ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

7/09/2012

A Visita






Por: Armindo Guimarães
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Nada de novo para contar, pensou ele.

Assim nos contou Joelmy sem acrescentar ao conto um ponto de extrema importância. Com efeito, eu também estava lá e posso garantir que no momento crucial algo mudou o rumo da história.

Desconheço as razões que levaram Joelmy a escamotear a acção que se seguiu.

É que…

O cano frio da arma junto ao pescoço, seria, por si só, pronuncio do que se avizinhava, não fosse a visita entrar-lhe de rompante no gabinete, deixando-se cair no sofá com o seu habitual gesto de mão acompanhando as palavras.

A visita ajeitou-se no sofá e sorriu com aparente indiferença, ao mesmo tempo que olhava em volta como quem procura alguma coisa.

Para ele, a visita perspectiva-lhe um ambiente demasiado tenso. Nada como ligar o rádio na tentativa de evitar o inevitável. Saiu da sua secretária, dirigindo-se ao aparelho.

Foi neste momento que a visita lhe lançou as mãos em volta do pescoço, apertando-o com uma decisão selvagem. Ele inclinou-se e, agarrando-lhe os pulsos, apertou-os e torceu-os com uma força e uma segurança dignas de nota. Nunca se sentira tão forte e confiante. A visita, embora fosse da sua altura, era muito mais corpulenta. Contudo, naquele momento, ele adquiriu um grau de força psíquica suficiente que, transformado em energia muscular, surtiu efeito. Com uma praga dita em voz abafada, a visita afastou-se, deixando-se cair novamente no sofá, infinitamente exausta.

Na rádio, uma ouvinte falava ao telefone: “Ó senhor Nebes, tá bom? Sou a Isaurinha da Areosa!”. “Biba, como está!”, retorquiu o locutor. “Ó senhor Nebes, gostava de oubir “Quero que bá tudo pró inferno” dos GNR. Se não tiber dos GNR, pode ser do Roberto Carlos, tá bem?”.

E foi no exacto momento em que na rádio se ouvia “de que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar…”, que a visita se decidira pelo pisa-papéis, atirando-o com toda a força.

Ele só teve tempo de desviar rapidamente a cabeça, enquanto o pisa-papéis se abatia contra a janela do gabinete, estilhaçando os vidros.

A visita fixou-o com fingida estranheza e um sorriso que denunciava decepção e angústia. De um salto, levantou-se do sofá dirigindo-se à secretária. Pegou no corta-papel e precipitou-se sobre ele num lance decisivo.

Ele esquivou-se, enlaçando-o pelo pescoço e agarrando-lhe no pulso, obrigando-o a voltar a lâmina contra o peito. Fez mais força, cravando-lhe a lâmina no tórax. A visita recebeu o golpe com um murmúrio indefinido, derrubando na queda a mesa pé-de-galo que se encontrava junto à secretária.

Com a audácia de um jogador desesperado a visita lutou e perdeu, enquanto ele fixava as suas nãos que sempre se haviam recusado a tirar a vida fosse a que vida fosse.

Nada de novo para contar? – pensou.
Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

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