ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

5/01/2011

Coincidência de datas





Por: Carlos Alberto Alves
Portal Splish Splash


É muito bom pensarmos no que vamos fazer com a cabeça deitada no travesseiro, associando ideias, enfim, partindo para o que se quer escrever já nesse dia, uma vez que isso acontece depois da meia-noite. Com isto, não pensem que eu tenho um “relógio dentro da cabeça”, nem sou nenhum “Joaquim das Horas”, um indivíduo (já falecido) que, sem relógio, sabia sempre


as horas certinhas. Na passada segunda-feira festejou-se o “Dia da Liberdade” (25 de Abril, a Revolução dos Cravos), neste domingo festejaremos o “Dia do Trabalhador” e no domingo, dia 8 resta-nos o “Dia da Mãe” (celebra-se aqui no Brasil na referida data). Curiosa esta proximidade de datas, que assinalam estas três grandes “celebrações”, em muito paradoxais, mas em tudo tão intrinsecamente relacionadas. Não fosse o fim da ditadura e a caducidade dos valores morais Salazaristas, e a mulher continuaria a fazer da cozinha o seu lugar mais frequentado, da família o seu único valor e da devoção a filhos e a marido a sua crença maior, apenas disputado pelo seu amor a “Fátima”. Não fosse a queda do regime ditatorial em Portugal e o Dia do Trabalhador não poderia ser celebrado, sendo que foi proibida e reprimida durante o Estado Novo qualquer manifestação pública ou comemoração deste dia. O 1º de Maio traz também a chegada do “carrapato” e em regiões como a de que eu sou oriundo, não há casa de bem que não coloque “Maias”, as flores das giestas, em tudo o que é porta ou janela ou entrada de ar na casa! Para afastar o “carrapato”, dizem as gentes! Tradição no “Dia da Liberdade” são as corridas, a pé, de bicicleta... facto que eu sempre achei curioso, porque não consigo, por muito que tente ver a corrida como manifestação suprema da liberdade de alguém. Vá, talvez seja só eu, mas a corrida a mim sempre me lembrou “fugida”! Fugir de algo, ou de alguém... a “Corrida para a Liberdade” sempre me ocorreu como a fuga da falta dela! Ao que apurei,no ano transacto, num corta-mato que realizaram “lá na terra”, uma minha conhecida ganhou o primeiro lugar feminino! Isso e uma grande bolha no pé! Mais uma prova de que mulher, que é mulher, consegue tudo só depois de muito suor e sangue. Não me pareceu sentir-se muito livre depois de ter ganho, mas que trabalhou para ganhá-la, lá isso trabalhou! E por falar em trabalhar, outro facto que também sempre me intrigou foi o de, no Dia do Trabalhador, ninguém trabalhar! Ora, vamos lá a ver: que melhor forma de mostrar apreço pelos direitos enquanto trabalhador do que trabalhando?! Mas não, vem o Dia do Trabalhador e ninguém trabalha! Ninguém! Lá na terra, nesse dia, fazem-se piqueniques, se o tempo estiver de feição! É que já nem as manifestações dão muito “jeito”! Não... é uma miséria, não temos direitos nenhuns, as condições de trabalho são cada vez mais precárias, os trabalhadores cada vez mais explorados, mas no Dia do Trabalhador vamos todos é gozar (entenda-se por divertir. Aqui no Brasil esta palavra é feia) o feriado e fazer um belo de um piquenique! Umas sandes de lombo, panados e arroz de feijão e o belo do vinho de garrafão, para além das famigeradas Papas Grossas! Afogam-se as mágoas, dorme-se de papo para o ar, que de “tristezas” não vive o Homem! Afinal de contas, por muito paradoxal que possa parecer esta atitude até tem alguma lógica, se pensarmos no bom e velho slogan: “se eu não gostar de mim, quem gostará?!”. Agora, passando para o pensamento de uma mulher: “Valha-nos ao menos o Dia da Mãe, em que recebemos prendinhas e os nossos filhos nos trazem o pequeno-almoço à cama, ou não! E nós em jeito de agradecimento lá lhes vamos dando beijinhos o dia todo, perdoando pequenas faltas de comportamento, tudo porque é o nosso dia, o Dia da Mãe! Algumas sortudas ganham mesmo o direito a passar o Dia da Mãe sem os filhos... vão fazer uma massagem, a depilação, manicure e pedicure, conforme manda a tradição! Afinal de contas é o nosso dia e cada uma o goza como quer!”.

Eu, no Dia da Liberdade não corri aqui no Brasil, mas dormi até tarde, o que não é meu hábito. No Dia do Trabalhador, trabalho em casa, ou seja, vou escrevendo umas coisas e pesquisando outras. Isto é trabalho na minha concepção. No Dia da Mãe conto com um belo dia de sol, para passear, dar os parabéns a quem é mãe, e peço a tudo por Deus que nesse dia todas as mães possam ser felizes.

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Etelvina

Compositor e Intérprete: Sérgio Godinho

Etelvina com seis meses já se tinha de pé
foi deixada num cinema depois da matinée
com um recado na lapela que dizia assim:
"Quem tomar conta de mim
quem tomar conta de mim
saiba que fui vacinada
saiba que sou malcriada"

Etelvina com dezasseis anos já conhecia
todos os reformatórios da terra onde vivia
entregaram-na a uma velha que ralhava assim:
"Ai menina sem juízo
nem mereces um sorriso
vais acabar num bueiro
sem futuro nem dinheiro"

Eu durmo sozinha à noite
vou dormir à beira rio à noite à noite
acocorada com o frio à noite à noite

Etelvina era da rua como outros são do campo
sua cama era um caixote sem paredes nem tampo
sua janela uma ponte que dizia assim:
"Dentro das minhas cidades
já não sei quem é ladrão
se um que anda fora das grades
se outro que está na prisão"

Etelvina só gostava era de andar pela cidade
a semear desacatos e a colher tempestade
a meter com os ricaços a dizer assim:
"Você que passa de carro
ferre aqui a ver se eu deixo
venha cá que eu já o agarro
dou-lhe um pontapé no queixo"

Eu durmo sozinha à noite...

Etelvina já cansada de viver sem ninguém
a não ser de vez em quando amores de vai e vem
pôs um anúncio no jornal que dizia assim:
"Mulher desembaraçada
quer viver com alma irmã
de quem não seja criada
de quem não seja mamã"

Etelvina já sabia que não ia encontrar
nem um príncipe encantado nem um lobo do mar
só alguém com quem pudesse dizer assim:
"O amor já não é cego
abre os olhinhos à gente
faz lutar com mais apego
a quem quer vida diferente"

O seu homem encontrou-o à noite
a dormir à beira rio à noite à noite
acocorado com o frio à noite à noite


Sérgio Godinho - Etelvina


3 comentários:

  1. Amigo Arlindo; Obrigado por postar esta maravilha do "SÉRGIO GODINHO - ETELVINA", lembrando ambos que no Brasil tem milhares de Etelvinas e esta que esta exposta no vídeo tem tudo a ver com as brasileiras também, pois aqui não é diferente em um pais em que a economia cresce a cada dia isso não pode acontecer, mas acontece talvez seja a falta de uma "Assistência Social" mais atuante em nossos países, mais isso depende do fator político e ai a coisa emperra (para).

    Grande Abraço a todos
    Elmir de Almeida
    Santos - Brasil

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  2. Olá Carlos Alberto!

    Como sempre,ótimo texto.
    Brasileiros estão é a reclamar que o 1º de Maio, caiu num domingo... Adeus passeios longos...

    Maninho, gostei do Ségio Godinho, mas não é a primeira vez que Etelvina aparece aqui no Portal mais melhor de bom do mundo e arredores.
    Como disse o santista Elmir, aqui isso acontece também, e muito, o que é uma pena.

    Beijos para os dois,
    Carmen Augusta

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  3. Olá, Amigo Elmir!
    Olá, maminha!

    Obrigado pelos vossos comentários ao vídeo.
    Na verdade, a Etelvina já tem aparecido por aqui porque é das músicas do Sérgio Godinho que mais me toca. E quando o Carlos Alberto me enviou a matéria para publicar, eu pensei pros meus botões que tão excelente texto devia ser acompanhado de um vídeo. Como ando há um muito tempo para criar um vídeo da "Etelvina", não quis adiar mais.
    "Etelvina" é de 1974 mas infelizmente ainda está atual.
    Dedico-o a Deolinda Gonçalves e a todas as mulheres que já foram ou são Etelvina, ainda que não de nome.
    Grande abraço

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