ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

9/08/2010

José da Câmara canta Roberto Carlos e nós, pimba, aplaudimos!



Por: Armindo Guimarães
Diplomado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins
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Em entrevista publicada sob o título “José da Câmara: Sei que vão apontar-me o dedo. Também eu já fui um purista do fado”, o fadista, que acaba de lançar o CD “Emoções” com 13 clássicos de Roberto Carlos, disse, a certa altura, que (sic) “Curiosamente nessa altura o Roberto Carlos ainda era muito mal visto. Em Portugal era tratado como um cantor ‘pimba'. Contam-me que foi depois de uma entrevista que Maria Bethânia deu a dizer que ele era um excelente cantor que o público português passou a aceitá-lo."

Embora respeite a opinião de José da Câmara, não estou de acordo com ela pelos motivos que explanarei depois de tentar definir o significado do termo pimba, quiçá desconhecido para alguns leitores, designadamente alguns dos nossos irmãos brasileiros que se me têm dirigido nesse sentido.

Ao contrário do Brasil que empregava o termo “cafona”, que há uns anos a esta parte foi substituído por “brega”, para designar aqueles intérpretes com temas superficiais e de melodias fáceis de acompanhar e que ficam no ouvido, em Portugal não existia termo análogo, até ao surgimento do “Pimba, pimba” de Emanuel, no ano de 1994, e cujo refrão reproduzimos:

E se elas querem um abraço ou um beijinho
nós pimba, nós pimba
E se elas querem muito amor muito carinho
nós pimba, nós pimba
E se elas querem um encosto à maneira
nós pimba, nós pimba
E se elas querem à noitinha brincadeira
nós pimba, nós pimba


Clipe Oficial:
http://www.youtube.com/watch?v=Ux2-ITSI-R0&p=735413626AE51D5D&playnext=1&index=27


Acerca da palavra pimba que dá título à canção de Emanuel, talvez seja oportuno transcrever o que diz o Dicionário da Língua Portuguesa (8.ª edição revista e melhorada – Porto Editora): “adj gén diz-se da música ao gosto popular interj exprime um acontecimento imprevisto ou o desfecho de uma acção (De orig. onom.)”

Verifica-se, assim, que o pimba de Emanuel passou também a constar do dicionário da língua portuguesa, significando música ao gosto popular, remetendo para segundo plano o pimba que já existia nos dicionários e que actualmente poucos são aqueles que o empregam querendo significar um acontecimento imprevisto e/ou o desfecho de uma acção. Exemplo: José da Câmara canta Roberto Carlos e nós, pimba, aplaudimos.

Antes, existia a designação brejeiro (do dicionário = ordinário), para aqueles intérpretes que tinham no seu currículo músicas chamadas de segunda categoria ou de teor mais atrevido porque imbuído de segunda intenção, como por exemplo o “Bacalhau à Portuguesa” de Quim Barreiros, lançado em 1991, dois anos antes do “Pimba, pimba” de Emanuel. Quem em 1994 se baseou no “Pimba, pimba” para designar um género de intérprete ou de música, se o tivesse feito em 1991 com o tema de Quim Barreiros hoje, em vez de pimba teríamos bacalhau.

Mas é claro que se tratam de rótulos populares que tanto podem durar uma eternidade como podem morrer quase à nascença. Rótulos de cariz negativo que hoje muitos usam para designar este ou aquele intérprete, esta ou aquela música, mas que amanhã são capazes de elevar à mais alta esfera interpretativa e musical. E não se pense que tais comportamentos são raros. Para citar apenas um exemplo, recordo António Variações quando em 1982 aparece em cena com indumentária extravagante e temas musicais fora de comum para a época. Era considerado o cantor das “sopeiras”, que o mesmo é dizer das empregadas domésticas, termo que naquela altura já estava em desuso mas cuja designação serviu para classificar aqueles que enveredavam por uma música e um intérprete de segunda.

Curiosamente, acerca da origem do termo “brega”, a Wikipédia apresenta como uma das possibilidades ser originária do “Rio de Janeiro como uma corruptela da gíria "breguete", palavra pejorativa e preconceituosa, usada pela classe média para designar empregadas domésticas e que, por extensão, passou a designar também seu gosto característico de origem popular.” A ser assim, faz lembrar o termo também pejorativo e preconceituoso “sopeira” que em Portugal se usava para as empregadas domésticas. Em Portugal o termo foi apenas aplicado para os admiradores das músicas do António Variações, mas se pegasse para outros intérpretes, hoje, em vez de pimba teríamos música sopeira.

António Variações morre em 1983 com apenas dois anos dedicados à gravação da sua obra e a actuações aqui e ali. Actualmente, “sopeira” é palavra desconhecida para muitos e versões da sua obra, retrospectivas, programas radiofónicos e televisivos sobre a sua vida e a sua música não faltam.

Conclui-se, assim, que rotular de forma negativa determinado intérprete ou determinada música é exercício subjectivo e até enganoso porque gostos não se discutem e o que não se gosta hoje pode-se gostar amanhã.

Feita esta introdução ao termo pimba, passemos, então, ao Rei Roberto Carlos e à opinião de José da Câmara, de que Roberto Carlos “era tratado em Portugal como um cantor pimba e que lhe contaram que só foi depois de uma entrevista que Maria Bethânia deu a dizer que ele era um excelente cantor que o público português passou a aceitá-lo”.

Ao contrário do que disse José da Câmara, quiçá mal informado, Roberto Carlos sempre foi e continua a ser bem visto em Portugal e certamente que na época a que se refere havia, como ainda há, a chamada “elite” mais virada para Chico Buarque, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, e como tal nada virados para outras ondas, neste caso as robertocarlisticas. Mas o que eu nunca ouvi foi essa mesma “elite” referir-se a Roberto Carlos como um cantor pimba, menor ou secundário. Podiam, como ainda hoje podem, preferir não dar qualquer opinião sobre o Rei, mas este facto, só por si, é a meu ver sinónimo de quem apesar de não gostar do estilo musical de Roberto Carlos, reconhece o valor da sua obra e como tal respeita-o.

De resto, é essa mesma “elite” que como quem não quer a coisa está sempre presente nos shows que o Rei realiza em Portugal e que corre para as discotecas para comprar o CD dos GNR – Grupo Novo Rock, interpretando “Quero que vá tudo pró inferno” do grande Roberto Carlos. Essa mesma “elite” que um dia irá fazer com a obra de Roberto Carlos o que fez com a do António Variações. Para não variar, é claro!

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- José da Câmara: Sei que vão apontar-me o dedo. Também eu já fui um purista do fado
http://www.clubedorei.com.br/news/detail.asp?iData=1721&iCat=1203&iChannel=1&nChannel=News

Matérias sobre José da Câmara, publicadas pelo autor:
- Emoções – José da Câmara canta Roberto Carlos

 http://splishsplashblog.blogspot.com/2010/05/emocoes-jose-da-camara-canta-roberto.html

- José da Câmara canta Roberto Carlos – CD “Emoções” 

http://splishsplashblog.blogspot.com/2010/06/jose-da-camara-canta-roberto-carlos-cd_13.html

- José da Câmara “Emoções” – CD nas lojas 

http://splishsplashblog.blogspot.com/2010/08/jose-da-camara-emocoes-cd-nas-lojas.html

Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

1 comentário:

  1. Olá maninho!

    Gostei muito da sua explanação sobre o Pimba. E do vídeo também.
    Me diverti com o sopeira...

    Sabe que já ouvi muito sobre gostar do Roberto:que absurdo você gostar dele, é o cantor das empregadinhas....
    Tadinho, foi sopeira também e não sabia dessa...

    Fui chamada de todos os termos que você usou aí, em consequência, ele também.

    Mas hoje me rio até. Essas mesmas pessoas morderam a língua, hoje adoram o NMQT e vão todas emperiquitadas nos shows dele e sentam nos melhores lugares. No Cruzeiro, Emoções em Alto Mar, as cabines que primeiro se esgotam são as melhores e mais caras.

    Nós o acompanhamos sempre, e as empregadinhas também... Não temos duas caras.
    Roberto canta e nós, pimba, aplaudinos.
    José da Câmara canta e nós, pimba, aplaudimos.

    Maninho, você quer um beijinho?
    Eu, pimba, mando, viu?
    Beijinho,
    Carmen Augusta

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