De Rei da Juventude, Para Rei do Amor




Ao ser coroado Rei da Juventude, em 1966, Roberto Carlos havia se transformado em mania nacional e a Jovem Guarda, assim como o seu maior ídolo, estava no auge. Parecia que aquele mundo alegre e ingênuo de que as canções falavam jamais fosse acabar. Todos queria ter Roberto por perto. Cineastas acenavam com convites para ele estrear em película. Uma carreira internacional se esboçava desde sua apresentação no Festival de Música Internacional, em Nice, na França, no início de 1967. Roberto cantou Namoradinha de Um Amigo Meu e Quero Que Vá Tudo pro Inferno para os franceses boquiabertos. Abafou. Em seguida, foi a Cannes onde recebeu o troféu Midem, destinado aos maiores vendedores de disco do mundo. A gravadora CBS resolveu homenagear o rentável pupilo dando-lhe de presente um jaguar.



Nada disso, porém, foi capaz de arranhar a humildade de Roberto Carlos. “Aceitei o título de rei de bom grado, mas nunca me senti como tal”, costuma repetir. Roberto foi fazer cinema. Rodou Roberto Carlos em ritmo de Aventura, em 1967, sucesso na telona e em disco. No ano seguinte, venceu o Festival de San Remo, na Itália, defendendo Cancione Per Te, de Sergio Endrigo. Muitos imaginaram que sua carreira sofreria um forte abalo quando anunciou o casamento. Como as fãs reagiriam?, perguntavam as revistas. A escolhida: Nice Rossi, desquitada, uma filha. Como na época o divórcio não existia no Brasil, Roberto e Nice se casara num pequeno cartório em Santa Cruz da La Sierra, na Bolívia. Em dezembro de 1968, nascia o primeiro filho, Roberto Carlos Braga II, o Segundinho. Luciana, a outra filha do casal, é de 1971. 1968 foi o ano de mudanças no mundo. Também foi uma temporada de grandes mudanças para Roberto. Foi o ano em que se despediu do Programa Jovem Guarda, o ano em que casou, foi pai e que começou a virar o rumo da carreira. No ano em que os jovens foram as ruas protestar e avisar que não confiavam em ninguém com mais de 30, Roberto deixou de ser um ídolo a Juventude. O roqueiro foi dando lugar ao cantor romântico, o cantor do amor. A mudança se consolidaria no começo dos anos 70 com músicas como Detalhes (1971). O marco definitivo foi sua primeira temporada no Canecão, então a mais badalada casa de shows do país, no Rio de Janeiro. Dirigido pela dupla Ronaldo Bôscoli e Luiz Carlos Miéle, Roberto adotou arranjos orquestrados tipo big band, que viraram marca registrada. Seus discos anuais se transformaram num dos presentes mais aguardados do final de ano. Roberto deixou de ser o Rei da Juventude para ser algo muito maior: O Rei simplesmente.


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