O Tremendão, Erasmo Carlos, um dos líderes do movimento de
música pop Jovem Guarda, que comemora os seus 50 anos em 2015, foi o personagem
do "Áudio Retrato" (Bis) deste sábado (14).
Logo após cantar o sucesso "Minha Fama de Mau", dele e
de Roberto Carlos, Erasmo contou sobre os tempos da Jovem Guarda. "A Jovem
Guarda Produções, que era a firma que patrocinava o programa Jovem Guarda (TV
Record - 1965-68), aos moldes do que acontecia com os Beatles e a Apple,
começou a lançar produtos aqui no Brasil. A minha grife se chamava Tremendão, a
do Roberto era Calhambeque e Wanderléa era produtos Ternurinha", lembrou o
cantor.
"Lançaram bonecos, coisas para estudantes, calças, coletes,
chapéu —o meu era de caubói—, teve então esse meu momento 'garoto propaganda'.
Ganhei esse apelido [Tremendão], que eu gosto muito, mas aí gerou também esse
tipo de coisa: 'está se vendendo, está usando a fama pra vender produtos'.
Porque tudo isso era muito inédito", declarou o compositor.
E observou: "Hoje em dia todo o mundo tem produto, lança o
que quiser, faz propaganda, vende o que quiser... mas nessa época isso não era
comum. Então veio logo a acusação de que a gente estava se vendendo. O
pioneirismo tem dessas coisas. Eu gosto muito de ser pioneiro. Fui de uma
porção de coisas, mas a gente sempre leva umas porradinhas por causa
disso", desabafou Erasmo.
Após cantar "De Noite na Cama" (Caetano Veloso),
Erasmo contou que certa vez, logo após um show que fez na boate Moustache (SP),
vieram lhe oferecer uma carteirinha que lhe traria uma série de regalias caso
ele indicasse algumas pessoas que não fossem politicamente corretas. "Eu
logo vi que era um papo estranho e fui saindo fora, fui procurar a minha verdadeira
turma", declarou.
"Eu era um sonhador. A Jovem Guarda para mim era uma coisa
tão linda. Todo o domingo de tarde a gente se encontrava. Um monte de músicos,
bandas... a gente conversava, contava casos... tinha o programa, São Paulo
inteira, aquelas meninas lindas, carros maravilhosos parados na porta. Aquela
festa que parecia que nunca ia ter fim e, de repente, um belo dia
terminou", relembrou Erasmo.
"Caiu o chão para mim", confessou o Tremendão.
"Eu pensava que era uma coisa que ia durar para sempre e não durou. A
realidade tava ali, o sistema pisando, o ser humano descartável, você não serve
mais —tira! Com tudo isso eu aprendi. Mas demorei muito a me equilibrar. Então
foi a época em que eu bebi muito, que eu comecei com as drogas —foi um período
bem ruim para mim", confidenciou o grande parceiro musical de Roberto
Carlos.
"Um dia eu estava em São Paulo desesperado e ouvi 'Aquele
Abraço' [Gilberto Gil] tocando no rádio. Cara, me deu uma coisa quando eu ouvi
essa música, me deu uma fé, me deu uma saudade de mim mesmo, sabe? Uma saudade
da minha terra, da minha raiz, do Rio de Janeiro, do cheiro da maresia. Quando
eu vi eu estava em prantos. Acabou 'Aquele Abraço' e eu disse: 'vou voltar para
o Rio!'", resolveu o cantor depois de 7 anos em São Paulo.
"Mudei de cidade, mudei de gravadora e me casei. Aí me
equilibrei de novo e voltei com tudo", relatou Erasmo. Em seguida cantou
uma de suas mais belas canções, também em parceria com Roberto Carlos:
"Sentado à Beira do Caminho".
"Música e orgasmo são as coisas que mais aproximam a gente
de Deus", afirmou o Tremendão. "E é o que eu sei fazer. Para mim o
bonito é bonito em qualquer época —eu não me importo que alguém diga que um
disco meu é datado de 70. Para mim tanto faz, se ele for bonito ele é atual. Eu
gosto muito de fazer coisas simples, porque eu gosto de atingir o coração das
pessoas. Eu não tenho vergonha de fazer o simples", acrescentou.
"Não tenho inveja de ninguém, quero que todo o mundo se dê
bem. Eu não tenho religião. A minha religião é do bem. Só penso coisas
positivas. Não preciso de analista porque eu tenho o maior analista do mundo e
o mais barato que tem, que é o meu travesseiro. Ele eu não engano, todas as
noites eu durmo em paz comigo mesmo. E eu me amo! Gosto muito do ser o humano
que eu sou hoje", concluiu Erasmo, antes de soltar o sucesso "Vem
Quente que Eu Estou Fervendo" (Eduardo Araújo/Carlos Imperial).
Ao encerrar Erasmo Carlos cantou "Gigante Gentil",
outro apelido do cantor e compositor que também dá nome ao seu mais recente
trabalho. "O verdadeiro motivo de eu ter criado essa música foi a
indignação que eu tive com as ofensas, com a liberdade cruel das pessoas ao se
referirem a mim na internet. Me chamavam de zumbi, morto-vivo, 'walking dead'.
Aí eu me assustei com aquilo e fiz a música. A pessoa tinha preconceito com a
minha idade [73], não com a minha arte", desabafou o Tremendão, enquanto
os créditos subiam ao som de "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno", dele e
de Roberto —um dos hinos da Jovem Guarda.
De São Paulo
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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