ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

4/03/2011

Ó Manel quantas vezes penso em ti






Por: Carlos Alberto Alves
jornalistaalves@hotmail.com
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Quantos Manéis conheço em Portugal e nas nossas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, nomeadamente nos Estados Unidos e Canadá? São muitos, de facto. Até dizia, por brincadeira, que conhecia o Manel das cebolas, o Manel dos alhos, o Manel da fruta e assim sucessivamente. Outros recordo com eterna saudade, como é o caso do meu colega do jornal “A Bola”, Manuel Rebelo Carvalheira, assassinado barbaramente no seu apartamento. Nesse dia trágico, foi a primeira vez que o “Recas” (assim a malta lhe chamava) falhou um serviço para que, na ocasião, estava escalado. Lembro que, na antevéspera, em mais uma das minhas passagens por Lisboa, dizia ao meu chefe Vítor Santos (falecido mais tarde, vítima de doença incurável) que o “Recas” não estava bem. Denotava preocupação. Dito e feito. O “Recas”, quiçá, tinha fortes motivos para andar pensativo, digamos, amedrontado, porque ele sabia muita coisa com um grupo de tráfego de diamantes, provindos da África do Sul. Hoje, e volvidos mais de 25 anos, pela minha mente passa aquele semblante carregado do “Recas”. Ele, por certo, sabia que algo lhe ia acontecer, mas não comentou com ninguém. Por três dias o “Recas” foi procurado pela polícia, uma busca infrutífera, até que a solução foi mesmo arrombar a porta do seu apartamento. E lá estava o “Recas” ceifado por um golpe no crânio e cujo autor utilizou uma garrafa que foi encontrada perto do local onde jazia o meu querido e saudoso “Recas”. Dele ainda guardo esta frase, sempre que eu entrava no jornal: “lá vem o açoriano, hoje temos chuva”. Como nasci nos Açores, e no arquipélago chove abundantemente no Inverno, o “Recas” idealizou este “soubriquete” honroso: “chegou o homem da chuva”. E, na verdade, eu sempre gostei da chuva...


Manéis, Manéis, tantos que constam da minha lista de amigos, situação proporcionada pela minha carreira de jornalista, com duração de activos 46 anos. Mas há um outro Manel que está sempre comigo em pensamento e, obviamente, no meu coração. O escritor-filósofo, Dr. Manuel Sérgio, grande amigo dos jornalistas de “A Bola”. Convivi com Manuel Sérgio, inclusive participei com ele numa acção de formação para dirigentes açorianos – nas ilhas de São Miguel, Terceira, Pico e Faial . Manuel Sérgio, sempre sorridente, sempre afável, sempre companheiro de primeira água (falo de água, porque ainda sou homem da chuva), num belo dia, bem ao jeito peculiar, dirigiu-se à minha pessoa e, em tom cordial, de amigo do peito, confidenciou: “saiba, amigo Carlos, que você escreve muito bem. Você escreve com o coração, com a pureza da sua alma”. Meu Deus, ouvir este comentário de Manuel Sérgio, um catedrático das letras (não foi por mero acaso que, como convidado, veio para São Paulo leccionar para uma das mais importantes universidades, por um período de dois anos), foi como tivesse, sem pontinha de exagero, recebido uma dávida do Criador.

Sempre que escrevo, recordo Manuel Sérgio, este velho amigo, citado, como não podia deixar de ser, no livro que escrevi sobre a minha carreira (ainda está no computador à espera de oportunidade para ser publicado). Mas, meu querido Manel, tenho uma mágoa que não sei se o tempo que me resta de vida apagará. Esta: quando entraste na política. Vi pessoas incultas, políticos oportunistas, “xingando” a tua pessoa quando, publicamente, enfrentavas esses “lobbies” que apareceram em Portugal logo após o rebentar do 25 de Abril, o dia em que terminou a prolongada ditadura salazarista. Esses ditos cujos, ovelhas de um rebanho que espreitava a oportunidade para se firmar na política e dela tirar dividendos, não conheciam a capacidade de Manuel Sérgio. E tantos livros o filósofo-escritor tinha passado para o público, livros que os seus próprios alunos colocaram na sua estante de honra.

Ó Manel, aqui neste Brasil que tu bem conheceste, prometo que, um dia, antes de morrer, visitarei a faculdade paulista por onde deixaste o perfume da tua cátedra.

Bem haja, Manel, pelo incentivo. Nunca mais vou esquecer: “saiba, amigo Carlos, que você escreve muito bem”. Ó Manel, quantas vezes penso em ti.

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MANUEL SÉRGIO

2 comentários:

  1. Olá Carlos Alberto!

    Que crônica bonitae cheia de saudade!
    Seu amigo tinha razão,você escreve muito bem.

    Parabéns!

    Um abraço,
    Carmen Augusta

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  2. Grato pelas suas palavras. De facto, emociona-me sempre quando falo desse catedrático Manuel Sérgio, uma pessoa fantástica.
    Um grande abraço e continue aqui connosco.
    Carlos Alves

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