Publicado no jornal A União em 18 de julho de 2010
A Sociedade Recreio dos Artistas, com sede na Rua Anastásio Bettencourt (não
sei se mudaram o nome), completou 133 anos de existência. Quer isto dizer que,
quando eu nasci, a Recreio dos Artistas já funcionava, social e culturalmente
falando, há 67 anos.
Sempre foi uma agremiação que muito deu (e ainda continua a
dar dentro dos seus próprios condicionalismos) ao terceirenses, muito
particularmente aos angrenses. E sempre foi interessante, em décadas
anteriores, a rivalidade entre a Recreio dos Artistas e a Fanfarra Operária
Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Na exibição de filmes e, sobretudo, no que
concerne às tocatas das respectivas filarmónicas. Mas, aqui, manda a verdade
dizer que por ambas as filarmónicas passaram músicos de excelente nível. Ainda
bem que, na altura, o Teatro Angrense estava fora dessa “guerra”. O empresário
Marcelo Pamplona, nesse sentido, foi tocando a sua vida com o seu TA e a
Praça de Toiros de São João, o que significa que só tinha música nas corridas
de toiros e nos espectáculos do Teatro Angrense, nomeadamente, pelo Carnaval,
as Matinés Regina, que ainda hoje se recorda, graças ao empenho do empresário
Alberto Ferreira.
Hoje, sobretudo após o sismo de 1980, as coisas mudaram um pouco para a Recreio
dos Artistas, mas a sociedade continua bem viva, de porta aberta, para o
aspecto de índole social e para a música (entenda-se pela sua filarmónica).
Claro que hoje já não existe nos arraiais das Festas do Espírito Santo aquele
entusiasmo do povo, como era antigamente, no Outeiro, Santa Luzia, Corpo
Santo, Quatros Cantos, Guarita, Rua da Boa Nova e por aí
fora. Era um mar de gente em torno do palanque a ouvir as duas citadas
filarmónicas, não esquecendo, em jeito dereconhecimento pessoal, a Filarmónica
Recreio dos Lavradores da Ribeirinha que também entrava nessa disputa do “quem
toca melhor”.
A Recreio dos Artistas teve o condão de levar, nas cálidas noites de Verão,
muita gente à sua esplanada para assistir às revistas, normalmente comédias e
onde se destacaram grandes valores artísticos (de fazer rir e chorar de rir),
citando, entre outros, José Xavier Lopes, Orlando Baptista, Henrique Turlu,
Elmano Azevedo (encontrei-o várias vezes na cidade da Horta). Revistas com a
assinatura de Maduro Dias (pai) e de outros especialistas na composição da revista-comédia.
Noite em que a revista ia à cena, era sempre casa cheia. Não sei precisar o
número, mas foram muitas. Depois, tudo acabou. Foi pena. Resta-nos agora as
recordações desse tempo em que havia grande união entre os sócios e
simpatizantes da Recreio dos Artistas. Sempre estive pela RA, mas, numa bela
época, quando Emílio Ribeiro presidia aos destinos da Fanfarra Operária e
trouxe até à Terceira o Conjunto Académico João Paulo (já estava com o nome de
João Paulo 70, com a inclusão da sul-africana Vickye Malongo e de um
saxofonista belga), fiquei mesmo repartido no tal cinquenta-cinquenta, porque
era um incondicional fã desse grupo formado por estudantes madeirenses. Vi-os
pela primeira vez em Fevereiro de 1965 na televisão (estava em Torres Novas aguardando
data de embarque para o Ultramar) com o meu grande amigo João Alberto da Rocha
Veríssimo e, mais tarde, com eles estive numa digressão que fizeram por Angola.
Escusado será dizer que, nesta vinda à Terceira, não perdi um único
espectáculo.
Ainda da Recreio dos Artistas, os belos momentos, nomeadamente nas noites
invernosas, em que se jogava às cartas, ao dominó, ao bilhar, enfim, os
bons-velhos-tempos. Saudades de, por exemplo, das discussões (sem brigas,
sublinho) entre o Álvaro Carepa (pai) e o Cabo Rafael, com o “Filili” ali por
perto. E quando o Carepa mandava o Rafael dormir, era de partir a “moca” a rir.
E era também interessante quando se chamava o Mestre Manuel Medeiros, contínuo,
pessoa altamente correcta, para trazer as cartas ou o dominó. O Mestre Manuel
não era pessoa de sorrir muito e nunca entrava a falar de futebol com os
outros, porque tinha preferência pelo Marítimo do Corpo Santo e o clube perdia
sempre, muitas vezes com cabazadas.
Era assim a Recreio dos Artistas de outros tempos. Mas o facto de ainda se
manter viva, é caso para se dizer: falta pouco para atingir os 150 anos de
vida. Vai lá chegar? Creio que sim.
Acresce dizer que, em 30 de Novembro de 1991, estive presente, no salão de
cinema da RA, num colóquio em que participaram Eusébio da Silva Ferreira e
Humberto Coelho, numa altura em que chefiava, em São Miguel, a redacção do
Jornal do Desporto e fui, para o efeito, convidado pela Direcção do Sport Club
Angrense, presidida por Gustavo Manuel Borba da Silva. Foi a última vez que
entrei na Recreio dos Artistas.
Um abraço para todos aqueles que ainda estão ligados intrinsecamente a uma
agremiação que tem contribuído para o desenvolvimento sócio-cultural da nossa
terra. Um passado rico e um presente que só não é melhor porque os tempos
mudaram - outras mentalidades e outros meios de levar as pessoas ao
divertimento. Mas, em 133 anos de vida, são muitas as histórias passadas na
Recreio dos Artistas.
Neste ponto final, a minha sincera homenagem aos maquinistas Tio Luís, Valdemar
e José Manuel Medeiros, e alguns dos porteiros com quem tive mais contacto,
Manuel do Rosário, D. Levira Cota, Mestre Henrique (correeiro), Manuel da Rosa.
Algumas destas pessoas já faleceram.
A Sociedade Recreio dos Artistas, com sede na Rua Anastásio Bettencourt (não sei se mudaram o nome), completou 133 anos de existência. Quer isto dizer que, quando eu nasci, a Recreio dos Artistas já funcionava, social e culturalmente falando, há 67 anos.
Hoje, sobretudo após o sismo de 1980, as coisas mudaram um pouco para a Recreio dos Artistas, mas a sociedade continua bem viva, de porta aberta, para o aspecto de índole social e para a música (entenda-se pela sua filarmónica). Claro que hoje já não existe nos arraiais das Festas do Espírito Santo aquele entusiasmo do povo, como era antigamente, no Outeiro, Santa Luzia, Corpo Santo, Quatros Cantos, Guarita, Rua da Boa Nova e por aí fora. Era um mar de gente em torno do palanque a ouvir as duas citadas filarmónicas, não esquecendo, em jeito dereconhecimento pessoal, a Filarmónica Recreio dos Lavradores da Ribeirinha que também entrava nessa disputa do “quem toca melhor”.
A Recreio dos Artistas teve o condão de levar, nas cálidas noites de Verão, muita gente à sua esplanada para assistir às revistas, normalmente comédias e onde se destacaram grandes valores artísticos (de fazer rir e chorar de rir), citando, entre outros, José Xavier Lopes, Orlando Baptista, Henrique Turlu, Elmano Azevedo (encontrei-o várias vezes na cidade da Horta). Revistas com a assinatura de Maduro Dias (pai) e de outros especialistas na composição da revista-comédia. Noite em que a revista ia à cena, era sempre casa cheia. Não sei precisar o número, mas foram muitas. Depois, tudo acabou. Foi pena. Resta-nos agora as recordações desse tempo em que havia grande união entre os sócios e simpatizantes da Recreio dos Artistas. Sempre estive pela RA, mas, numa bela época, quando Emílio Ribeiro presidia aos destinos da Fanfarra Operária e trouxe até à Terceira o Conjunto Académico João Paulo (já estava com o nome de João Paulo 70, com a inclusão da sul-africana Vickye Malongo e de um saxofonista belga), fiquei mesmo repartido no tal cinquenta-cinquenta, porque era um incondicional fã desse grupo formado por estudantes madeirenses. Vi-os pela primeira vez em Fevereiro de 1965 na televisão (estava em Torres Novas aguardando data de embarque para o Ultramar) com o meu grande amigo João Alberto da Rocha Veríssimo e, mais tarde, com eles estive numa digressão que fizeram por Angola. Escusado será dizer que, nesta vinda à Terceira, não perdi um único espectáculo.
Ainda da Recreio dos Artistas, os belos momentos, nomeadamente nas noites invernosas, em que se jogava às cartas, ao dominó, ao bilhar, enfim, os bons-velhos-tempos. Saudades de, por exemplo, das discussões (sem brigas, sublinho) entre o Álvaro Carepa (pai) e o Cabo Rafael, com o “Filili” ali por perto. E quando o Carepa mandava o Rafael dormir, era de partir a “moca” a rir. E era também interessante quando se chamava o Mestre Manuel Medeiros, contínuo, pessoa altamente correcta, para trazer as cartas ou o dominó. O Mestre Manuel não era pessoa de sorrir muito e nunca entrava a falar de futebol com os outros, porque tinha preferência pelo Marítimo do Corpo Santo e o clube perdia sempre, muitas vezes com cabazadas.
Era assim a Recreio dos Artistas de outros tempos. Mas o facto de ainda se manter viva, é caso para se dizer: falta pouco para atingir os 150 anos de vida. Vai lá chegar? Creio que sim.
Acresce dizer que, em 30 de Novembro de 1991, estive presente, no salão de cinema da RA, num colóquio em que participaram Eusébio da Silva Ferreira e Humberto Coelho, numa altura em que chefiava, em São Miguel, a redacção do Jornal do Desporto e fui, para o efeito, convidado pela Direcção do Sport Club Angrense, presidida por Gustavo Manuel Borba da Silva. Foi a última vez que entrei na Recreio dos Artistas.
Um abraço para todos aqueles que ainda estão ligados intrinsecamente a uma agremiação que tem contribuído para o desenvolvimento sócio-cultural da nossa terra. Um passado rico e um presente que só não é melhor porque os tempos mudaram - outras mentalidades e outros meios de levar as pessoas ao divertimento. Mas, em 133 anos de vida, são muitas as histórias passadas na Recreio dos Artistas.
Neste ponto final, a minha sincera homenagem aos maquinistas Tio Luís, Valdemar e José Manuel Medeiros, e alguns dos porteiros com quem tive mais contacto, Manuel do Rosário, D. Levira Cota, Mestre Henrique (correeiro), Manuel da Rosa. Algumas destas pessoas já faleceram.
Comentários
Enviar um comentário
🌟Copie um emoji e cole no comentário: Clique aqui para ver os emojis