Logo após o jogo com a Inglaterra, que colocou Portugal nas
meias-finais do Euro-2004, Scolari festejou exuberante um triunfo que, em nosso
entender, acabou por ser arrancado a ferros, mau grado o facto de Portugal ter
desfrutado de soberanas oportunidades de golo para resolver a contenda durante
o tempo regulamentar e, inclusive, no prolongamento. Acabámos assim, todos nós,
por sofrer até ao fim, na exacta medida em que o recurso à transformação dos
pontapés de grandes penalidades constitui sempre uma lotaria. Mas, para gáudio
dos portugueses, a taluda caiu para o nosso lado.
E, no final, foi bonito ver-se Luiz Felipe Scolari envolto
nas (suas) duas bandeiras que muito tem venerado, ou seja, Brasil e Portugal.
Pelo Brasil, Scolari foi pentacampeão e, por Portugal,
Scolari vem desenvolvendo um trabalho notável, agora com os olhos postos no
título europeu. Já estamos perto. Mas, até lá, falta ultrapassar a Holanda e,
se tal se concretizar, o adversário do jogo Grécia-República Checa. Se Scolari
lograr esse desiderato para Portugal, por certo que as duas bandeiras voltarão a
percorrer Portugal lés-a-lés.
Afinal, muito se escreveu (nós também) sobre a atitude que
Luís Figo tomou quando foi substituído no jogo com a Inglaterra. Afinal, Luís
Figo estava nos vestiários agarrado à sua própria crença para que Portugal
operasse o tão almejado volte-face. Este o argumento que foi tornado público
pelos responsáveis da Federação Portuguesa de Futebol. Quem ficou convencido?
Nós, não. E, ontem, na televisão, ouvimos o Dr. Eduardo Barroso, ilustre médico
e homem dedicado ao futebol, dizer o mesmo, que não estava convencido e que
continuaria a afirmar que a atitude de Luís Figo mereceu as críticas que
afloraram na imprensa da especialidade. Mas, como diz o velho ditado popular, o
que lá-vai-lá-vai. Que tenhamos, agora, o mesmo Figo de outrora, maduro nas
suas atitudes.
Este portugalzinho está engalanado com bandeiras e camisolas
da selecção nacional. É um ambiente de grande fé em torno da selecção nacional
que, verdade seja dita, tem recebido dos portugueses - e não só - o
incondicional apoio, desde a saída de Alcochete, até ao estádio onde Portugal
actua. Primeiro, no Dragão (aqui o amargo da derrota ante a Grécia) e, depois,
emoções e aplausos entre a Luz e o Alvalade Século XXI. Se, no domingo,
Portugal estiver na Luz a disputar a final, cremos que vamos assistir a
momentos de verdadeiro clímax. Mas antes, porém, temos que vencer a Holanda,
disposta também a carimbar o passaporte para a final deste importante evento.
Todavia, no "país das tulipas" o entusiasmo é menor, o que não
quer significar, de modo algum, que os holandeses estão descrentes. Longe
disso.
E, aqui, Portugal está de sobreaviso no que concerne ao
perigo que a Holanda constitui, tratando-se de uma equipa que joga abertamente
ao ataque.
Digamos que o nosso país respira selecção. Todos, em
uníssono, acreditam que é possível chegar à final e, também, como é legítimo
compreender, vencer este Campeonato da Europa. Um país que, por ora, só pensa
na selecção e, curiosamente, até pouco se tem comentado em relação à saída do
primeiro-ministro, Dr. José Manuel Durão Barroso, de malas aviadas para o
Parlamento Europeu. É que, hoje, o nosso país quer é bola de futebol e está-se
borrifando, neste preciso momento, para a "bola política" -
desgraçada "bola" que não acerta na "baliza popular".
Da minha secretária
Três vultos que merecem reconhecimento
Na sequência dos trabalhos que ultimamente temos levado até
junto do pio leitor e cuja matéria, em parte, fará parte de um possível best
seller, queremos aqui, publicamente, destacar três vultos, dois deles com quem
tivemos o privilégio de conviver, investido, obviamente, na profissão de
jornalista. Acresce que um deles já faleceu. E é exactamente pelo Dr. Guilherme
de Oliveira que começaremos. Numa altura em que muito se critica o dirigismo,
pelo factos que são por demais conhecidos, e que os media fizeram eco -
os jornais com grandes parangonas e os telejornais abrindo as suas edições -, o
Dr. Guilherme de Oliveira, uma insigne figura que manteve trinta anos de
contínua actividade, é um desses raros paradigmas que Portugal conheceu.
Formado em Coimbra, onde se fixou, o Dr. Guilherme de Oliveira sempre revelou
aquilatável (e reconhecido) "ex professo", advogando sempre
causas justas, dando mostras de inusitada respeitabilidade.
Tratou-se, pois, de um dirigente de eleição, trilhando
sempre por
clarividentes intervenções, assumindo posições dignas de
dirigente de elevado gabarito. Hoje, em Coimbra, por exemplo, o Dr. Guilherme
de Oliveira é recordado com bastante saudade. Inclusive, a edilidade da cidade,
muito recentemente, prestou-lhe, a título póstumo, uma devida e justa
homenagem.
Uma coisa é certa: o Dr. Guilherme de Oliveira foi,
inquestionavelmente, em Portugal, um dos mais acérrimos defensores do
"fair play".
TOM NORTON. Em todos ou quase todos os pontos do Novo
Mundo enxameiam emigrantes portugueses que anseiam - sempre ansiaram - por
cimentar, cada vez mais, elos de amizade com os seus conterrâneos. Tais
anseios, tais sentimentos de amor pátrio, vão convertendo-se em realidade por
motivo de eventos que são preparados em Portugal e que ali se deslocam com
alguma
frequência. São visitas por eles tão apetecidas. Em suma:
inolvidáveis acontecimentos para as activas e empreendedoras gentes de Portugal
e, aqui, se englobam os emigrantes das paradisíacas ilhas açorianas.
Neste contexto, há um homem intrinsecamente ligado, o
representante estadual de Fall River, Tom Norton que, inclusivamente, num
jantar de homenagem a jovens oriundos de Portugal, que digressionaram pelo
nosso país, convidou os jornalistas lusos que ali se deslocaram. Por Tom
Norton, da nossa parte, nutre enorme simpatia e amizade. Ali, ao Café
Restaurante Clipper (que, posteriormente, passou a ser o nosso ponto de
encontro) fomos levados pelos jornalistas emigrados Afonso Costa e Herman Melo,
este que foi editor do nosso colega americano Herald News, de Fall River. De
resto, Tom Norton, estadual muito estimado pela comunidade portuguesa e não só,
sempre esteve disponível para os jornalistas lusos que ali foram em trabalho.
Uma referência que ficou, um gesto de inequívoco reconhecimento. É que, depois,
Tom Norton apareceu nos jornais portugueses. E nenhum de nós (cinco) se
esqueceu da colaboração prestada por este representante estadual. Ficámo-lo
gratos e hoje aqui o recordamos.
ROBERTO CARNEIRO. Por imperativo da profissão de seu pai, o
grande e saudoso maestro At. Carneiro (que, na Base das Lajes, na ilha
Terceira, deliciava os americanos com as suas maravilhosas melodias), um belo
dia fixou residência no Corpo Santo (o conhecido bairro oriental da cidade de
Angra do Heroísmo), o jovem macaísta Roberto Carneiro que, ano após ano, se
transformou numa figura destacável do burgo angrense pelo facto de, no liceu de
Angra, "rebentar" (como sói dizer-se) com a escala das notas, tal era
a sua grande capacidade intelectual e que, nalguns casos, segundo reza a
história, chegou a "enrascar" alguns professores.
Curiosamente, este meu amigo de infância, ex-ministro da
Educação, nunca se inclinou para a prática desportiva. Muitas vezes, a
rapaziada que com ele convivia permanentemente, convidava-o para uma
"peladinha", mas raramente ele aceitava, até porque, quando o fazia,
colocava-se, quase sempre, em "fora-de-jogo" (dizíamos, na altura,
"à mama"). Preferia, isso sim, como bom companheiro que era (nunca
mudou a sua maneira de ser o engenheiro Roberto Carneiro), ficar na esquina da
rua a espreitar a aproximação de algum "chui" (como ele dizia), pois
só assim evitaríamos ficar sem a redondinha de borracha, conseguida a expensas
de uma colheita (cerco de cinco escudos por cabeça, hoje dois euros e meio) entre a rapaziada do nosso
querido bairro que, numa rua qualquer, fazia o seu campo de jogos. Neste caso,
a maltinha estava sempre descansada porque, efectivamente, Roberto Carneiro estava "sempre
em jogo", isto é, concretamente, a detectar, no "timing" exacto,
a presença de algum agente da autoridade.
Os tempos correram céleres e eis que Roberto Carneiro,
investido no seu cargo político, sempre se preocupou com o fenómeno desportivo,
designadamente com o de índole escolar, do qual se mostrou acérrimo defensor.
Aqui, Roberto Carneiro estava "sempre em jogo", tal como o fazia
quando, nos anos cinquenta, nos servia, com toda a segurança, de vigilante na
esquina da célebre rua que circundava a sua residência e nos levava à disputa
de rijas "peladinhas".
Todos recordamos, com saudade, Roberto Carneiro (tem nove
filhos. Uma filha amestrada nos Estados Unidos. Ai se o avô fosse vivo, que
orgulho teria em ver a continuidade da sua obra musical), um dos mais distintos
alunos (quando não apanhava 20 ficava zangado) que passaram pelo Liceu de Angra
do Heroísmo.
E, aqui, enaltecemos o espírito de Roberto Carneiro que, em
toda e qualquer circunstância, não esquece os amigos, os companheiros de infância.
A seguir Capítulo VII
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