Em novo disco,portuguesa Carminho assume a influência da MPB e grava inéditas de Caetano e Marisa Monte



RIO — Nana Caymmi, em tributo a Dorival lançado no ano passado, aparece fadista, carregada de memórias familiares — as vozes da mãe e do rádio —, na canção “Francisca Santos das Flores”, de seu pai. Assim como Caetano Veloso no disco “Caetano e Chico juntos e ao vivo”, de 1972, quando canta sua “Os argonautas”. Antes e depois, Bibi Ferreira vem iluminando Amália Rodrigues há anos. Pelo afeto, pelo abraço tropicalista ou pela tradição, fado e MPB carregam uma relação muito mais complexa do que pode parecer sob um olhar apressado — relação que funciona quase como metáfora das proximidades e distâncias entre Brasil e Portugal. “Canto” (Som Livre/MP,B), álbum de Carminho que será lançado no fim deste mês, é uma forma bonita de entender essa troca entre os países. E não apenas porque o terceiro disco da cantora — que fala em Nelson Cavaquinho e Cartola para fazer paralelo entre as tradições do fado e do samba — traz músicas inéditas de Caetano (em parceria com seu filho Tom e César Mendes) e Marisa Monte (com Arnaldo Antunes), além da participação de Dadi, Carlinhos Brown, Naná Vasconcelos e Jaques Morelenbaum, entre outros. Mas porque o Brasil está presente nas raízes (termo caro a ela) mais profundas do projeto. Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/musica/em-novo-disco-portuguesa-carminho-assume-influencia-da-mpb-grava-ineditas-de-caetano-marisa-monte-15235953#ixzz3QmyDKwwT © 1996 - 2015. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização. O disco traz uma veia que tenho, ainda fininha e tímida, mas que assumo com responsabilidade: escrever e agora, pela primeira vez, compor música. Já o fazia, mas nunca tinha tido a confiança para expor. Isso aconteceu muito como fruto das minhas experiências no Brasil — revela a cantora. — Há muita liberdade aqui, de pensamento, de composição, de escrita, de parceria. Artistas mais velhos cantam artistas mais novos, homens cantam palavras de mulheres, mulheres cantam as palavras dos homens. Tudo isso é de uma liberdade que me inspira, mesmo que eu não vá à literalidade desse espírito brasileiro, porque também tenho a minha identidade. O aprofundamento de sua história no Brasil gerou (e tem gerado) vários diálogos. Carminho gravou com Chico Buarque, Milton Nascimento e Nana (“Ela é minha meta como intérprete”, diz) para a edição brasileira de “Alma”, seu segundo disco. Também cantou “Sabiá” com António Zambujo (outro português que traça uma relação entre as tradições e a produção contemporânea dos dois países e que atua numa modernização natural do fado, “meu partner nessa dança”, na definição da cantora). E ontem participou do show anual da Mangueira, no Vivo Rio, em dueto com Péricles. Todos, de forma menos ou mais evidente, ajudam a construir “Canto”, assim como os pequenos acasos que marcaram o encontro dela com o Brasil. Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/musica/em-novo-disco-portuguesa-carminho-assume-influencia-da-mpb-grava-ineditas-de-caetano-marisa-monte-15235953#ixzz3QmyLNsNy © 1996 - 2015. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

 

 “A ponte” foi uma coincidência engraçada, bonita. Estávamos em Porto Alegre, fomos a um alfarrabista, que vocês chamam de sebo, e, ao pedir um livro, caiu o que estava do lado. E o livro que estava ao lado era de Reinaldo Ferreira (autor de “Casa portuguesa”), e descubro lá dois poemas que me encantaram, “A ponte” e “Carvoeiro”. Em “Carvoeiro”, fiz a melodia com o Diogo (Clemente, produtor), e em “A ponte” usei uma melodia muito tradicional, o Fado Menor do Porto — conta Carminho. — A tradição do fado, diferentemente do que acontece com o samba, permite isso. Usar letras diferentes em melodias tradicionais. Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/musica/em-novo-disco-portuguesa-carminho-assume-influencia-da-mpb-grava-ineditas-de-caetano-marisa-monte-15235953#ixzz3QmyhA89H © 1996 - 2015. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização. Nas participações e nos bastidores de “Canto”, o Brasil que se mostra é muito mais um interlocutor importante de Carminho do que uma presença que determina os rumos do disco. Afinal, ali ela trafega por diversas escolas do fado (compositores clássicos ou jovens) e pela música popular portuguesa além-fado. E “Canto” parte sobretudo de sua linguagem, de sua personalidade artística. — O disco tem duas grandes matrizes. O fato de eu ter cantado em vários sítios do mundo me fez abrir os horizontes, e fez-me ver duas coisas. Primeiro, quis incluir as muitas referências que encontrei, as pessoas, queria envolvê-las no meu disco, convidá-las. Por outro lado, a distância de Portugal fez-me ver mais profundamente a mim própria. Então, “Canto” vem de cantar, porque é meu canto que une todas essas diferenças do disco, e do canto como lugar, meu cantinho onde convido esses artistas para a minha linguagem, da qual não quero abdicar, porque o que me fez olhar para eles com muita admiração é o fato de eles não abdicarem das suas linguagens, do que são. A distância, a saudade, a despedida atravessam o disco. Do mesmo modo que a presença da natureza (mar, rio, andorinha, vento, sol), usada como metáfora e como defesa de uma forma de se estar no mundo, sem destacar o humano daquilo que o cerca. Tanto a canção de Caetano, Tom e César (“Ela era originalmente um sambinha, e a transformei num fado”) como a de Marisa e Arnaldo (“Chuva no mar”) são exemplos claros disso, com versos como “O sol no mar/ Só eu e tu/ Damos sentido tudo o que existe” e “Coisas transformam-se em mim/ É como chuva no mar”. — Tenho amor por essas imagens da natureza, presentes tanto na obra dos poetas populares do fado quanto no samba. Eles arrancam o mais humano das coisas mais simples. Seu respeito às tradições do fado (“É uma música que tem suas regras, suas raízes, matrizes, e eu gosto delas”) não a impede de renovar o gênero. Para ela, um aparente paradoxo muito fácil de ser desvendado — e que passa longe da ideia de “novo fado”, expressão popularizada nos últimos anos para agrupar artistas como Carminho, Zambujo e Mariza: — Não me identifico nada com a expressão “novo fado”. Porque o fado é o fado. É como uma orla da praia. Você pode ir todos os dias à praia, não vai notar nenhuma diferença. Mas, se ficar um ano sem ir, vai ter outra geografia. O fado é maior do que os fadistas. É ele que vai definir quais alterações ficam. O fado é o mesmo, é vivo, é sempre novo.

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