Ela sempre sonhou em ser jornalista


 
Por: Carlos Alberto Alves
jornalistaalves@hotmail.com
Twitter - jornalistaAlves

Fall River foi das cidades onde mais tempo permaneci aquando das minhas oito deslocações aos Estados Unidos em serviço de reportagem. Por lá deixei muitos amigos, a esmagadora maioria açorianos.

Hoje, apresento aqui algo de interessante e que tem como essência o sonho de uma micaelense que queria ser jornalista. Um sonho que se transformou em pura realidade.
Nélia Alves é seu nome, natural de Rabo de Peixe (uma das freguesias mais pobres da ilha de São Miguel-Açores), residente em Fall River e hoje Doutorada. Nélia Alves fez amigos nos Estados Unidos de vários países, citando, nomeadamente, italianos, alemães, chineses, japoneses, indianos, árabes.

Medite-se, pois, neste exemplo de persistência. Na verdade, querer é poder.
”Nasci em Rabo de Peixe, onde cresci, fiz a escola primária, a catequese, fiz parte de grupos de jovens e fui catequista. Uma freguesia única, infelizmente estigmatizada, mas com gente de muita coragem e valor. Hoje também sou desta forma porque nasci naquela terra.

Fui viver para Vila Franca porque, entretanto casei e lá fiquei cerca de oito anos. Em 1998 separei-me e decidi recomeçar aquilo que nunca deveria ter interrompido: os meus estudos. Nessa altura faltava ainda completar o décimo segundo ano e foi o que fiz. Realizei os exames de acesso à Universidade.

Nunca me esquecerei deste verão de 1999. Estava a trabalhar, na altura na secretaria do equipamento social fazendo um part-time quando uma amiga me telefonou a dar os parabéns pelo meu ingresso na faculdade. Eu nem queria acreditar, pois ainda não tinham saídos os resultados, mas ela viu na net.

Eu saí como louca e fui à escola ver com os meus olhos: era verdade! Tinha sido aceite no curso de comunicação social, a minha primeira opção na candidatura ao ensino superior. Fui eu e outra amiga micaelense que conseguimos entrar naquele ano pois a média era muito alta. O orgulho foi ainda maior.

Telefonei aos meus pais e amigos e lembro que o meu pai só disse assim: obrigada filha, com a voz embargada e desligou. Ter um filho na Universidade sempre foi um dos sonhos do meu pai e por isso eu ainda estava mais feliz. Na tese de licenciatura, na parte dos agradecimentos, faço uma menção especial ao meu pai, dedicando-lhe aquele trabalho. Era o sonho dele e o meu concretizados.

Entretanto havia que preparar as malas e arranjar quarto em Lisboa. Comecei por fazer alguns contactos e lá consegui um apartamento no Bairro da Ajuda, que ficava perto da faculdade.

O dia da partida... foi um dia de lágrimas. A minha mãe não conseguiu ir ao aeroporto. Só o meu pai me acompanhou. Levava quatro malas e uma mochila mais uma carrada de coragem no peito. Estava feliz, mas triste por deixar a família. Depois de estar dentro do avião, sorri, por ter conseguido chegar até ali.

No aeroporto de Lisboa esperava-me um amigo do meu pai para me ajudar com as malas. Foi giro ver o meu nome escrito na placa de cartolina que ele levou. Parecia que era alguém importante.

Ele levou-me ao táxi e eu dei a morada. Já tinha ido a Lisboa em outras ocasiões, mas aquela vez era diferente. Por isso parecia que estava a olhar a cidade pela primeira vez e nem queria acreditar que eu ia viver na cidade das colinas, na cidade do Restelo de onde tantos barcos partiram à conquista do mundo.

Mas nem tudo foi cor de rosa. Fui logo enganada pelo motorista que me cobrou o triplo da corrida. Mas claro, percebeu pelo sotaque que era açoriana e não teve compaixão. Quando entrei no apartamento, outra deceção: o meu quarto era uma espécie de dispensa, não tinha janela e era minúsculo. Disse para mim mesma: só fico aqui o tempo de encontrar outro. E foi o que fiz. Nessa noite chorei na janela da cozinha e senti-me muito só. Cheguei a duvidar se estava a fazer a coisa certa.

No dia seguinte fiz uns contactos para S. Miguel que me indicaram um quarto no Campo Grande. Eu não sabia como lá chegar de autocarro mas fui perguntando e lá me foram dizendo que carreira devia apanhar.

Penso que mudei sete vezes de autocarro até chegar ao meu destino! Podia ter ido de táxi, mas estava traumatizada com a primeira corrida e além disso já estava naquele espírito académico: andar de autocarro e de metro!

Vi o apartamento e gostei. O único problema era que ficava mais distante da faculdade pelo que tinha de apanhar dois autocarros, mas não me importei, afinal as distâncias são relativas, isso mesmo aprendi em Lisboa, nada é longe, pelo menos comparado com as distâncias nos Açores.

Fiz a mudança com a ajuda de uma amiga que já vivia lá e passados quatro dias estava a ir para o primeiro dia de aulas.

Cheguei à faculdade depois de ter apanhado primeiro o autocarro 41 que me levou da Calçada de Carris (onde morava) até ao Campo Pequeno e lá apanhava o 59 que me levava para a Avenida da Junqueira onde ficava o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa. Desci do autocarro, dirigi-me ao portão da Universidade e disse: Consegui! Sou estudante universitária.

A partir daqui, era uma estudante como os outros apesar dos meus já 28 anos de idade. Os meus colegas eram quase todos mais novos do que eu cerca de dez anos, mas isso nunca foi problema pois o meu espírito era tão ou mais jovem do que o deles.

Até foi engraçado porque olhava os problemas e traumas de algumas amigas e sorria pois pensava que naquela idade também eu pensava que o mundo acabava nos nossos problemas.

Foi um privilégio ter lidado com aquela nova geração. Aprendi imenso com eles e penso que também deixei uma marca positiva neles. Até hoje ainda me chamam de a “nossa açoriana querida”.

Fui praxada como todos e amei aquelas brincadeiras. No primeiro dia de aulas, na primeira aula e durante a minha primeira intervenção percebi que tinha que falar devagar pois nem os professores nem os colegas entendiam o meu sotaque micaelense. Mas isso fazia-me ainda mais popular.

Com o tempo deixei de falar no gerúndio e passei a usar o infinitivo... enfim, truques. Mas nunca deixei de ter sotaque, apesar de que quando chegava aos Açores a minha família gozava comigo porque estava a falar à moda. Enfim, já não era açoriana nem era lisboeta!

As memórias são muitas, desde as festas académicas, passando pelas noite em branco a estudar para os exames. Tive de fazer alguns exames orais e nunca me esqueço porque conseguia sempre melhor nota. Mas a maior das recordações foi o dia da bênção das minhas fitas. Nunca me esquecerei deste dia. Fiz parte do comité que organiza aquele evento e coube-me levar as fitas da minha Universidade ao cardeal de Lisboa, D. Policarpo. Entreguei-lhe as fitas e virei-me para os meus colegas com os braços no ar dizendo: Conseguimos! E conseguimos.

Estava tão orgulhosa e emocionada com todas as palavras que os meus colegas haviam escrito nas minhas fitas. Ali percebi o quanto me admiravam e gostavam de mim. E assim foi, terminei o curso e prossegui com o mestrado, desta vez na Universidade Católica de Lisboa. Vivi em Lisboa até 2006, altura em que voltei para os Açores e fui fazer um estágio no jornal Açoriano Oriental.

Quando terminei a parte curricular do mestrado vim para os Estados Unidos em 2007 fazer uma investigação para a minha tese de mestrado sobre a comunidade emigrante e a sua participação política.

Novamente foi uma experiência única. Já tinha estado neste país mas sempre como turista e nem gostei muito. Desta vez estava sozinha e vim para a Universidade. Vim como aluna visitante e fui para a Universidade de Brown, em Providence. Vivi primeiro, num apartamento da própria Universidade e depois mudei-me para a International House, uma instituição de apoio aos estudantes estrangeiros. Estive lá um ano e depois fui viver com uma família americana. Foi uma experiência fantástica porque em qualquer uma das casas tive oportunidade de conhecer alunos de todo o mundo.

Fiz amigos italianos, chineses, japoneses, alemãs, indianos e até árabes. Com a família americana experienciei aquilo que é a vivência do americano oriundo de outras etnias. Eles também queriam saber sobre os Açores e nas férias eu trazia produtos nossos e sempre que chegava um hóspede novo ele cozinhava um prato típico da sua terra. Eu também cozinhei bacalhau que eles adoraram e pô-los a ouvir Carlos Paredes na guitarra portuguesa e a Amália, claro.

Durante a minha investigação tive que conviver com a comunidade emigrante e acabei por me envolver também. Como era jornalistafree lancer do Açoriano Oriental passei a fazer entrevistas semanais sobre emigrantes açorianos que se distinguiam nas diferentes áreas. Entrevistei professores, empresários, políticos, advogados, juízes...enfim... queria que os Açores tivessem noção do potencial dessas pessoas que um dia deixaram a sua terra e conseguiram vingar num país onde nem sequer sabiam a língua.

Depois fui convidada para pertencer à Casa dos Açores da Nova Inglaterra como diretora para a comunicação social. Há dois anos integrei a lista como vice-presidente e este ano fui eleita presidente.

Como vêm também já sou quase emigrante, gostei tanto de cá estar que decidi ficar, pois surgiu a oportunidade de fazer doutoramento na Universidade de Massachusetts Dartmouth e cá estou até agora.

Estou a fazer doutoramento em Estudos luso-afro-brasileiros e teoria. Estou no meu terceiro ano e ainda faltam dois. No último, escreverei a tese, que será um estudo comparativo entre a comunidade açoriana emigrante nos EUA e Canadá.

Para mim foi mais difícil emigrar do que migrar. Foram duas experiências únicas, mas em Lisboa estava mais perto de casa, visitava com mais frequência a família. Além disso, não nos sentimos diferentes. Ou seja, somos portugueses em qualquer parte do território luso, já nos EUA somos os “outsiders”. Sempre fui muito bem recebida, mas o sentimento é outro. Não é a nossa terra, não é a nossa cultura. E nós sentimos isso por altura das festas e de datas importantes para o nosso país.

Hoje quando dou esta entrevista está a acontecer o 25 de Abril em Portugal e fico triste por não poder estar em Lisboa na Avenida da Liberdade a gritar: 25 de Abril sempre. Mas fico feliz quando penso que mesmo longe também estou a fazer algo pelo meu país, pela minha região e faço isso através da Casa dos Açores, na Universidade divulgando a nossa cultura, enfim, nós, os emigrantes, somos os verdadeiros embaixadores do país e isso é muito gratificante.

Os Açores são o meu porto seguro, a minha casa, o meu cantinho. Depois de ir viver para Lisboa é que dei mais valor à nossa terra. E quando vim para os Estados Unidos senti ainda mais a açorianidade. Penso que os açorianos radicados nos quatro cantos do mundo é que podem, mais do que ninguém, pronunciar esta palavra que nunca vem sozinha, pois claro, vem acompanhada da outra: saudade.

Não sei se um dia regressarei. Desde que deixei a ilha que digo que sou uma cidadã do mundo e que irei para onde o destino me enviar. Mas claro que tenho motivos muito fortes para regressar porque primeiro é o meu país e depois tenho lá toda a minha família se bem que também iniciei uma família aqui mas o meu companheiro também é açoriano e não colocamos de parte a hipótese de voltar.

Para Nemésio, “é com os próprios olhos que tiramos do mar a terra que nos faltou”. É uma frase que arrepia. O mar que nos separou ontem é o mesmo mar que nos une hoje. Apesar da saudade, das dificuldades, viver no estrangeiro foi uma opção e nós estamos a fazer as nossas vidas, criando laços neste país e contribuindo também para o seu crescimento económico, cultural e político.

Isso mesmo é reconhecido pela sociedade americana que se define como um mosaico intercultural. Portugal e, os Açores em particular, têm um lugar de destaque na história deste país. Foi olhando para o mar que vimos a oportunidade de crescer, de nos expandirmos.

Vimos a terra que nos faltou nos Açores, no imenso mar que rodeia o arquipélago e embarcamos nessa aventura que é a emigração. A nossa comunidade só tem motivos para se orgulhar do que tem feito neste país. Claro que estamos a fazer um percurso de adaptação e integração natural de quem emigra. Começamos nas fábricas, na pesca e na agricultura e pecuária mas hoje já estamos nas universidades, já temos médicos, advogados, professores, políticos e isso mostra a evolução deste povo que chegou cá à boleia de um barco baleeiro, sem nada, apenas com um sonho: o sonho americano. E eu sinto orgulho dessa gente, desses homens e mulheres de coragem.

Termino utilizando uma frase de um outro grande autor açoriano, Daniel de Sá, em quem me revejo plenamente: “Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”.
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