Fazer rádio, do sonho à realidade. Reconheço, porém, que não
tinha uma voz consentânea para dar a cara. Aqui, realmente, comecei por denotar
alguma timidez (eu me confesso), apesar de ter recebido alguns (e bons)
incentivos. No Rádio Clube de Angra, comecei como editor, urdindo programas
qualitativos, apresentados por locutores de “élite”, destacando, nomeadamente,
João Ávila, Durvalino Sarmento, Milton Santos e Lucinda Barcelos, uma voz
feminina muito querida pelos ouvintes. Com ela, dizia sempre por brincadeira,
“era sempre programa de sucesso”.
Mais tarde, aí sim, a minha voz apareceu publicamente ao
serviço das rádios Horizonte, Atlântida e TSF-Açores. Não deslumbrei, mas
também não desiludi ninguém. Na Horizonte, já dava voz aos meus programas, mas
sempre gostei de ter ao meu lado o João Manuel Alves, que se impôs na Antena I
(muitos julgavam ser meu irmão). Diziam que esta dupla dos Alves se completava
muito bem. Disso também tenho plena consciência. Na Atlântida e na TSF-Açores,
apenas marcava presença aos domingos com curtas intervenções, mas, mesmo assim,
não deixou de ser importante em termos curriculares.
Por fim, a Rádio Ponte (uma ponte sobre o Atlântico), com
sede em Fall River, Estados Unidos, rádio essa lançada por Diogo Pimentel, um
homem de boa voz e, também, excelente artista plástico. Aquando das minhas
deslocações aos Estados Unidos (falarei delas em outro capítulo), sempre estive
presente na Rádio Ponte em debates e programas de índole cultural. De Portugal,
entrava às segundas-feiras, o que me dava um enorme prazer, visto que muitos
emigrantes ansiavam (sempre ansiaram) por notícias fresquinhas do seu
querido país, da sua querida região. Desta rádio, recebi um diploma pelos bons
serviços prestados.
No que concerne às revistas, apenas completou o ciclo
profissional. Fi-lo, apenas, por amizade aos directores de então, um deles João
Palmeira Bicho. Curiosamente, Palmeira Bicho era um homem da rádio, com muita
tarimba trazida de Angola. Devo sublinhar que, em Angola, a rádio era o meio de
comunicação social que estava na vanguarda. Muitos dos bons profissionais, após
o processo de independência, rumaram para Portugal, sendo recebidos de braços
abertos pelas rádios de maior envergadura que, deste modo, enriqueceram o seu
leque de locutores e produtores de programas. Manda a verdade dizer que nomes
sonantes da rádio angolana estão hoje em Portugal. Desse núcleo, deixo aqui a
minha homenagem póstuma ao saudoso Rui Romano que, depois, acabaria por passar
para a Rádio Televisão Portuguesa (RTP1). Já em Angola, de 1965 a 1967,
admirava Rui Romano quando sintonizava o Rádio Clube de Angola. Uma voz dócil e
amiga, nas manhãs de Luanda. Rui Romano não se apaga da minha memória.
A seguir Capítulo IV
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