Mariza e Buraka entram-nos em casa pelo Boiler Room



É esta quarta-feira, no espaço físico do Lux, em Lisboa, só para convidados, ou a partir do sofá lá de casa, para todo o mundo via Internet, que se poderá assistir à terceira edição do Boiler Room de Lisboa numa iniciativa da Red Bull Music Academy. Este ano o acontecimento será bem mais ambicioso do que nas duas edições anteriores, com três salas distintas a acolher 27 nomes portugueses, entre as 19h da tarde e a 1h da manhã, provenientes das mais diversas famílias electrónicas, com algumas excepções, sendo a mais notada a da fadista Mariza. É isso. A fadista far-se-á ouvir ao lado de nomes como os Buraka Som Sistema, PAUS, Gala Drop ou DJ Ride. “Aceitei o repto porque gosto de desafios”, disse-nos ela numa breve conversa. “E agrada-me muito actuar para públicos diferentes que, supostamente, não terão tanto acesso a esta música.” À sua frente terá público mais afecto à dança do que à emoção fadista, mas isso até parece funcionar como incentivo para ela: “Já actuei várias vezes em contextos que supostamente não seriam de fado, mas onde me senti à vontade porque antes de tudo estamos a falar é de música. É isso que é determinante. Já actuei, por exemplo, em muitos festivais de jazz, onde essa transversalidade do fado acaba por surgir e vir ao de cima.” Mas afinal o que é o Boiler Room? É um conceito com quatro anos, surgido em Londres, que combina sessões DJ e actuações ao vivo em locais secretos, ao qual só se acede por convite, com transmissão em tempo real, via streaming, para a Internet. No início parecia ser apenas uma curiosidade passageira, mas a verdade é que hoje se tornou numa marca globalizada, com transmissões de todo o mundo, contemplando tudo o que é gente mais afecta às sonoridades urbanas, de James Blake a Jamie xx, de Thom Yorke dos Radiohead a Ryuichi Sakamoto (ver vídeos em baixo), numa espécie de comunidade global conectada para ver e ouvir alguns dos melhores DJs e músicos em apresentações especiais. Há dois anos, um dos mentores da iniciativa, o inglês Thristian Richards dizia-nos que a ideia surgiu quando começaram a imaginar “como seria ter num pequeno espaço o nosso músico predilecto a passar a sua música preferida, rodeado de pessoas a divertir-se.” O Lux não é um pequeno espaço, nem é um local secreto, mas a verdade é que esta edição em Portugal se reverte de condições inéditas, com três transmissões directas em simultâneo. O objectivo das sessões em Lisboa tem sido o de revelar o que de mais entusiasmante se vai fazendo em Portugal, principalmente nas linguagens mais urbanas ou das músicas de dança. E nesses campos vive-se um bom momento, com muitas propostas estimulantes. É isso que se poderá verificar hoje. Haverá DJs e também prestações ao vivo e não será apenas o Lux a receber música, já que a loja da Atalaia, também no Cais de Pedra, funcionará como um dos palcos. Em concerto, para além de Mariza, haverá a efervescência rítmica dos Buraka Som Sistema, a fisicalidade sensual de Batida, o ritualismo rock dos PAUS, a pop electrónica de Sequin, o som expansivo dos Gala Drop, o psicadelismo oriental de Jibóia ou a festa garantida de Moullinex. Os Buraka Som Sistema são os responsáveis pela curadoria de um dos espaços – o andar de cima do Lux – e aí evoluirão nomes por eles escolhidos, como Bison & Sqareffekt, Cachupa Psicadélica, Nigga Fox, Djeff Afrozila ou Rastronaut. No piso de baixo haverá sessões DJ, entre outros, de DJ Ride, de Marie Dior, ou seja Diogo Correia a habitar em Berlim, de Alex FX, um dos pioneiros da cena electrónica lusa nos anos 1990, e de IVVVO, ou seja Ivo Pacheco, a residir em Londres e um dos mais estimulantes nomes das linguagens mais negras do pós-tecno. Na loja da Atalaia, o evento estará mais direccionado para as múltiplas cambiantes da música house e afluentes, com Miguel Torga, Tiago, Rui Vargas, Switchst(d)ance, Trikk ou Jorge Caiado. A maior parte dos intervenientes pertencente a uma geração que já cresceu com o advento da Internet e que foi estabelecendo novas formas de relação com a música, ao nível da criação e da difusão, por exemplo. Nada que assuste Mariza, habituada a conquistar plateias nas mais diversas partes do mundo. “Ir actuar para um público supostamente mais jovem do que é habitual para mim só poderá servir de estímulo”, afirma, acrescentando que tem uma relação saudável com a Internet, pela música, porque gosta de se perder em pesquisas a partir do Google, ou porque o filho de três anos já é um internauta.

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