Publicada por
Armindo Guimarães
REPORTAGEM
Porto Aglomerado habitacional na Rua de João de Deus alberga muitos imigrantes. Maior comunidade estrangeira em Portugal ainda sofre com a discriminação. Esperança mistura-se com revolta e desalento. Aumentam pedidos de apoio social por causa da falta de emprego
Erica com Vítor Hugo ao colo. Talita está pensativa. Ao fundo, Ingrid Moniz: "Já não vejo a minha mãe há nove anos. nem tenho dinheiro para lhe ligar".
Ali não há actores de novelas, craques da bola nem cantores mais ou menos românticos. Ali há Ingrid, que desespera por um emprego e chora por não ver a mãe "há nove anos".
Há Rubelardes, revoltado por ver que não falta serviço, mas falta a autorização para trabalhar. Há Erica, de sorriso aberto, apesar de ainda estar à espera de uma oportunidade para, de facto, melhorar a vida. Há Adriana, situação legalíssima, mas que, muitas vezes, ainda é olhada de lado por ter vindo do outro lado do oceano. Há a alegria da criançada - Beatriz, Talita e Stefani, Vítor Hugo. E há Alexandra Moutinho, portuguesa de gema, felgueirense que aos 12 anos rumou ao Porto para trabalhar: "É a mãe da brasileirada!" Ali é uma ilha da Rua de João de Deus, no Porto. Ali, definitivamente, há "um pouquinho de Brasil".
"Vim para Portugal há nove anos para construir uma vida melhor", sintetiza Adriana Silva, 29 anos. O marido e os três filhos - Talita, nove anos, Stefani, dois anos, e Vítor Hugo, meio ano de vida - estão legais. Mas os papéis não os tornam imunes à discriminação. Que continua a existir, garantem os imigrantes.
Discriminação
"Para muita gente, brasileira é tudo prostituta. Há muita discriminação, pessoas que não gostam mesmo da gente", desabafa Erica Gianini, 26 anos, três anos de desilusões em Portugal. "Para muitas pessoas, brasileiro é tudo ladrão, vagabundo, gente que gosta de dar o golpe", acrescentam os imigrantes.
"Para muita gente, brasileira é tudo prostituta. Há muita discriminação, pessoas que não gostam mesmo da gente", desabafa Erica Gianini, 26 anos, três anos de desilusões em Portugal. "Para muitas pessoas, brasileiro é tudo ladrão, vagabundo, gente que gosta de dar o golpe", acrescentam os imigrantes.
"Não me abaixo. Há gente que se te puder humilhar, humilha mesmo", afirma Ingrid. "A televisão também só mostra o lado mau do Brasil. Não há notícias das coisas positivas", argumenta Erica, admitindo que "também já brasileiros sem vergonha". O pior é quando toda a comunidade sofre pelo que faz um pequeno grupo.
Os últimos registos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), relativos a 2007, indicam que, no distrito do Porto, há mais de sete mil brasileiros em situação regular. Em todo o país, há mais de 66300. Mas estima-se que outro tanto (ou ainda mais) esteja em situação irregular. As autoridades brasileiras admitem que vivam em Portugal cerca de 130 mil imigrantes.
É a maior comunidade estrangeira no país. Não admira, portanto, que mais de metade (52%) dos atendimentos na Linha SOS Imigrante sejam a pedidos de ajuda de cidadãos brasileiros. A lei da imigração e matérias relacionadas com o trabalho e a nacionalidade são as principais questões colocadas à Linha SOS, que em seis anos atendeu 340 mil pessoas.
Os últimos registos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), relativos a 2007, indicam que, no distrito do Porto, há mais de sete mil brasileiros em situação regular. Em todo o país, há mais de 66300. Mas estima-se que outro tanto (ou ainda mais) esteja em situação irregular. As autoridades brasileiras admitem que vivam em Portugal cerca de 130 mil imigrantes.
É a maior comunidade estrangeira no país. Não admira, portanto, que mais de metade (52%) dos atendimentos na Linha SOS Imigrante sejam a pedidos de ajuda de cidadãos brasileiros. A lei da imigração e matérias relacionadas com o trabalho e a nacionalidade são as principais questões colocadas à Linha SOS, que em seis anos atendeu 340 mil pessoas.
"Vim para tentar uma
vida melhor, mas vai
tudo por água abaixo",
observa Erica Gianini
Ao Centro Nacional de Apoio ao Imigrante, no Porto, chegam cada vez mais pedidos de ajuda social por parte de cidadãos brasileiros. Falta o emprego, falta o dinheiro, começa a faltar tudo. Os responsáveis admitem que a situação agravar-se-á com o prolongar da crise, o que poderá levar muita gente a pedir o retorno voluntário ao Brasil.
"Aqui não dá. Em Portugal não dá. Se pudesse, ia embora de vez", desabafa Ingrid Moniz, há quase uma década em Portugal. Já "trabalhou como uma escrava", chegou a "dormir na rua" e, após muitas "cabeçadas na vida", conheceu o homem que hoje é seu marido. É português, mas também não escapa à crise. Falta emprego. Vai trabalhando sempre que surge oportunidade. Ingrid é que começa a cansar-se dos telefonemas sem retorno, das respostas negativas sempre que diz que é brasileira. Os problemas com a legalização não ajudam. A revolta ameaça tranformar-se em desalento. "Há nove anos que não vejo a minha mãe. Nem tenho dinheiro para ligar-lhe", chora, sentada num degrau: "Se pudesse ia embora. Pegava na família e ia embora. Aqui não dá. Quem conseguiu até agora, conseguiu; quem não conseguiu, já não consegue mais".
"Fica-se encurralada. Vim para tentar uma vida melhor , mas vai tudo por água abaixo", acrescenta Erica Gianini. Longe vão os tempos em que, tal como muitos dos seus compatriotas, pensava que a Europa era uma "mina de ouro" para ganhar a vida. "Tudo o que eu sempre quis foi uma oportunidade", suspira Erica.
Ao Centro Nacional de Apoio ao Imigrante, no Porto, chegam cada vez mais pedidos de ajuda social por parte de cidadãos brasileiros. Falta o emprego, falta o dinheiro, começa a faltar tudo. Os responsáveis admitem que a situação agravar-se-á com o prolongar da crise, o que poderá levar muita gente a pedir o retorno voluntário ao Brasil.
"Aqui não dá. Em Portugal não dá. Se pudesse, ia embora de vez", desabafa Ingrid Moniz, há quase uma década em Portugal. Já "trabalhou como uma escrava", chegou a "dormir na rua" e, após muitas "cabeçadas na vida", conheceu o homem que hoje é seu marido. É português, mas também não escapa à crise. Falta emprego. Vai trabalhando sempre que surge oportunidade. Ingrid é que começa a cansar-se dos telefonemas sem retorno, das respostas negativas sempre que diz que é brasileira. Os problemas com a legalização não ajudam. A revolta ameaça tranformar-se em desalento. "Há nove anos que não vejo a minha mãe. Nem tenho dinheiro para ligar-lhe", chora, sentada num degrau: "Se pudesse ia embora. Pegava na família e ia embora. Aqui não dá. Quem conseguiu até agora, conseguiu; quem não conseguiu, já não consegue mais".
"Fica-se encurralada. Vim para tentar uma vida melhor , mas vai tudo por água abaixo", acrescenta Erica Gianini. Longe vão os tempos em que, tal como muitos dos seus compatriotas, pensava que a Europa era uma "mina de ouro" para ganhar a vida. "Tudo o que eu sempre quis foi uma oportunidade", suspira Erica.
Sempre à falta de dinheiro
Rubelardes é um revoltado: trabalhou, fez descontos, mas dificuldades com o processo de legalização deixam-no sem poder agarrar um emprego. E o pior é que, contam os imigrantes, muitos patrões aproveitam-se da situação para contratam e não pagar o salário.
Paulo Rodrigues Paulino, 21 anos, poucos meses leva em Portugal mas já sentiu na pele o problema. Só quer trabalhar. Mas está muito complicado. E a exploração dos imigrantes agrava-se.
Muda-se de país, de continente, de hemisfério, mas o problema continua ser o mesmo: dinheiro. Sempre o dinheiro. "O Brasil é muito rico, a riqueza está é mal distribuída", salvaguarda Erica.
Rubelardes é um revoltado: trabalhou, fez descontos, mas dificuldades com o processo de legalização deixam-no sem poder agarrar um emprego. E o pior é que, contam os imigrantes, muitos patrões aproveitam-se da situação para contratam e não pagar o salário.
Paulo Rodrigues Paulino, 21 anos, poucos meses leva em Portugal mas já sentiu na pele o problema. Só quer trabalhar. Mas está muito complicado. E a exploração dos imigrantes agrava-se.
Muda-se de país, de continente, de hemisfério, mas o problema continua ser o mesmo: dinheiro. Sempre o dinheiro. "O Brasil é muito rico, a riqueza está é mal distribuída", salvaguarda Erica.
"Às vezes, nem pão seco
têm para comer", conta
Alexandrina Moutinho,
a "mãe da brasileirada"
"Pensas que vida de emigrante é fácil?", pergunta Alexandrina Moutinho, virada para Rubelardes, inconformado com a falta de oportunidades. Alexandrina é a "mãe da brasileirada", dizem os próprios imigrantes. "Às vezes, nem pão seco têm para comer. Temos de nos ajudar uns aos outros. Se nos ajudássemos mais uns aos outros o mundo não estava como está", sentencia.
"É muito triste", continua Ingrid. Falta dinheiro para pôr a filha na escola e para pagar as contas da água e da luz. Vai valendo, também, a solidariedade dentro da própria comunidade. "Ajudam-se mais os brasileiros do que os portugueses".
In Jornal de Notícias
Hugo Silva
Foto: Leonel de Castro/JN
15-03-2009
15-03-2009
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Lusofonia
Armindo Guimarães
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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Comentários
Comentários

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Oi Armindo!
ResponderEliminarQue coisa mais triste, coitados dos imigrantes.
Sofrem de toda maneira.
Sabem disso antes de sairem do país, mas o sonho é maior...
Um assunto delicado!
Beijos,
Carmen Augusta
OLá Mindo!
ResponderEliminarÉ uma tristeza em que vive grande parte da humandade, enfrentando em seus países, problemas sociais, políticos e econômicos e buscam sair de um país para outo a procura de uma vida melhor, mas chegando encara uma ralidade totalmente diferente da que esperava.
Como é penoso, doloroso,você está em um país estranho sem ter emprego, comida, dinheiro pra suprir as necessidades e muito menos pra voltar para o seu país de origem.
Fica a decepção, a falta de esperança e isso está agravando-se, com os problemas mundiais que estão acontecendo.
As próprias nações poderosas que dominam o mundo estão enfretando uma crise, econônmica, política social, imagina aqueles que são subalternos ou dependem dessas nações pra obter produtos, industrializados, matéria-prima e outos produtos para resolver os problemas internos de seus países.
É mesmo complicado e preocupante!
Beijos e abraços!
Mazé Silva