Segundo capítulo da minissérie de Luís Felipe Sá foi ainda mais emocionante…
Nelson Motta diz, definitivo: “A marca de Tim Maia era o excesso !”
Acabamos de assistir ao capítulo final da minissérie TIM MAIA – Vale o que Vier, baseada na biografia do notável cantor e compositor brasileiro escrita pelo jornalista e produtor musical Nelsinho Motta. E estamos tomados da mais tocante emoção: uma saudade funda da vibe do artista, uma tristeza grande por vida tão descuidada numa personalidade tão singular, e rapidamente saída do cenário por conta de sua própria instabilidade emocional e fraquezas sentimentais, as quais a série evidenciou com delicadeza, competência e humanidade.
A vida conturbada do artista que marcou uma época com sua voz poderosa, sua música de suingue contagiante e sua personalidade controversa corria paralela ao seu cotidiano doméstico, no qual eram notórios o descontrole entre razão-coração, e a instabilidade emocional que acabou por vencer TIM MAIA. O roteiro da minissérie é assinado por Patrícia Andrade.
Muito bom contar com o depoimento de Roberto Carlos, que iniciou carreira ao lado de Tim Maia, e um ponto crucial da fala do REI é dita no primeiro capítulo e repassada no segundo: “Tudo que ele cantava, ele valorizava. A música era boa, com ele ficava ainda melhor !”
Notável o depoimento intenso, emocionado e emocionante de Nelson Motta, que encerra afirmando: “Adorava Tim Maia porque ele era muito carinhoso comigo, vivi coisas incríveis ao lado dele, e nunca me diverti tanto ao lado de uma pessoa quanto me diverti ao lado dele”.
Em determinado momento, Nelson Motta conta de quando promoveu o encontro entre Tim Maia e Elis Regina, e ressalta que o que era pra ser um dueto, acabou mesmo sendo um ‘Duelo de Titãs’ – “porque os dois eram bons demais, tinham a mesma qualidade vocal e ambos queriam provar um ao outro que um era melhor do que o outro”. Privilegiado Nelsinho que pôde presenciar toda essa efervescência musical!
A minissérie TIM MAIA – Vale o que Vier tem ainda depoimentos significativos de Erasmo Carlos, o cantor Fábio (que foi um dos mais constantes e fiéis amigos de TIM), Roberto Talma, Hyldon, Caetano Veloso. Pontos para o resgate das imagens feitas para o programa ‘Chico e Caetano’, veiculado na TV Globo na década de 80: são imagens espetaculares do registro de um ensaio de Tim para o programa, que Roberto Talma (diretor competente e antenado) resolveu gravar como se fosse o momento definitivo. Sacada de mestre ! No dia em que seria a gravação, Tim Maia faltou !
A minissérie de Luis Felipe Sá, Nelson Motta e Patrícia Andrade é pois um precioso documento sobre TIM MAIA ! Quem perdeu, perdeu uma chance fabulosa ! Quem viu, fica com o gostinho de “Quero ver de novo” !
Além de um DVD, que deve vir a caminho, deixamos à TV Globo a sugestão de reprisar a minissérie em qualquer época deste ano no qual a emissora comemora seu meio século de atividades, aberto com muitos méritos com a feliz escolha desta minissérie sobre TIM MAIA.
Vamos ao elenco, muito bem escolhido diga-se: Robson Nunes faz o Tim da primeira fase (e a direção teve o cuidado de colocar Robson de novo no capítulo final cantando e tocando um dos grandes sucessos da carreira do artista). Babu Santana (o Tim Maia da fase de sucesso e problemas), Cauã Reymond (em interpretação fabulosa do cantor Fábio – Cauã nos faz esquecer completamente do jovem tantas vezes escalado como galã, mostrando que é Ator de muito talento e capacidade de transformação), Alinne Moraes (que além de muito bela, é atriz vocacionada e de indubitável competência), Laila Zaid, e ainda Valdinéia Soriano (egressa do bando de teatro baiano Olodum) que faz bonito ao compor com força, precisão de gestos e expressões, e matizes sentimentais sutis a mãe do complicado Tim.
Valendo-se das iniciais de seu nome, Tim chegou a criar a SEROMA – produtora de seus discos e shows. Mas a paixão por Janaína (a companheira vivida por Alinne Moraes) tem algumas interrupções e Tim Maia sofre demais com isso. O músico chega a assumir um filho de Janaína – Leo Maia -, e o próprio Leo aparece na minissérie e conta do dia em que Tim chega pra ele e diz “Cara, tu é meu filho do coração porque eu resolvi te assumir”.
LEO está na minissérie com um depoimento lindo sobre o pai. O outro filho, Carmelo Maia (responsável por todo o legado de TIM), também aparece contando traços marcantes da personalidade do artista, e Nelsinho Motta conta que Tim a vida inteira chamou o garoto de Telmo, embora o tenha batizado de Carmelo (os dois nomes vieram por sugestão de um guru no tempo em que Tim começou a frequentar uma seita e passou a ver tudo como “magnetizado”. Na hora de batizar o filho, foi pedir ao guru sugestão de nomes que não fossem magnetizados, e a escolha recaiu em Telmo e Carmelo. E na sua habitual confusão, Tim acabou ‘batizando’ o filho com os dois nomes.
Destacam-se a cena em que a polícia chega na casa dele em Londres e quer levá-lo preso por agressão à companheira e outra, quando Tim diz ao amigo Fábio (que ele chamava de Fabiano): “Meu irmão, o caminhão que atropelou a vida tinha meu nome escrito na placa”…
E o ponto alto: a cena em que Tim está chapado em casa, sozinho, mergulhado em profunda depressão, situação-limite absoluta. E a polícia chega, chamada por um vizinho. Os policiais chegam e, ao reconhecer que tratava-se de Tim Maia, ficam horrorizados com o estado em que o músico está e saem entre pasmos e querendo safar-se de futuros problemas. A cena tem ritmo, iluminação, atuação e trilha perfeitas: Babu Santana esbanja um talento que o Brasil inteiro precisa Aplaudir !
É assim também nas dolorosas cenas finais, nas quais Tim Maia aparece fazendo grosserias com um produtor, e também com amigos da música, transtornado pelo “tripé” que o consumiu – conforme bem disse Nelson Motta: maconha, cocaína e whisky.
As cenas nas quais Tim vai fazer seu último show no Teatro Municipal de Niteroi, sobe ao palco, mas não consegue cantar, e de lá sai direto para o hospital – intercaladas com imagens reais do artista e com Babu fazendo TIM, são arrepiantes ! Encharquei os olhos dágua ao lembrar da notícia da morte de Tim Maia, que foi tão chocante… ele tinha tanto ainda a fazer como Artista…
E lembrei de duas vezes nas quais preparei-me para ir ver Tim Maia cantando em shows em Fortaleza. A primeira vez, em meados dos anos 80: seriam dois dias de show, e como optei por ir no segundo dia, acabei no prejuízo: naquela temporada, Tim só foi cantar no primeiro show. O show para o qual comprei os ingressos não aconteceu porque Tim não apareceu… mesmo assim, ninguém do público saía chateado com ele. A notícia de que ele não iria aparecer, sempre pegava o público do mesmo jeito: todo mundo terminava rindo porque sabia que aquilo era típico de TIM e de sua aura mística.
Noutra ocasião, aí já no final dos anos 90 – logo depois, Tim faleceu -, fui a um show de TIM MAIA e deu certo: ele foi e fez bonito ! Arrasouuu ! Casa cheia, plateia cantando em uníssono, dancei e cantei a noite toda. Lembro de Tim com uma camisa prateada bem brilhosa. O cenário era o BNB Clube e, ao final do show, fui ao camarim falar com ele, que tinha vindo acompanhado do saudoso Almir Chediak (autor do songbook de TIM). Recordo-me como se fora hoje a forma amistosa com que fui recebida: Tim muito simpático e falante, e a primeira coisa que me disse quando fui cumprimentá-lo foi “O que é que uma moça bonita como você faz ao lado de um camarada feio como esse ?” Coisa típica do inesquecível Tim Maia…
Sebastião Rodrigues Maia (1942-1998) esteve sempre metido em encrencas e trapalhadas. A minissérie vai mostrando isso em seus dois capítulos: é hilário, por exemplo, o dia em que chegam para mandá-lo sair do terreno onde estava sua casa, a casa que ele mesmo mandara construir há pouco tempo: só depois de já estar morando nela, ele próprio descobre que o terreno já tinha outro dono. Ao mostrar essa pequena mas significativa passagem da vida de TIM, a minissérie opta por oferecer ao espectador a oportunidade de ele mesmo fazer seu próprio perfil de TIM Maia, e nisso está seu maior mérito. Dentro do tempo disponível para se traçar a biografia de um artista, cremos que as partes mais relevantes foram focadas e com esmero. É claro que duas horas não são suficientes para narrar, de modo integral, a trajetória conturbada, polêmica e notadamente criativa de um artista como TIM MAIA. Mas a obra audiovisual é sempre um recorte, e o recorte assinado pela GLOBO Filmes é um acerto!
A minissérie deixará em muitos – assim como o filme – uma vontade de conhecer mais sobre vida e obra de Tim Maia. O livro de Nelson Motta – VALE TUDO – O Som e a Fúri de Tim Maia -, e uma profusão de vídeos na web se encarregam de valorizar essa vontade e aprofundar a pesquisa.
A minissérie, conduzida com a locução do próprio Tim Maia (em sua versão Babu Santana) começa com o artista sentado, de paletó, dizendo “Preto, gordo, cafajeste e abusado; eu tinha tudo contra mim”.
#AplausoBlogAuroradeCinema para Babu Santana: um irretocável Tim Maia
Valdinéia Soriano é a mãe de Tim em cenas intensas e bem interpretadas…
Comentários
Enviar um comentário
🌟Copie um emoji e cole no comentário: Clique aqui para ver os emojis