ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

2/16/2011

New York um outro mundo




Por: Carlos Alberto Alves
jornalistaalves@hotmail.com
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Ano de 2000. Última viagem aos Estados Unidos, concretamente a New York onde fui cobrir a célebre maratona da cidade que sempre considerei outro mundo. Assim terminou um ciclo de oito deslocações aos States. Depois veio a aposentadoria e, posteriormente, o zarpar para o Brasil. Só que, desta feita, tudo foi diferente: acabei mesmo por ficar. Digamos amor à primeira vista por Niterói. Todo o resto veio por acréscimo nestes (já) cinco anos de Brasil – o conteúdo desta fase de permanência poderá, um dia, ser passado a livro, adicionando todas as matérias que tenho escrito deste país. Um Best Seeler? Quem sabe... Mais: nunca fiquei fascinado pelos Estados Unidos para assentar arraiais. E tive alguns convites de jornais de expressão portuguesa. Apesar das diferenças, que são visíveis e das quais não podemos passar ao lado, prefiro este “meu Brasil”.

Vamos seguir a ordem do raciocínio a que nos levou à feitura deste artigo:

Àqueles dois amigos, ele e ela, que me referiram, “então, não há mais Canadá?” (lá estive cinco vezes), só tinha que pedir uma espera. Não, ainda não me despedi desse colosso multicultural onde se caldeiam os nossos com tanto entusiasmo.

É que tinha entre mãos a grande metrópole de New York e aqui vai ela.

Nada que parecesse uma grandiosidade se mostrara ainda. Apenas um mar de carros deslizava nas duas faixas, depois três, e já se estendia em quatro, à medida que a cidade crescia à nossa frente.

Era um outro mundo, uma sensação de que em mais nenhum lado haveria uma mole imensa de tudo: milhares de carros para o trabalho – eram seis da manhã (e os políticos também já estavam na rua distribuindo a sua propaganda, visto que estávamos a poucos dias de mais uma eleição, infelizmente com a vitória de Bush filho) – estradas afundadas do avesso, tal era o emaranhado de viadutos, sirenes estridentes de ambulâncias, quiçá acudindo um choque em cadeia, edifícios enormes já iluminados, esperando todo aquele povo em marcha para o primeiro turno, e o segundo, dali a oito horas, traria outros tantos milhares, e o terceiro seguia-se na mesma correnteza de gentes.

Os primeiros arrepios davam já sinal de si, mas corria ainda o Fall em grande beleza. Havia um mês, se tanto, que me deixara fascinar pelas montanhas brancas no paradisíaco estado de New Hampshire, colado ao Canadá, “parece um postal da Suíça”, comentei extasiado com os amigos que lá me levaram.

E era a Natureza em estado perfeito a despedir-se em pose excelsa. Despia-se a Mãe daquilo que fora o excitante agasalho verde, de um Verão ainda agora ido, e exibia-se ela de folhagem que amarelecia e se avermelhava de paixão – simplesmente magnífico.

New York, agora, porfiava a mente de qualquer mortal, agigantando-se aos meus olhos, um colosso que esmagava a alma. Mas na dianteira estava a ilha, os meus amigos à minha espera, e o meu cantinho do céu sorria-me no longe.

Fiquei-me na eterna dúvida de incerteza no caminho em frente, “será que é a melhor decisão?”.

Resoluto, que bem me sabia a lembrança do cheiro a mar da ilha, longe e tão perto estava – se picado, por um vento cortante de norte se chão, liso coma mel se alteroso, que toda a fera se amansa – ah, e a fragrância da maresia…
Não havia outro atalho para esse desejo, senão o de entrar em New York pela porta da saída, “where is the pier 97?”, perguntei a alguém, depois de ter atravessado, de uma ponta à outra, toda a sétima avenida. Ele olhou-me com pena, “sorry, my friend, go all the way back…”, pois, nem mais, o cais 97 ficava do outro lado da ilha de Mannhaten, e lá seguimos até o encontrar – tinha um barril com roupa e objetos que me ofereceram para ser despachado por barco. De avião, não dava, pela sua onerosidade.

De volta a East Providence (para rever outros amigos e encetar o regresso via Boston), com tantas árvores esmaecendo, antes de se desnudarem, olhei-me no espelho do pára-sol, e pensei honestamente, imaginando-me já com terra à vista, “o meu reino não é este mundo de New York…”, claro que não era.

Era, isso sim, de Sinatra, que tão bem havia de a incarnar, cantando era de soberbos espetáculos, no Radio City Music Hall no Rockefeller Center de apaixonados melómanos dos grandes teatros de ópera – Kennedy and Lincon Centers –, mas também dos mafiosos sicilianos da Casa Nostra – aí estava a grande cidade cosmopolita.

New York era de verdade um grande mundo. Era outro orbe deste delapidado apeadeiro – a Terra – e de certeza que a humanidade não pára nunca neste reboliço de diversão…

Ao menos, ficou-me o encanto da folhagem a representar a mais bela peça do Fall americano.

E aqui para a gente, todos à Broadway e fogo à peça...

Mas, anos volvidos, estou em Coimbra e, ao deslocar-me de táxi para o Jornal das Beiras, ouço esta trágica notícia na rádio: dois aviões arrasaram o Orld Trade Center. Escusado será dizer que passei a noite a ver televisão, quase sempre na CNN, e a ouvir notícias. É que sempre penso nos meus amigos. Felizmente, nenhum deles estava no local da tragédia.

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