Terminei a minha carreira em Julho de 2004, logo após o
términus do Campeonato da Europa que decorreu em Portugal.Escrevi alguns artigos sobre o referido
evento e, também, outros relacionados com acontecimentos anteriores. Aqui
deixo, portanto, todos esses artigos, que assinalam, de uma forma simbólica, o meu
adeus à profissão, não deixando, no entanto, de continuar a ser jornalista.
Crónica dos bons-velhos-tempos
A Universidade MSU
Sempre que fui aos Estados Unidos e ao Canadá, procurei, no
âmbito da minha programação, conhecer coisas diferentes, palpáveis em toda a
acepção da palavra. Algo que despertasse interesse no pio leitor, sabendo-se
que, nos referidos países, existe uma forte comunidade portuguesa, arreigada às
suas tradições, aos seus costumes, enfim, uma forma de não esquecer a terra
onde nasceram, o torrão de origem, ao fim e ao cabo.
Na segunda viagem (reporta a 1984), conheci João Gonçalves,
o homem que faz a ligação entre os emigrantes e o governo na zona de
Massachusets. É ele que os recebe, que ausculta os seus problemas e que,
depois, os canaliza, com informação consentânea, às respectivas cúpulas.
Numa bela tarde, João Gonçalves, conhecedor dos meus
objectivos, fez questão em levar-me à universidade onde estudou, a tão
conhecida MSU, que fica entre Fall River e Boston. Digamos, a meio do percurso
entre estas duas cidades. Só que uma é o "cu da América" (Fall River)
e a outra já é uma city diferente em todos os aspectos.
Chegados à MSU, fomos recebidos, de forma muito cordial,
pelo respectivo reitor, um homem que irradiava notável simpatia e que, desde
logo, fez questão em seguir connosco nesta visita aos pólos mais importantes
daquela universidade que é, pelo que constatei "in-loco", uma das
mais famosas ali da zona. Sinceramente, valeu a pena as duas horas em que levei
a palmilhar a MSU, passando pelos anfiteatros, pelos campos de futebol (o
americano), pelas salas de conferências, etc., etc. Terminada a visita, o reitor,
um homem baixote e já com alguns cabelos grisalhos, ofereceu-me um t-shirt da
universidade, bem como uma placa. Óbvio que foi enorme o meu contentamento por
ter sido tão bem recebido na MSU e, também, mais feliz pelo facto de ter
contribuído, em parte, para uma esfusiante alegria do meu amigo João Gonçalves,
também jornalista e comentador da televisão -correspondente, na zona de Bóston,
da delegação da Rádio Televisão Portuguesa nos Açores.
Mas as surpresas do João Gonçalves para comigo continuaram.
Terminada a visita, levou-me à sua própria casa para almoçar, ele que sabia
que, por ocasião da minha permanência em Angola, tinha estado no Lobito, terra
da sua mulher. E a Cristina, sua cara-metade, preparou-me um fricassé que muito
gostava em Angola. Uma delícia. Naquela casa, fiquei mesmo com a impressão que
estava em Angola. Ali havia muitos símbolos angolanos, um deles retratando uma
das cidades onde dilateimaisaminha permanência, concretamente Nova Lisboa. E porquê? Foi em Nova
Lisboa que continuei a engatinhar no jornalismo, enfileirando o leque de
colaboradores do jornal "O Planalto", então dirigido pelo meu amigo
capitão José Cid Torres que, na verdade, percebia muito pouco da matéria, mas
que apenas figurava como Director por ser, na qualidade de militar, uma pessoa
muito estimada no seio da comunidade.
E assim, mesmo nos Estados Unidos, ou em outro sítio
qualquer, recordamos um passado que marcou, inquestionavelmente, a vida de
muitas pessoas. E outros, claro, numa guerra que nada trouxe para o nosso país,
deixaram lá a vida. Esses, sim, têm que ser recordados. Haverá mesmo por aí,
num cantinho qualquer deste portugalzinho, um monumento de homenagem aos
"combatentes no ultramar"? Pode existir, não duvido, mas onde está
ele? No Terreiro do Paço?
Em Belém? E como se chama aquele lugar onde funcionaa Assembleia da República? Sinceramente, não me lembro... Raramente
passo por ali, quiçá pela repugnância que sinto pela esmagadora maioria dos
políticos deste país.
Como diria um amigo comum, "são todos bons
rapazes". É verdade, hoje já não existem rapazes maus. Estarei a ver neste
momento um filme de ficção?
Benfica de luto
A minha solidariedade
Sempre mantive, ao longo de todo este tempo, uma enorme
simpatia pelo Sport Lisboa e Benfica, corolário do inolvidável tempo que passei
em estágio no "grémio da Luz", que reporta a 1977, quando acompanhei
o técnico inglês John Mortimore e, também, o meu particular amigo professor Rui
Silva, seu preparador físico.
Nunca escondi a minha facção clubista, o Sporting Clube de
Portugal, mas, jornalisticamente falando (o que aqui mais me interessa), sempre
trilhei o caminho da isenção e, fundamentalmente, apoiar dentro dessa própria
filosofia.
Hoje, o Sport Lisboa e Benfica, apesar da euforia vivida no
domingo com a conquista da Taça de Portugal no esgrimir com um Futebol Clube do
Porto, ultimamente "papa competições", vive um momento de profunda
tristeza com a morte de dois dos seus atletas no espaço de dois meses.
Primeiro, o húngaro Feeher que caiu fulminado no jogo que o Benfica disputava
em Guimarães, e, agora, atacado por embolia cerebral, o jovem promissor Rui
Baião, capitão da equipa do escalão de juniores A. Um jovem que, na realidade,
muito tinha para dar e que era apontado como uma das maiores promessas do
futebol português, tendo revelado enormes capacidades técnicas. E, tristemente,
quando se preparava para assinar aquele que seria, por
certo, o contrato da sua carreira, Rui Baião é vitimado por essa embolia que,
há dois anos atrás, também o havia ameaçado. Só que, desta feita, ceifou a vida
de um jovem que, para além de futebolista de reconhecidas potencialidades, era
muito estimado no seio das camadas jovens do prestigioso e mítico Sport Lisboa e
Benfica, ainda hoje, e não obstante os insucessos verificados nos últimos dois
lustros, considerado o maior clube português, o clube que abarca um
impressionante número de prosélitos, espalhados pelos quatro cantos do mundo.
Do Benfica, reafirmo, guardo as melhores recordações,
sobretudo dos seus mais carismáticos dirigentes da altura, alguns deles já
falecidos. Pelo Benfica, tenho o maior respeito e estima e, como tal, não podia
ficar alheio a este movimento de solidariedade em torno do clube, pelo falecimento
do jovem Rui Baião.
E quero aqui imbuir-me, neste momento de dor, naquela máxima
que sempre caracterizou o maior clube português. ET PLURIBUS UNUM.
Força, Benfica. Todos choramos, no espaço de dois meses, o
desaparecimento de dois atletas na flor da idade, respectivamente, com 25
(Feeher) e 18 anos (Rui Baião), dois atletas que tinham ainda muito para dar ao
futebol português.
Crónica dos bom-velhos-tempos
Uma tarde de ambiente à... "far west"
Para os milhares de açorianos (e, porque não, também os
continentais) que vivem na Nova Inglaterra, suscitou, na altura, o mais vivo
interesse a realização de um torneio entre equipas dos Açores que se realizou
naquelas paragens, mais propriamente na cidade de New Bedford, que é
considerada a capital portuguesa na América, sendo a maioria açorianos que, tal
como na sua ilha, vivem a vida sem profundas alterações. Por isso, o torneio
disputado no Sargent Field, terá constituído o maior acontecimento desportivo
do ano para os milhares de ilhéus que encheram literalmente um dos maiores
recintos de New Bedford. Sargen Field abarrotado de entusiastas do futebol que
vibraram com o desenrolar dos acontecimentos e, consequentemente, contribuíram
para um matar de saudades sempre ambicionado por todos. Uma festa de futebol,
que redundou num êxito mas que, na parte final, teve laivos dos chamados filmes
do Far West quando o árbitro (lá dizem o refeere) abandonou o rectângulo e foi
molestado por centenas de espectadores que pretendiam a invalidação de um golo.
O árbitro, juntamente com os seus auxiliares, passou
momentos dramáticos, até que, paradoxal que pareça, o único polícia em serviço
no campo lançou um S.O.S. ao quartel mais próximo e, imediatamente, as sirenes
começaram a apitar, surgindo polícias por todos os lados, que até pareciam
formigas.
Face à presença daquele batalhão de polícias, a debandada
foi geral e tudo voltou à normalidade. O árbitro, rodeado por agentes da lei
(daqueles que têm dois metros e tal de altura) que o protegiam, disse-nos quase
afónico:
"Amigo, na América não se pode ser árbitro. É raro o
jogo que não termine assim e o seguro de vida, por enquanto, não compensa. A
nossa missão jornalística em terras do Tio Sam terminou ali. De New Bedford,
para Loweel, onde estávamos "aquartelados", cogitámos naquela frase
do árbitro. Na América, raro é o jogo que não termine assim. E para não fugir à
regra, o primeiro torneio açoriano disputado nos "States" foi bem à
moda americana.
PROTECÇÃO. No Sargent Field, logo que a confusão se
instalou, e porque a nossa pasta tinha escrito PRESS, tivemos logo a protecção
da polícia. Um dos tais matelões, puxou por um braço e colocou-nos junto a um
dos carros da políciaao lado de um dos
enormes cães. Só sei que o polícia falou com o cão que, de imediato, se sentou
à nossa frente. Escusado será dizer que, circunstancialmente, o nosso medo
estava virado para o cão que, no entanto, portou-se magnificamente. É que, na
América, os jornalistas são bem protegidos. E sabemos bem o motivo. O poder da
comunicação social preocupa os poderosos, incluindo, obviamente os governantes.
Mas nunca tínhamos
passado por tão delicada situação. Valeu o polícia e o seu
fiel amigo,treinado para tudo. Só não sei se o famigerado cão leu o
PRESS que estava colocado na minha pasta, apesar de, posteriormente, ter
colocado ao peito o meu crachá de identificação.
A CARTA. Depois da crónica que escrevi no jornal "A
Bola" sobre os incidentes que aqui relatei, recebi uma carta da LASA- Liga Americana Soccer Association - que
manifestava o seu desagrado pelo facto de eu ter considerado "um ambiente
à Far West". Respondi à LASA que dali não retiraria uma vírgula e que,
inclusive, fui demasiado benévolo em função do que constatei
"in-loco".
Meteram a viola no saco. "E esta. heim"!
Do meu ponto de vista
Quem será premiado nos Óscares?
Hoje, em Lisboa, concretamente no Centro Cultural de Belém,
teremos a eleição dos Óscares do desporto ao nível mundial. Sem dúvida a maior
cerimónia de sempre para se saber quem é o melhor dos melhores e que,
curiosamente, ou não, conta com um forte dispositivo de segurança policial.
Estarão no CCB figuras de proa do desporto mundial. Um evento
que Portugal já merecia e que, para o efeito, e mais uma vez, abriu as portas
do Centro Cultural de Belém, com a permissão, lógica e racional, do Dr. Jorge
Sampaio, ilustre presidente da república portuguesa. Pela passerelle do CCB
desfilarão grandes vultos - Ronaldo, Figo, Mónica Sales, etc. - mas, para além
disso, este evento tem uma simbólica particularidade. Esta: será leiloado um
livro que pesa 34 quilos, com 800 páginas, e cuja receita destina-se a ajudar
as crianças mais carecidas, maior incidência para aquelas que foram infectadas
pelo vírus da sida, um dos maiores flagelos dos últimos anos. Só por isso, esta
cerimónia tem um significado muito especial.
Mas quem será o melhor dos melhores, ou seja, o premiado
nesta noite dos Óscares do desporto? Pessoalmente, aposto em Ronaldo e/ou Luís
Figo. São dois dos meus favoritos, mas outros "monstros" poderão, sem
surpresa, vencer. É difícil vaticinar o vencedor. Mas todos são, ao cabo,
vencedores, nesta gala em que a solidariedade estará de mãos-dadas com as
crianças desprotegidas. E isso é que nos alegra, sabendo-se que esta noite é de
grande simbolismo para todos os nomeados e, também, para o nosso país pela
distinção. E não é qualquer evento que tem portas abertas no Centro Cultural de
Belém.
A seguir continuação do Capítulo VI
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