Aos sábados, com o meu livro (6-a)






Por:Carlos Alberto Alves
jornalistaalves@hotmail.com
Twitter: jornalistaAlves 

CAPÍTULO VI

AS MINHAS ÚLTIMAS CRÓNICAS DE 2004

Terminei a minha carreira em Julho de 2004, logo após o términus do Campeonato da Europa que decorreu em Portugal.  Escrevi alguns artigos sobre o referido evento e, também, outros relacionados com acontecimentos anteriores. Aqui deixo, portanto, todos esses artigos, que assinalam, de uma forma simbólica, o meu adeus à profissão, não deixando, no entanto, de continuar a ser jornalista.

Crónica dos bons-velhos-tempos

A Universidade MSU

Sempre que fui aos Estados Unidos e ao Canadá, procurei, no âmbito da minha programação, conhecer coisas diferentes, palpáveis em toda a acepção da palavra. Algo que despertasse interesse no pio leitor, sabendo-se que, nos referidos países, existe uma forte comunidade portuguesa, arreigada às suas tradições, aos seus costumes, enfim, uma forma de não esquecer a terra onde nasceram, o torrão de origem, ao fim e ao cabo.

Na segunda viagem (reporta a 1984), conheci João Gonçalves, o homem que faz a ligação entre os emigrantes e o governo na zona de Massachusets. É ele que os recebe, que ausculta os seus problemas e que, depois, os canaliza, com informação consentânea, às respectivas cúpulas.

Numa bela tarde, João Gonçalves, conhecedor dos meus objectivos, fez questão em levar-me à universidade onde estudou, a tão conhecida MSU, que fica entre Fall River e Boston. Digamos, a meio do percurso entre estas duas cidades. Só que uma é o "cu da América" (Fall River) e a outra já é uma city diferente em todos os aspectos.

Chegados à MSU, fomos recebidos, de forma muito cordial, pelo respectivo reitor, um homem que irradiava notável simpatia e que, desde logo, fez questão em seguir connosco nesta visita aos pólos mais importantes daquela universidade que é, pelo que constatei "in-loco", uma das mais famosas ali da zona. Sinceramente, valeu a pena as duas horas em que levei a palmilhar a MSU, passando pelos anfiteatros, pelos campos de futebol (o americano), pelas salas de conferências, etc., etc. Terminada a visita, o reitor, um homem baixote e já com alguns cabelos grisalhos, ofereceu-me um t-shirt da universidade, bem como uma placa. Óbvio que foi enorme o meu contentamento por ter sido tão bem recebido na MSU e, também, mais feliz pelo facto de ter contribuído, em parte, para uma esfusiante alegria do meu amigo João Gonçalves, também jornalista e comentador da televisão -correspondente, na zona de Bóston, da delegação da Rádio Televisão Portuguesa nos Açores.

Mas as surpresas do João Gonçalves para comigo continuaram. Terminada a visita, levou-me à sua própria casa para almoçar, ele que sabia que, por ocasião da minha permanência em Angola, tinha estado no Lobito, terra da sua mulher. E a Cristina, sua cara-metade, preparou-me um fricassé que muito gostava em Angola. Uma delícia. Naquela casa, fiquei mesmo com a impressão que estava em Angola. Ali havia muitos símbolos angolanos, um deles retratando uma das cidades onde dilatei  mais  a  minha permanência, concretamente Nova Lisboa. E porquê? Foi em Nova Lisboa que continuei a engatinhar no jornalismo, enfileirando o leque de colaboradores do jornal "O Planalto", então dirigido pelo meu amigo capitão José Cid Torres que, na verdade, percebia muito pouco da matéria, mas que apenas figurava como Director por  ser, na qualidade de militar, uma pessoa muito estimada no seio da comunidade.

E assim, mesmo nos Estados Unidos, ou em outro sítio qualquer, recordamos um passado que marcou, inquestionavelmente, a vida de muitas pessoas. E outros, claro, numa guerra que nada trouxe para o nosso país, deixaram lá a vida. Esses, sim, têm que ser recordados. Haverá mesmo por aí, num cantinho qualquer deste portugalzinho, um monumento de homenagem aos "combatentes no ultramar"? Pode existir, não duvido, mas onde está ele? No Terreiro do Paço?

Em Belém? E como se chama aquele lugar onde funciona  a Assembleia da República? Sinceramente, não me lembro... Raramente passo por ali, quiçá pela repugnância que sinto pela esmagadora maioria dos políticos deste país.

Como diria um amigo comum, "são todos bons rapazes". É verdade, hoje já não existem rapazes maus. Estarei a ver neste momento um filme de ficção?

Benfica de luto

A minha solidariedade

Sempre mantive, ao longo de todo este tempo, uma enorme simpatia pelo Sport Lisboa e Benfica, corolário do inolvidável tempo que passei em estágio no "grémio da Luz", que reporta a 1977, quando acompanhei o técnico inglês John Mortimore e, também, o meu particular amigo professor Rui Silva, seu preparador físico.

Nunca escondi a minha facção clubista, o Sporting Clube de Portugal, mas, jornalisticamente falando (o que aqui mais me interessa), sempre trilhei o caminho da isenção e, fundamentalmente, apoiar dentro dessa própria filosofia.

Hoje, o Sport Lisboa e Benfica, apesar da euforia vivida no domingo com a conquista da Taça de Portugal no esgrimir com um Futebol Clube do Porto, ultimamente "papa competições", vive um momento de profunda tristeza com a morte de dois dos seus atletas no espaço de dois meses. Primeiro, o húngaro Feeher que caiu fulminado no jogo que o Benfica disputava em Guimarães, e, agora, atacado por embolia cerebral, o jovem promissor Rui Baião, capitão da equipa do escalão de juniores A. Um jovem que, na realidade, muito tinha para dar e que era apontado como uma das maiores promessas do futebol português, tendo revelado enormes capacidades técnicas. E, tristemente,

quando se preparava para assinar aquele que seria, por certo, o contrato da sua carreira, Rui Baião é vitimado por essa embolia que, há dois anos atrás, também o havia ameaçado. Só que, desta feita, ceifou a vida de um jovem que, para além de futebolista de reconhecidas potencialidades, era muito estimado no seio das camadas jovens do prestigioso e mítico Sport Lisboa e Benfica, ainda hoje, e não obstante os insucessos verificados nos últimos dois lustros, considerado o maior clube português, o clube que abarca um impressionante número de prosélitos, espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Do Benfica, reafirmo, guardo as melhores recordações, sobretudo dos seus mais carismáticos dirigentes da altura, alguns deles já falecidos. Pelo Benfica, tenho o maior respeito e estima e, como tal, não podia ficar alheio a este movimento de solidariedade em torno do clube, pelo falecimento do jovem Rui Baião.

E quero aqui imbuir-me, neste momento de dor, naquela máxima que sempre caracterizou o maior clube português. ET PLURIBUS UNUM.

Força, Benfica. Todos choramos, no espaço de dois meses, o desaparecimento de dois atletas na flor da idade, respectivamente, com 25 (Feeher) e 18 anos (Rui Baião), dois atletas que tinham ainda muito para dar ao futebol português.

Crónica dos bom-velhos-tempos

Uma tarde de ambiente à... "far west"

Para os milhares de açorianos (e, porque não, também os continentais) que vivem na Nova Inglaterra, suscitou, na altura, o mais vivo interesse a realização de um torneio entre equipas dos Açores que se realizou naquelas paragens, mais propriamente na cidade de New Bedford, que é considerada a capital portuguesa na América, sendo a maioria açorianos que, tal como na sua ilha, vivem a vida sem profundas alterações. Por isso, o torneio disputado no Sargent Field, terá constituído o maior acontecimento desportivo do ano para os milhares de ilhéus que encheram literalmente um dos maiores recintos de New Bedford. Sargen Field abarrotado de entusiastas do futebol que vibraram com o desenrolar dos acontecimentos e, consequentemente, contribuíram para um matar de saudades sempre ambicionado por todos. Uma festa de futebol, que redundou num êxito mas que, na parte final, teve laivos dos chamados filmes do Far West quando o árbitro (lá dizem o refeere) abandonou o rectângulo e foi molestado por centenas de espectadores que pretendiam a invalidação de um golo.

O árbitro, juntamente com os seus auxiliares, passou momentos dramáticos, até que, paradoxal que pareça, o único polícia em serviço no campo lançou um S.O.S. ao quartel mais próximo e, imediatamente, as sirenes começaram a apitar, surgindo polícias por todos os lados, que até pareciam formigas.

Face à presença daquele batalhão de polícias, a debandada foi geral e tudo voltou à normalidade. O árbitro, rodeado por agentes da lei (daqueles que têm dois metros e tal de altura) que o protegiam, disse-nos quase afónico:

"Amigo, na América não se pode ser árbitro. É raro o jogo que não termine assim e o seguro de vida, por enquanto, não compensa. A nossa missão jornalística em terras do Tio Sam terminou ali. De New Bedford, para Loweel, onde estávamos "aquartelados", cogitámos naquela frase do árbitro. Na América, raro é o jogo que não termine assim. E para não fugir à regra, o primeiro torneio açoriano disputado nos "States" foi bem à moda americana.

PROTECÇÃO. No Sargent Field, logo que a confusão se instalou, e porque a nossa pasta tinha escrito PRESS, tivemos logo a protecção da polícia. Um dos tais matelões, puxou por um braço e colocou-nos junto a um dos carros da polícia  ao lado de um dos enormes cães. Só sei que o polícia falou com o cão que, de imediato, se sentou à nossa frente. Escusado será dizer que, circunstancialmente, o nosso medo estava virado para o cão que, no entanto, portou-se magnificamente. É que, na América, os jornalistas são bem protegidos. E sabemos bem o motivo. O poder da comunicação social preocupa os poderosos, incluindo, obviamente os governantes. Mas nunca tínhamos

passado por tão delicada situação. Valeu o polícia e o seu fiel amigo,treinado para tudo. Só não sei se o famigerado cão leu o PRESS que estava colocado na minha pasta, apesar de, posteriormente, ter colocado ao peito o meu crachá de identificação.

A CARTA. Depois da crónica que escrevi no jornal "A Bola" sobre os incidentes que aqui relatei, recebi uma carta da LASA  - Liga Americana Soccer Association - que manifestava o seu desagrado pelo facto de eu ter considerado "um ambiente à Far West". Respondi à LASA que dali não retiraria uma vírgula e que, inclusive, fui demasiado benévolo em função do que constatei "in-loco".

Meteram a viola no saco. "E esta. heim"!

Do meu ponto de vista

Quem será premiado nos Óscares?

Hoje, em Lisboa, concretamente no Centro Cultural de Belém, teremos a eleição dos Óscares do desporto ao nível mundial. Sem dúvida a maior cerimónia de sempre para se saber quem é o melhor dos melhores e que, curiosamente, ou não, conta com um forte dispositivo de segurança policial.

Estarão no CCB figuras de proa do desporto mundial. Um evento que Portugal já merecia e que, para o efeito, e mais uma vez, abriu as portas do Centro Cultural de Belém, com a permissão, lógica e racional, do Dr. Jorge Sampaio, ilustre presidente da república portuguesa. Pela passerelle do CCB desfilarão grandes vultos - Ronaldo, Figo, Mónica Sales, etc. - mas, para além disso, este evento tem uma simbólica particularidade. Esta: será leiloado um livro que pesa 34 quilos, com 800 páginas, e cuja receita destina-se a ajudar as crianças mais carecidas, maior incidência para aquelas que foram infectadas pelo vírus da sida, um dos maiores flagelos dos últimos anos. Só por isso, esta cerimónia tem um significado muito especial.

Mas quem será o melhor dos melhores, ou seja, o premiado nesta noite dos Óscares do desporto? Pessoalmente, aposto em Ronaldo e/ou Luís Figo. São dois dos meus favoritos, mas outros "monstros" poderão, sem surpresa, vencer. É difícil vaticinar o vencedor. Mas todos são, ao cabo, vencedores, nesta gala em que a solidariedade estará de mãos-dadas com as crianças desprotegidas. E isso é que nos alegra, sabendo-se que esta noite é de grande simbolismo para todos os nomeados e, também, para o nosso país pela distinção. E não é qualquer evento que tem portas abertas no Centro Cultural de Belém.

A seguir continuação do Capítulo VI

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