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6/14/2011

Humorismo e sentido de humor




 
Por: Carlos Alberto Alves
Portal Splish Splash


O que se vê é que há mais gente irritada e azeda a agredir e a encobrir o sol por tudo e por nada, que artistas do humor, sábios e serenos, a desmontar agressividades e a conciliar diferenças, com um dito apropriado ou uma rábula, rica de saber e de graça.


O humorista, julgo eu, é uma pessoa inteligente e criativa, um artista.

Caso contrário, refugia-se na graçola, banal e pestilenta, acabando a rir sozinho com os bacocos, sem convicção, nem consolo.

Onde não há inteligência não há criatividade. Sem inteligência e estro artístico, o humor nasce tão doente, que logo morre à nascença. Criar humor é mais que contar anedotas ou entreter com cantigas picantes.

Há páginas de antologia em alguns dos nossos humoristas. Quem pode esquecer o sentido acutilante, irónico e pedagógico da “guerra do Solnado”?

Há no humorismo verdadeiras peças de arte que não envelhecem

Há no humorismo verdadeiras peças de arte que não envelhecem, nem se desfiguram. Ouvem-se hoje, como há dezenas de anos atrás. O mesmo gosto e prazer. A mensagem, que nunca é uma simples piada ou uma graçola insonsa, continua viva e atual.

Coisa rara, hoje, na produção dos chamados humoristas. Nem inteligência, nem criatividade, nem graça, nem saber, nem verve. O pretenso humorismo de hoje, como a pobreza do tempo, tornou-se descartável como a moda: ver, ouvir, rir, deitar fora.
Os canais de televisão e as estações de rádio conservam os seus humoristas, como a corte manteve o seu bobo. Alguns bem tristes, mesmo quando pretendem fazer graça. A gente da programação ou já não sabe o que é o verdadeiro humor, ou quer vender gato por lebre, ou, então, pensa que para um país desiludido e alienado, qualquer coisa serve para divertir e provocar gargalhadas.

As anedotas são brejeiras, os trocadilhos sem gosto, os ditos não dizem nada. E, quando se trata de intelectuais recentes a querer fazer humor em grupo, a desgraça parece ainda maior. Com um ar superior, brincam com tudo e com todos, não respeitam nada nem ninguém, nivelam tudo com a mesma rasa. O objetivo será o prazer do grupo, inebriado com seus dizeres vazios, seu saber pretensioso e suas gargalhadas histéricas. Ouve-se, vê-se e tira-se logo a prova de “como vai mal o humor em Portugal”. E no Brasil? Que me responda o Jô Soares, conhecido por “Jô Gordo”.

O povo ri se as piadas cheiram a sexo, religião ou política. Mas humor não é isto, porque, mesmo quando faz rir, também faz pensar.

Sempre que se deixa de pensar, as referências válidas para ajuizar e avaliar o que se ouve, se lê, se pensa e se vive, desaparecem.

Assim, o humor é impossível. Impossível fechar a boca aos insensatos e abrir o coração aos incautos, se a cabeça está oca e vazia.

Mal vai a um povo quando o humor se serve estragado ou dele não se sente falta

O bom humor é tempero da vida diária. Mal vai a um povo quando o humor se serve estragado ou dele não se sente falta. Os latinos diziam que “rindo se castigam os costumes”.

Um dito sábio a mostrar que se pode fazer mais com uma palavra breve de verdadeiro humor, que com um discurso longo de pretenso saber. Porém, os costumes vão hoje de tal ordem, que castigá-los se tornou tarefa difícil, senão impossível.

Muitos políticos agridem-se e picam-se, por tudo e por nada há governantes a prometer o impossível e não suportar críticas: muitos intelectuais viram narcisistas e olham a plebe por cima do ombro até os jovens, agora mais suficientes e surdos, fazem caminho por conta própria restam os excluídos sociais que carregam a sua dor, cada dia mais desiludidos.

Deixemos que os humoristas, poetas e outros artistas, dêem beleza à paisagem humana

O ambiente está mais carregado. Ninguém espere que o sol da esperança e da alegria alimente tristezas e desilusões. Com o futebol no defeso as coisas vão piorar. Deixemos que os humoristas, poetas e outros artistas, dêem beleza à paisagem humana e digam a toda a gente que o tempo não é de parar, nem de chorar, porque cada dia o sol nasce.

NOTA FINAL – Tinha que focar, nesta matéria, o já saudoso Raul Solnado, falecido, de forma surpreendente, em Lisboa. Será que, no futuro, vamos ter mais um Raul Solnado? Nada é impossível, mas será extremamente difícil. Depois, também lá foi para o “outro lado da vida” o Morais e Castro, que se tornou figura destacada na RTP como professor do “Menino Tonecas”, interpretado por Luís Aleluia. Curiosamente, viajei com os dois de Angra do Heroísmo para Lisboa. Exibiram-se dentro de um programa de uma Festa do Espírito Santo, na localidade chamada Pico da Urze, da freguesia de São Pedro.
E na imprensa escrita, o humor do meu saudoso amigo e companheiro, Carlos Alberto da Silva Pinhão. Só ele sabia aplicar o humor nos momentos certos. E aquela sua frase que se tornou célebre: ai que saudade, ai, ai! É verdade, ai que saudades deste grande jornalista.

"A Guerra" - Raul Solnado - 1967 -TV Record Brasil





Excesso - Lições do Tonecas

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