Às Quintas-Feiras (8)



QUANDO EU FUI A LAMBARI



Por: Carlos Alberto Alves

Por amor à verdade, refira-se que o Brasil usufrui de paisagens naturais dignas de serem vistas e aquilatadas ao pormenor. 

Mais uma vez corroboramos que é tão agradável percorrer este país, independentemente do Estado que se pretende visitar. Dentro da relatividade das coisas, é como estivéssemos nas nossas ilhas açorianas (e também na Madeira, porque não), cada qual com a sua própria beleza. Isto, apenas, para transmitirmos uma idéia aproximada, visto que o Brasil (180 milhões de habitantes), como se sabe, em termos de superfície é muito maior do que a Europa.

 Nesta peregrinação a Lambari, cidade com 19 mil habitantes (um pouco parecida com a “nossa” Praia da Vitória), foi impressionante a subida (e vice-versa no retorno) pela Serra da Mantiqueira, com curvas e mais curvas. Mas a sua beleza impressionou sobremaneira. Nas paragens de rotina, a cidade de São Lourenço é outra que, nos últimos tempos, é muito procurada pelos turistas locais e, também, por quem se desloca do exterior em excursões organizadas para o efeito. Bares e restaurantes q.b. e bem localizados no centro da cidade. 

De Lambari, o nosso destino programado, há que dizer que não foge ao estigma dos mineiros, isto é, a sua franca hospitalidade, servindo de paradigma a Presidente da Câmara Municipal, Andréia Canelhas, que nos cumulou de gentilezas. Trata-se de uma estudante de direito, com ligações ao Partido PTB. E há quem diga que, num curto futuro, é uma potencial candidata a Prefeita. 

Tal como acontece na esmagadora maioria dos lares brasileiros, em Lambari é gratificante constatar-se o amor à família por via das respectivas reuniões, sobretudo nos dias mais lembrados. Aqui, tive o privilégio de ser convidado para visitar a casa (diria um casarão) da D. Elvira, com 82 anos de idade, mãe de sete filhos (4 masculinos e 3 femininos) e esposa do falecido Promotor de Justiça (de nome Ferreira). Que reunião agradável ao juntar, na quinta-feira do Corpo de Deus, todos os seus filhos e netos. E mais curioso ainda o fato de duas das suas netas, as gêmeas Isabella e Giordana, assinalarem os seus 15 anos de idade. Uma festa bem à maneira da esfuziante alegria dos brasileiros. É tradição, em todo o país, quando um jovem completa 15 anos de idade, ser contemplado com uma grande festa de “niver”, reunindo (normalmente em salões de clubes e/ou sociedades), para o efeito, familiares e amigos mais chegados. No caso das netas da D.Elvira, apenas a família (que é enorme, sublinhe-se) e mais três ou quatro convidados especiais, como foi, circunstancialmente, o meu caso, convite feito de forma surpreendente, mas que, ao cabo, serviu para reforçar o que inicialmente fizemos eco, ou seja, a hospitalidade do povo mineiro. E mais: nesta agradável visita ao seio familiar da D. Elvira, falamos de Portugal e, sobretudo, das nossas ilhas açorianas – suas tradições e “modus vivendi”, basicamente. 

Portanto, numa avaliação global de quatro dias e em termos de mais conhecimentos sobre o Estado de Minas Gerais, a nossa passagem por Lambari acabou por ser proveitosa. 

Lambari, como a cidade foi rebatizada, ganhou o status de um dos principais destinos turísticos de Minas e do Brasil. Viveu seus tempos de glória na primeira metade do século XX, quando recebeu personalidades ilustres e influentes. A inauguração do Cassino marcou esta época e permanece na memória e na imaginação de seus moradores. Deixou lembranças que agora precisam ser resgatadas pelo turismo, fazendo com que os sonhos de grandeza voltem a virar realidade. 

Quem passa por Lambari não pode, de forma alguma, ficar alheio a uma das mais tristes e interessantes histórias da cidade: o Cassino. Tão magnífico sonho durou apenas uma noite, a de estréia, quando importantes figuras políticas compareceram ao evento, entre elas o presidente da República e o governador de Minas. Absurdas desavenças políticas fecharam suas portas e o Cassino não voltou a funcionar. Meio século de abandono se seguiu. Nesse tempo um verdadeiro crime foi praticado. Quase todo o seu acervo mobiliário e decorativo foi retirado, redirecionado para outros órgãos administrativos do Estado. Restaram algumas peças e o prédio, que passou por uma ampla reforma e serve como testemunha daqueles dias. 

O Cassino do Lago Guanabara misturou vários ingredientes: vontade, coragem, empreendedorismo, convicto... alegrias, tristezas, auge e decadência. Até mesmo o místico encontra seu lugar. Entrou para a memória da cidade a imagem de Werneck acompanhando com uma luneta as obras do Cassino. Considerado meio cientista e meio bruxo, o engenheiro deu ao seu projeto algumas curiosidades, como a simetria da construção em relação ao solstício e ao equinócio. O farol iluminava o lago e produzia um belo efeito nos vitrais do Cassino, todo dia 15 de novembro, data da Proclamação da República. 

NOTA FINAL – Sensibilizante o fato da Presidente da Câmara Municipal (que nos convidou para o evento “Inverno Gastronômico” que ocorrerá no próximo mês de Julho) ser uma pessoa aberta ao diálogo com a população, aceitando sugestões para melhorar a cidade. Nós, por exemplo, passámo-lo as carências que verificamos em Lambari, ficando a promessa de que iria apresentar todas essas sugestões ao Conselho Municipal.
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