Já nada poderá parar Gisela João. Nem os percalços nervosos do seu discurso genuíno (que ainda a agigantam mais), nem pequenos problemas técnicos que possam ocorrer (como aconteceram no Coliseu do Porto, e agora em Lisboa).
O baptismo desta noite no Coliseu dos Recreios confirma-a como uma das grandes fadistas da actualidade, mesmo que a sala não tenha enchido, apesar de muito bem composta.
De vestido claro e calçando os seus inevitáveis ténis, Gisela João fugiu mais neste alinhamento às músicas do seu único álbum, o aclamado homónimo, ao contrário do que vinha sucedendo desde o segundo semestre de 2013.
Com introduções gravadas em regime de diário de bordo, ouviram-se algumas canções novas no seu reportório entre as quais se destacou o fado triplicado de tributo ao São João do Porto da autoria da rapper Capicua. Gisela João dançou 'O Senhor Extraterrestre', já cantado por Amália, da autoria de Carlos Paião, como se fosse folclore minhoto.
Foi ao baú das suas memórias quando pegou em 'Meu Corpo', que há muito canta, e no primeiro fado que a apaixonou, 'Que Deus Me Perdoe'. E encarnou a actriz dramática quando interpretou o 'Fado da Saudade' sob o efeito do baloiço da sua alma, cantando ora sentada, ora de pé.
Houve cuidados cenográficos na produção do espectáculo, com o nome de Gisela João num letreiro em cima na forma de nuvens almofadadas e, ao lado dos instrumentistas - Ricardo Parreira na guitarra portuguesa, Francisco Gaspar no baixo acústico e Nelson Aleixo na guitarra clássica - uma pequena árvore artificial.
Os ténis brancos de Gisela João davam a ilusão de cantar descalça. Apesar das introduções gravadas, Gisela João falou várias vezes com o público, naquele autenticidade trapalhona que conquista qualquer espectador. «Há sempre alguém que chega atrasado», foi o primeiro comentário da noite quando viu o corropio de pessoas à procura dos seus lugares. «Já se vão embora?», perguntava a quem, a meio do concerto, de repente abandonava os seus lugares.
Falou de Maria da Fé e de Beatriz da Conceição (ambas também nortenhas) e não se esqueceu de Barcelos, a sua terra-natal.
Claro que as canções de "Gisela João" também se fizeram ouvir. 'Vieste do Fim do Mundo' foi o primeiro tema conhecido da noite. 'Meu Amigo Está Longe' sublinha a voz quente de Gisela João no ponto da perfeição.
A guitarrada coimbrã 'Canto de Rua' é chamada de «instrumental introspectivo» pela estrela da noite. O animado '(A Casa da) Mariquinhas' está quase no pólo oposto, e Gisela João volta a dançar, ritmada pelas palmas do público. O popular 'Malhões e Vira' chama ao palco o numeroso rancho folclórico minhoto que cantou e tocou com a fadista o tradicional 'Valentim' (que também não escapou à voz de Amália).
Nos dois encores, Gisela ajoelha-se perante 'Madrugada Sem Sono' pela qual dá quase a vida. Levanta-se para dançar o fado corrido de 'Antigamente'. Quando algum público já se ia embora, Gisela João aparece sozinha em palco para cantar sem microfone o tema de embalo 'Quando Eu Era Pequenina'.
Já acompanhada pelo seu trio de instrumentistas, foi ao 'Bailarico Saloio' e confessou 'Julguei Endoidecer', antes de nova invasão do rancho para mais um bonito aparato popular de 'Valentim'. 23h30, fim do espectáculo. Meta coliseus atingida.
In cotonete.iol.pt
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Uma das grandes fadistas da actualidade
Uma romântica que acredita no amor eterno. Redatora blog luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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