Enxaqueca: genética pesa, mas hábitos podem piorar

Especialista explica como genética e estilo de vida influenciam a enxaqueca e quais hábitos ajudam a reduzir crises e melhorar a qualidade de vida.

Cartaz informativo sobre enxaqueca explicando fatores genéticos e ambientais que influenciam a doença

 

Fatores ambientais e hábitos diários influenciam a frequência e a gravidade das crises


A enxaqueca pode estar nos genes, mas o modo de vida muitas vezes decide a intensidade da do

São Paulo – março de 2026 - A enxaqueca tem um componente genético, mas existem vários fatores de risco para o agravamento da doença. “Alguns deles são os chamados fatores de risco modificáveis, ou seja, coisas sobre as quais as pessoas podem ter algum controle, como tabagismo, obesidade, restrição de sono e uso excessivo de medicamentos e estimulantes. Infelizmente, alguns outros fatores de risco são considerados não modificáveis, como histórico familiar de enxaqueca e ser do sexo feminino. As mulheres manifestam mais quadros de enxaqueca do que os homens, cerca de três vezes mais, segundo estudos populacionais. As oscilações do estrogênio (na menstruação, ovulação, gravidez e menopausa) afetam a excitabilidade neuronal e a liberação de neurotransmissores, como serotonina e CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) e isso acaba por potencializar mais a doença nas mulheres”, explica o neurologista Dr. Tiago de Paula*, neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP) e membro da International Headache Society (IHS).

De acordo com o médico, o tratamento adequado é fundamental para a redução do risco de progressão da doença. “O risco de enxaqueca crônica aumenta quando as pessoas têm três ou mais dias de crises de enxaqueca por mês e, principalmente, quando utilizam muitos remédios de crise que cronificam a doença pela cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Esses medicamentos não tratam a doença e, quanto mais remédios você toma, menos eles funcionam e mais dor você sente. É um quadro conhecido como cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Além disso, esses remédios podem prejudicar a eficácia dos tratamentos de primeira linha”, alerta o médico.

O especialista explica, de forma didática, que o disparo de uma crise de enxaqueca faz um caminho neuronal e, quanto frequente esse caminho é feito, mais forte ele fica, por isso um tratamento efetivo atua na redução da frequência desse caminho e não no fim deste, que seria a crise de dor. “Explicando de forma alegórica, quanto mais frequentemente o caminho é percorrido, mais fácil é para o cérebro encontrá-lo na próxima vez e maior a probabilidade de o cérebro percorrer o caminho da crise de enxaqueca novamente. Tentar deixar as plantas crescerem sobre o caminho pode evitar que ele se torne maior com o tempo. Isso deve incluir tratamentos preventivos, que visam reduzir o número de crises e aumentar a quantidade de tempo que o cérebro passa fora do caminho das crises de enxaqueca”, explica o médico. “Por outro lado, se uma pessoa não trata a enxaqueca, tem uma vida muito intensa, está sempre exposta a estímulos, sofre com grande estresse e não dorme direito, ela tende a sofrer com crises mais frequentes e mais graves. Mas não podemos colocar as pessoas em uma bolha, por isso a doença deve ser tratada”, ressalta o neurologista.

Para reduzir o risco da progressão da doença, o tratamento da enxaqueca deve focar em uma abordagem global e integrada para atuar em todos os aspectos da enxaqueca, assim promovendo uma melhora rápida e devolver qualidade de vida ao paciente. “Além de mudanças na alimentação e no estilo de vida acompanhadas por nutricionistas e psicólogos, utilizamos tratamentos de primeira linha com evidência cientifica para a condição, como a toxina botulínica, que é aplicada em pontos nervosos específicos para reduzir a excitabilidade cerebral diminuindo progressivamente a sensibilidade do cérebro a dor, ajudando, assim, no controle da enxaqueca”, diz o especialista. Outra opção, também de primeira linha, é representada pelos medicamentos monoclonais Anti-CGRP, primeiros medicamentos desenvolvidos, do início ao fim, para o tratamento da enxaqueca. “Eles bloqueiam o efeito do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), que contribui para a inflamação e transmissão de dor e está presente em maiores níveis em pacientes com enxaqueca”, detalha o neurologista, que acrescenta que, em pacientes com enxaqueca crônica, a combinação da toxina botulínica com os anti-CGRPs tem se mostrado mais eficaz do que o uso isolado dessas terapias.

 Mudanças no estilo de vida quando possível também fazem parte do tratamento. No geral, os médicos recomendam 5 pontos:

Atenção ao sono – Muitas pessoas com enxaqueca sentem que seu sono é afetado. “É um ciclo vicioso: crises de enxaqueca e dor podem dificultar o sono. Quando alguém com enxaqueca não dorme bem, isso pode desencadear mais crises. Esse ciclo torna o sono uma parte importante do controle da enxaqueca”, diz o médico. “Manter um horário de sono consistente pode ajudar a controlar a enxaqueca. É melhor manter o mesmo horário de dormir e o número de horas de sono todas as noites. A chave é a consistência. Conseguir dormir consistentemente cinco ou nove horas por noite e se sentir descansado e bem pela manhã, é um bom sinal”, diz o médico.

Exercícios físicos de 30 a 50 minutos – Para algumas pessoas, o exercício pode desencadear uma crise ou piorá-la, isso reforça ainda a necessidade de tratamentos de primeira linha para o controle. “Mas o exercício pode reduzir a frequência, a gravidade e a duração das crises de enxaqueca em pacientes que toleram. Acredita-se que o exercício eleva os níveis de betaendorfinas, substâncias químicas que podem reduzir o estresse e a dor, e reduzir as crises de enxaqueca. A quantidade recomendada de exercício é de 30 a 50 minutos de atividade aeróbica de intensidade moderada, de três a cinco dias por semana”, diz o Dr. Tiago.

Refeições regulares – O cérebro do paciente com enxaqueca prospera com a consistência. “Por isso, é importante fazer refeições regulares ao longo do dia, manter-se hidratado e evitar o jejum. Refeições ricas em proteínas, fibras e gorduras saudáveis, com baixo teor de alimentos processados, ajudam a prevenir quedas de açúcar no sangue que podem desencadear uma crise de enxaqueca. E, principalmente, evitar gatilhos e cronificadores (cafeína, chás estimulantes, chocolate). Quanto à hidratação, é importante beber bastante água para compensar a perda de água pelo corpo através do suor, da micção e de outros processos corporais”, comenta o médico.

Mantenha um diário – Um diário é uma ferramenta importante para identificar padrões na enxaqueca. “Ele permite identificar gatilhos, frequência e gravidade das crises, facilitando o diagnóstico e a criação de um plano de tratamento adequado com o médico. Neste diário, deve-se anotar informações como o dia e intensidade de dor, sintomas associados, fatores desencadeantes (como alimentos, estresse, sono etc.) e o principal: se o paciente está tendo cada vez menos crises e apresentando um controle progressivo da doença”, diz o Dr. Tiago.

Técnicas de relaxamento e mindfullness – O médico explica que técnicas de relaxamento (como respiração diafragmática, relaxamento muscular progressivo e biofeedback) reduzem a ativação do sistema nervoso simpático, promovendo maior equilíbrio autonômico, o que diminui a excitabilidade cortical e a chance de disparo de crises. “Já o mindfulness contribui para a regulação emocional, melhora da atenção e redução da reatividade ao estresse e à dor, atuando diretamente na redução da carga alostática que pode precipitar crises. Estudos indicam que essas técnicas ajudam a diminuir a frequência das crises, reduzir a intensidade da dor e melhorar a qualidade de vida, inclusive em pacientes com enxaqueca crônica”, completa o Dr. Tiago. “Além disso, controlar o estresse é importante para encontrar atividades prazerosas. Pequenas mudanças no estilo de vida podem ter um impacto significativo no controle da enxaqueca”, finaliza.

*DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). Pesquisador sobre dores de cabeça, o médico também é palestrante em congressos nacionais e internacionais e autor de artigos, capítulos, livros e publicações científicas. CRMSP 168999 | RQE 18111 | Instagram: @drtiagodepaula

Nota do Editor – Portal Splish Splash
A enxaqueca é uma das condições neurológicas mais comuns do mundo e afeta milhões de pessoas com diferentes graus de intensidade. O esclarecimento sobre fatores de risco, prevenção e tratamento é fundamental para melhorar a qualidade de vida de quem convive com a doença. Informação clara e baseada em evidência científica continua a ser uma das melhores armas contra a dor invisível que tantas vezes limita o quotidiano.
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