldir Blanc sobre o bairro em que cresceu.
O roteiro não tem outras
preocupações cronológicas. Mas procura, em quase duas horas, resumir uma
trajetória que valoriza o rótulo "sambista" sem se prender a ele.
Daí a valiosa presença do choro, com
três composições de Paulinho: "Inesquecível", "Sarau para
Radamés" (a Radamés Gnattali, 1906-1988) e "Sarau para Raphael"
(ao seu cunhado e violonista Raphael Rabello, 1962-1995).
O choro é herança direta de seu pai,
César Faria (1919-2007), violonista maior, amigo de Jacob do Bandolim e
integrante por muitos anos do conjunto Época de Ouro.
Ele ainda concilia no repertório
sambas que ninguém esquece, como "Argumento" e "Coração
Leviano", com criações mais lentas e pouco lembradas, caso de "Ruas
que Sonhei", do início dos anos 1970.
O título dessa composição de belos
versos ("Amor, repare o tempo/ Enquanto eu faço um samba triste pra
cantar") dá nome à recém-lançada caixa de 11 CDs que cobre o período (1968
a 1979) do artista na gravadora Odeon, hoje parte da Universal.
É um segundo esforço de registrar a
memória daqueles anos, pois o primeiro, de 1996, não agradou Paulinho.
"Remasterizaram os discos em
Londres [nos estúdios Abbey Road], mas houve muitos problemas. Fiquei
decepcionado. Agora, foram me mostrando o trabalho. Está mais próximo do
original", diz ele, reconhecido perfeccionista.
A decepção está na exclusão do
primeiro disco solo, o de 1968. Por problemas legais relacionados à imagem da
capa, não foi incluído na caixa.
É um disco estranho, se ouvido hoje,
tem muitas cordas, algo que Paulinho quase abandonou nos anos seguintes.
"Mas eu gosto de algumas coisas ali. E era interessante para um artista
novo gravar com orquestra", lembra.
O Paulinho de 1968 tinha largado o
emprego de bancário havia quatro anos. Em 1964 recebeu o primeiro cachê, das
mãos de Cartola, após cantar no Zicartola, o bar que o fundador da Mangueira
mantinha com sua mulher, Zica.
O batismo monetário justifica que os
50 anos de carreira tenham começado a ser festejados em 2014, quando ele abriu
a turnê que agora passa por São Paulo pela segunda vez –a primeira foi em
novembro.
Mas foi em 1965 que ele deu seus
primeiros passos firmes, integrando o conjunto A Voz do Morro (com Zé Keti,
Elton Medeiros e outros) e o histórico espetáculo "Rosa de Ouro".
O tempo profissional começou a para
valer, diz Paulinho, apenas no fim de 1969, com o sucesso de "Foi um Rio
que Passou em Minha Vida". Era o lado B de um compacto que tinha como
chamariz "Sinal Fechado", vencedor naquele ano do festival da TV
Record.
"Foi a hora da virada. Eu não
tinha nem quem me acompanhasse. Resolvi formar um grupo e começar a fazer mais
shows", recorda.
Embora conectado ao passado,
Paulinho não é nostálgico nem apocalíptico e crê na permanência do gênero.
"O samba só não desapareceu
porque o povo não deixou. Há sempre necessidade de mudanças, mas ele não perde
o seu espaço. Vejo isso quando canto Wilson Batista, Nelson Cavaquinho, e há
jovens cantando também", destaca.
PAULINHO DA VIOLA QUANDOqui. (9) a sáb.
(11), às 21h; dom. (12), às 18h; ONDESesc Pinheiros, r.
Paes Leme, 195, tel. (11) 3095-9400 QUANTOR$ 18 a R$ 60
(esgotados) CLASSIFICAÇÃO10 anos
RUAS QUE SONHEI ARTISTAPaulinho da Viola GRAVADORAUniversal QUANTOR$ 196,90 (com 11
CDs)
COLUNISTA DA FOLHA
QUANDO qui. (9) a sáb. (11), às 21h; dom. (12), às 18h;
ONDE Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195, tel. (11) 3095-9400
QUANTO R$ 18 a R$ 60 (esgotados)
CLASSIFICAÇÃO 10 anos
ARTISTA Paulinho da Viola
GRAVADORA Universal
QUANTO R$ 196,90 (com 11 CDs)
Paulinho da Viola - Foi um Rio que passou em Minha Vida
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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