"Canto" é o terceiro álbum da jovem fadista Carminho




Carminho torce o nariz para o rótulo de novo fado, mesmo sendo considerada uma das responsáveis pela renovação do gênero. A lisboeta de 30 anos acaba de lançar seu terceiro disco, chamado Canto. Novamente produzido pelo marido, o músico Diogo Clemente, o álbum reúne 14 faixas e conta com as participações de músicos brasileiros como Marisa Monte, Carlinhos Brown, Dadi Carvalho, Jaques Morelenbaum, Jorge Helder, Lula Galvão e Naná Vasconcelos.

 Carminho gravou duas canções brasileiras inéditas: O Sol, Eu e Tu, de Caetano Veloso, Cézar Mendes e Tom Veloso, e Chuva no Mar, parceria de Arnaldo Antunes e Marisa Monte – com quem a portuguesa divide os vocais.

 – Cantei muitas músicas com Marisa no Rio, e ela me disse que a canção nos escolheria. E foi assim mesmo – explica Carminho em entrevista a Zero Hora, falando por telefone desde Lisboa.

 Em 2013, a fadista apresentou-se em Porto Alegre, na esteira do disco Alma (2012), arrebatando o público com sua voz poderosa e dramática. Com Canto, Carminho segue trilhando uma rota entre a tradição e a reinvenção da mais portuguesa das músicas.

 O que significa este trabalho novo em sua trajetória?

 A grande matriz deste disco é a portugalidade e a minha identidade portuguesa. Nesse tempo todo, o contato com muitos outros artistas me fez ver quem eu sou com mais profundidade. Isso me mostrou que tenho uma influência muito forte do fado, mas também da música tradicional de outras regiões de Portugal. Esse disco reflete isso, o tempo em que morei no sul de Portugal, em Algarve, as canções tradicionais que meus pais me ensinaram na infância.

 Mas Canto também conta com músicos estrangeiros, especialmente brasileiros.

 São artistas que me influenciaram não apenas musicalmente, mas também como pessoa. De uma forma natural, fui convidando cada um deles a fazer parte da minha linguagem. Canto é o que eu faço, cantar, mas também é o meu lugar, onde tenho minha identidade. Convidei esses artistas porque eles também mantêm suas próprias identidades.

 Como você vê este novo momento de revitalização e popularidade do fado?

 O fado é maior do que eu e do que todos os fadistas juntos. Não sou adepta dessa denominação de "novo fado", porque o fado em minha vida sempre existiu. O fado simplesmente avança, como o samba. Não existe um novo samba. Mas o fado realmente está vivendo um momento de grande expressão. O fado sempre teve ciclos: quando eu tinha 12 anos, ia na escola e tinha vergonha de cantar, meus colegas me gozavam por cantar e gostar de fado. Acho que desta vez é mais do que um ciclo, tem a ver com a crise econômica que Portugal e a Europa estão passando. A crise faz a gente querer voltar para a mãe. E o fado é um porto seguro para os portugueses, uma forma de sentirmos que nosso país é único em alguma coisa.

 Você vem a Porto Alegre lançar esse disco?

 Ainda não está marcada uma data, mas estamos organizando uma turnê pelo Brasil. Há uma história curiosa com Porto Alegre: quando eu cantei aí, fiquei em um hotel em frente a um sebo, a Livraria Erico Verissimo. Eu e o Diogo (Clemente) estávamos procurando livros, e, ao retirar um dos volumes, o senhor do sebo derrubou no chão o livro que estava ao lado. Era do Reinaldo Ferreira, um poeta e autor de fado português que nunca encontrei aqui nas livrarias. Tirei desse livro dois poemas: A Ponte, tema que abre o disco Canto, e Carvoeiro. Portanto, tenho mesmo que ir a Porto Alegre.

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