É verdade: quem não se lembra das fintas desconcertantes de
Mané Garrincha, um dos maiores futebolistas brasileiros de todos os tempos.
Garrincha conheceu grandes tardes de glória no Estádio do Maracanã e, claro
está, ao serviço da selecção brasileira onde se cotou com uma das figuras de
proa, só sucedido por Edson Arantes do Nascimento, o famoso Pelé.
Mané Garrincha, que foi casado com a voz rouca do samba, a
cantora Elsa Soares, faleceu em 1983 vítima do álcool. Uma morte que
entristeceu o mundo do futebol e deixou de luto um imenso núcleo de
admiradores, designadamente aqueles que com ele conviveram ao longo dos tempos.
Hoje, o "homem-das-pernas-tortas", como era
vulgarmente conhecido, é recordado em Portugal por muitos daqueles que o
defrontaram, um deles o meu particular amigo Hilário da Conceição que, numa
recente cavaqueira de amigos-da-bola, enalteceu as ímpares características de
Mané Garrincha. Inclusive, Hilário da Conceição considerou Garrincha como o
adversário mais difícil de marcar. E foi exactamente numa noite invernosa, nos
tempos áureos deste moçambicano que representou o Sporting e a selecção
nacional de Portugal (foi um dos "magriços" de 66 em Inglaterra), em
jogo disputado no antigo Estádio José de Alvalade, que Mané Garrincha, com os
seus dribles curtos, fez "gato-sapato" de Hilário da Conceição. Numa
noite em que Mané Garrincha foi ovacionado em Portugal, ele que era o
porta-bandeira dos distintos craques do futebol mundial na sua época.
Volvidos quatro lustros que assinalam o desaparecimento do
"pernas tortas", em Portugal Mané Garrincha não é esquecido e, como
tal, no próximo Europeu de 2004, a disputar no nosso país a partir de Junho
próximo, será relembrado nos discursos que marcam a abertura deste importante
evento.
"Seu" Mané Garrincha, só não logrou fintar o vício
do álcool, aquele que o levou a uma morte entristecedora.
Crónica dos bons-velhos-tempos
O salto qualitativo de Mário Prata
Foi nos juniores do Benfica, aquando da presidência de João
Santos, velha dedicação ao clube da Luz, que conheci Mário Prata, que fez parte
de uma equipa célebre, tri-campeã no referido escalão de juniores. Nomes
sonantes que saíram daquela fornada, sumamente acarinhada por João Santos e
seus mais directos colaboradores. Mário Prata, nesse sentido, não foi excepção,
mas procurou, mais tarde, após ter contraído matrimónio, rumar para os Estados
Unidos, tentando a sua sorte com o estatuto de director (manager) na Swart
Soccer Internacional, associação que, na zona de Massachusets, movimenta o
maior número de jovens na Soccer Camps Clinics Tournaments, alguns deles, inclusive,
chamados à selecção dos Estados Unidos onde foram observados.
Foi em Lowell, cidade que recolheu muitos emigrantes
portugueses, que, um belo dia, reencontrámos Mário Prata, sempre afável e
mantendo aquele dinamismo que sempre o caracterizou. Mas, claro, que este
reencontro, apesar de saudável, verificou-se num dia em que eu,
inesperadamente, apareci em Lowell, levado por uma notícia da Rádio Ponte, com
sede em Fall River, que dava conta da entrada do FBI nas instalações do Lowell
United, apreendendo larga quantidade de cocaína e, ainda, todas as slots
machines que lá se encontravam ilegalmente. Uma operação rápida e eficaz, mas
que, para os mais atentos, era de todo esperada, uma vez que o clube investia
muito forte na contratação de jogadores estrangeiros.
Ora, Mário Prata, que fala um inglês fluente, acompanhou-me
até à zona permitida pelo FBI para os jornalistas. Escusado será dizer que
muitos ali se deslocaram, mormente as estações de televisão (Canal 20 e outras)
das zonas limítrofes, incluindo Bóston, atendendo a que Lowell fica ali perto.
Com Mário Prata fui acompanhando, a par e passo, todas as
movimentações do FBI, incluindo algumas detenções de dirigentes do Lwoell
United, um clube carismático da LASA - Liga Americana Soccer Assocition -. E,
realmente, se não fosse a preciosa ajuda do Mário Prata jamais teria conseguido
as informações que pretendia sobre um caso que, naquela mesma manhã, abalou o
Estado de Massachusets, tendo em linha de conta o envolvimento de pessoas
consideradas figuras públicas. Algumas delas não tiveram tempo de encetar uma
fuga, na exacta medida em que o FBI agiu com todo o secretismo e, como é óbvio,
possuidor de todos os elementos necessários para deter os presumíveis suspeitos
do tráfego de droga e o uso ilegal das slots machines.
Mas, para além de tudo isto, ainda tive tempo suficiente
para cavaquear com Mário Prata no que concerne aos seus próprios projectos
pessoais, ficando ainda mais convicto de que Mário Prata, aquele
"menino" que vi despontar na formação do Sport Lisboa e
Benfica, acertou na muge, isto é, deu o salto qualitativo quando, em boa
hora, decidiu rumar para os Estados Unidos. Um Prata que, para a Swart Soccer
Internacional, se transformou em Ouro.
DESTAQUE
Euro 2004
Mais de um milhão de espectadores
O sucesso do Euro-2004 pode ser medido por várias bitolas,
do aspecto desportivo à segurança, passando pelas audiências televisivas, pelas
festas que encheram as cidades, de norte a sul, e ainda pelo número de adeptos
que presenciaram os jogos. Neste particular, o número de espectadores apenas
foi ultrapassado pelo Campeonato da Europa de 1996, realizado em Inglaterra,
competição que teve estádios com lotação superior aos recintos portugueses. A
média de espectadores em Inglaterra foi superior à de Portugal em cerca de
quatro mil, sendo que o número encontrado no Euro-2004 superou o de há quatro
anos, na Bélgica e na Holanda, em 2000.
Atendendo ao facto de Portugal ser um país periférico, o
valor total de espectadores, que chegou aos 1.165.192, correspondentes a 96 por
cento da lotação total disponibilizada, fez a felicidade da organização e
esteve na base da satisfação demonstrada pela UEFA, por ter entregue a um
pequeno país como Portugal a organização do Euro-2004.
Desde os 78.958 espectadores que assistiram aos quatro jogos
do Euro-1960, até aos que estiveram, em 2004, nos estádios lusitanos, a
evolução foi imensa. E Portugal organizou o melhor Europeu de sempre.
Da minha secretária
O povo unido e... a selecção na final
Contagiante a alegria que se viveu no Estádio José Alvalade
Século XXI logo após o termo do jogo Portugal-Holanda e cujo triunfo, também
este bastante suado, catapultou Portugal para a final do Euro 2004, competição
que decorre no nosso país sob o signo de uma organização eficiente e que,
concomitantemente, tem merecido os maiores encómios de todos os países
visitantes.
De facto, a Selecção de Portugal, ao chegar à final sob o
comando do brasileiro Luiz Felipe Scolari, consegue uma página histórica para o
futebol português e que vem corroborar, por outro lado, que havíamos merecido
muito mais no último europeu disputado na Holanda/Bélgica. Ficámos pela
meia-final, mas deixámos bem expresso que o futebol português tem valor para
ocupar um lugar de honra entre os mais cotados do mundo.
E se Portugal chegou à final, há que dizer, seguramente, que
o povo unido esteve ao lado da selecção, aderindo assim, e nesse sentido, ao
apelo lançado pelo seleccionador nacional Luíz Felipe Scolari que, hoje, é um
homem feliz por ter levado Portugal, pela primeira vez, à final de uma
competição desta natureza. E, aqui, Scolari, depois de um início em que as
coisas não correram de feição, teve o inteiro mérito de colocar em campo os
jogadores que, táctica e estrategicamente, poderiam corresponder cabalmente,recorrendo, também, àqueles que, no banco, garantiam uma
sequência de valores, concretamente no aspecto de índole táctico.
E, para domingo, na final, ante checos ou gregos, vamos ter,
seguramente, um povo ainda mais unido, esperando pelo almejado título que
sempre nos fez negaças porque, na verdade, nunca havíamos atingido o patamar
superior em direcção ao ceptro de campeão europeu. Um trono que, ao nível de
clubes, Portugal atingiu por via dos êxitos do Benfica e do Futebol Clube do
Porto, ambos por duas vezes.
E, para encerrar, acresce dizer, com toda a justiça, que
Luís Figo, o melhor jogador em campo, deu um exemplo de verdadeira crença, de
verdadeiro empenho para este momento histórico para o futebol português.
Da minha secretária
Que dia tão triste!
A vitória da Grécia no Campeonato da Europa-2004 será, por
muito tempo, recordada como a vitória da eficácia anti-espectáculo. A vitória
do veneno que mata a qualidade de jogo do adversário. Enfim, a vitória da
aranha, que prende o adversário na sua teia para mais facilmente o anular. E
isso não é bom para o futebol. Há no entanto que reconhecer que Portugal nunca
mostrou ser capaz de saber resolver os problemas sentidos no jogo de abertura.
Não teve suficiente rasgo, nem a necessária coragem. Resta-nos a consolação de
que a Espanha, a França e a República Checa também não. É, pois, esta, uma
derrota que a todos nos deixa tristes, mas não devemos deixar que seja uma
derrota desmobilizadora.
Seria injusto. Nem a Selecção o merece nem Portugal e os
portugueses o merecem. O Euro-2004 ficará na história como um grande sucesso
dos portugueses e não é uma derrota na final (onde nunca antes alguma vez
havíamos chegado) que pode fazer-nos esquecer todo este tempo de muitas e
saudáveis alegrias. Claro que custa perder assim. Perder uma final em casa é
sempre frustrante e bem sabemos que se torna inevitável viver hoje a tristeza
da derrota como antes vivemos a alegria das vitórias. São essas as regras do
grande jogo das emoções.
Na hora que vou entrar de férias, deixo aqui bem expressa a
minha confiança no seleccionador nacional, Luiz Felipe Scolari. E, um dia,
vamos os dois juntos ao Santuário de Fátima.
(continua o Capítulo VI no próximo sábado)
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