ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

7/25/2008

A Esfera

 


NÓS JÁ SABÍAMOS TUDO!


Por: Armindo Guimarães
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Despertou-me imensa curiosidade a forma insólita como a coisa se passou. Enquanto brincava com a esfera, fazendo-a saltitar na mão entreaberta, passei em revista os factos, procurando não omitir quaisquer pormenores.

Estava à secretária do meu pequeno quarto, remexendo uns papéis e separando uns recortes sobre temas insólitos que se vieram amontoando, quando ouvi um ruído metálico, que me fez levantar os olhos e fixar a escrivaninha. O que quer que tivesse sido batera no tampo do móvel e rolara, depois, para o meio do quarto. Rolara, era o termo, porque ouvi nitidamente o som característico dum berlinde deslizando no soalho.

Um berlinde?! Pensei: um berlinde não pode ser... Talvez alguma coisa que caiu. Mas o quê? E donde? O assunto era talvez pouco importante, mas levantei-me, dei uma olhadela ao chão e, depois, à escrivaninha. Lá estava uma pequena mossa no tampo polido. Havia portanto que procurar melhor e, procurando, encontrei. Era um berlinde.

Estava perto do pé da secretária, um pouco oculto. Vendo bem, não era um berlinde qualquer, mas sim uma esfera metálica pesada de mais para ser manuseada por miúdos de 6 ou 9 anos, ou pelo menos incómoda para o efeito. Tinha a tonalidade branca-acizentada e parecia o objecto mais inocente deste mundo.

Pois sim, mas havia um pequeno problema a resolver: como entrara a esfera no meu quarto? Fui até à janela e olhei em redor. Não havia vizinhos defronte; somente, e já um tanto afastados, uns prédios em construção. Ninguém por cima do meu terceiro andar. Ninguém dos lados. A esfera não podia ter entrado, dizia-me o raciocínio, mas ela ali estava.

O caso era o seguinte: uma esfera vulgaríssima tivera um comportamento invulgar. Não viera pelo ar, pois era demasiado pesada para ser arrastada pelo vento. Não caíra do espaço, pois um céu límpido não mostrava qualquer avião, helicóptero ou fosse o que fosse. Não fora arrojada porque faltava o agente visível ou até a possibilidade disso ter acontecido. E não me pertencia: nunca a vira, embora uma estranha familiaridade me levasse a olhá-la como coisa minha.
Vencido pela aparente inconsequência dos factos, encolhi os ombros, levantei-me e depositei depois cuidadosamente a esfera em cima da escrivaninha, voltando a arrumar os meus papeis, embora com o espírito um pouco desalento.

Não conseguia esquecer-me da esfera. Puxei de um cigarro, e sentei-me no sofá, meditando, sem vontade de continuar o meu trabalho. Por entre as fumaças, a minha imaginação, à desfilada, perturbava-me a linha de pensamento, levando-me de uns assuntos para outros, como se me estivesse a apetecer divagar.

Porquê as pirâmides do Egipto? Porquê os campos de extermínio? Porquê as experiências nucleares e a poluição da atmosfera? Sim, porquê?

Todos fazemos perguntas a nós próprios, talvez estas e muitas outras.

Somente... O estranho era a forma como as perguntas surgiam, ou seja, com a perplexidade de quem toma conhecimento desses factos pela primeira vez.
De repente, no entanto, surgiu-me a seguinte associação: a esfera encontrava-se ligada àquele vasculhar da minha mente. Nessa luta de vontades, misturada com a necessidade de continuar a divagar, gastei o tempo suficiente para o sol se pôr e o dia claro se converter num entardecer tépido e calmo.

Concentrei-me novamente na esfera. Como entrara? Que fazia ali? E a estas perguntas, agora bem minhas, surgiam-me respostas nítidas, na minha consciência, como se a esfera – ou fosse lá o que fosse – tivesse decidido esclarecer-me.

A esfera não passava de um agente mecânico de contacto. Era um aparelho complexo, no sentido humano do termo. Em suma, desempenhava uma função auxiliar da comunicação telepática. Tinha sido enviada por seres alienígenas que assim estabeleciam uma aproximação directa com um ser humano.

Porque me haviam escolhido a mim? Talvez por terem detectado em mim a capacidade psico-telepática necessária.

Não se haviam dado a conhecer mais cedo, porque careciam de elementos para formular a minha linguagem. Só na posse dos meus dados psicológicos, haviam constituído a tabela de equivalências indispensáveis a uma comunicação psíquica eficaz.

Durante o tempo que mediou da entrada da esfera àquele preciso momento, tinham estado a interpretar os meus sinais e haviam entendido algumas imagens, juízos, raciocínios.

De onde vinham? De um planeta de Alfa de Centauro, que era uma réplica muito aproximada da Terra. A sua vida era baseada, tal como nos homens, no sentimento complexo de perfeição.

As coisas passavam-se de uma maneira completamente diferente da prevista por muitos seres humanos que haviam imaginado a chegada de seres extraterrestres. Não havia tentáculos nem pupilas multifacetadas, mas sim uma estrutura praticamente humana.

Na mente surgiu-me a imagem nítida de uma face mongolóide, com uma testa desproporcionadamente alta e um olhar recto e límpido onde se espelhava profundo significado. Foi a vista dessa face, que me encarou com um misto de serenidade e de simpatia invencível, que me deu uma ideia mais concreta do grau de perfeição espiritual dos Centaurianos. Combinavam-se naquelas feições todos os elementos significativos da grandeza da alma... senti-me extremamente confiante, como se aquela serenidade superior se comunicasse a mim, e fizesse participar de uma forma de vida onde a inveja, a suspeita e o receio não poderiam ter lugar nem sequer ser concebidos. Perdi a noção do tempo, discorrendo sobre o facto espantoso de encontrar um ser de outro mundo e ter-me identificado daquele modo com ele, sem qualquer sentimento inferior, como se eu próprio homem, fosse um velho conhecido dos Centaurianos, ou existisse em mim alguma subtil centelha da grandeza espiritual que nesse momento me impregnava.

A humanidade estava desesperadamente enferma. Eu sabia-o e também os Centaurianos, apesar de voltarem a fazer notar a sua perplexidade perante a enorme sucessão de factos contraditórios de que haviam tomado conhecimento.
No entender dos Centaurianos a possível gravidade da situação humana não podia ser vencida pelo mero progresso científico e técnico, mas sim por uma efectiva evolução ética e intelectual.

Não interessava aos homens, de momento, voar mais alto. Tinham era de esclarecer porquê voar – e nesse aspecto não tinham encontrado explicações aceitáveis na cabeça do homem; porquê produzir cada vez mais – e havia enorme confusão na humanidade, produziam-se tantas coisas inúteis e não se planificava ainda devidamente a distribuição e o consumo; para quê criar vida artificial – se ainda se convivia tão imperfeitamente com a vida natural (o homem consigo próprio e com os outros, a humanidade com as outras formas de vida).

Não, acenou energicamente a imagem intima do Centauriano porta-voz, tudo isso ficaria para depois. Em nome da verdade competia-lhes dizer ao homem que o problema da humanidade era o de um esclarecimento fundamental, o de um encontro de verdadeiras razões e motivos.

Acenaram e partiram. Com eles a esfera metálica que evolucionou no aposento e saiu rapidamente pela janela inteiramente aberta.

Pontos de luz salpicavam a janela do meu quarto quando o sol poente brilhava através de uma árvore de belas cores outonais.

O quarto parecia fechar-se sobre mim mesmo e isso era estranho porque nunca tivera essa sensação.

Empurrei para o lado os papeis que se encontravam sobre a secretária e levantei-me, olhando pela janela para os garotos que se entretinham num jogo disparatado, correndo e gritando sem significado para ninguém além deles próprios. Uma velhinha, debatendo-se com um saco de compras, coxeava pelo passeio esburacado. Um cão estava sentado, todo torto, contra uma casa meio arruinada. Os restos de um carro, com os guarda-lamas amachucados a caírem, desconsolados, estavam no seu local habitual, junto à esquina.

Foram-se embora – gemi novamente só –. Nós já sabíamos tudo!
Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

18 comentários:

  1. Oi Armindo,
    linda sua A Esfera.
    É emocionante, tem suspense, e a sua criatividade, claro.
    Essa também tenho guardadinha, na sua pasta...
    Um beijo,
    Carmen Augusta

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  2. Carmen, obrigado pela visita e pelos anexos legais que sempre mandas.
    Um beijo

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  3. Nobre colega Armindo,

    Estes seres talvez tenham sido um dia ex-feras.

    Um abraço

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  4. Só você mesmo Armindo, pra contar uma história dessa!
    Parabéns! Conseguiu me prender até o final!
    Um abraço!

    Rosangela Amorim / BH

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  5. Mindo, quanta criatividade!

    Que texto interesante e inteligente! Estás sempre a nos surpreender, com seu poder de criação que vai além dos horizontes!

    A sua forma interdisciplinar de construção do texto, com frases bem coerentes, usando uma linguagem mais culta e palavras que só vem a comprovar ainda mais sua intelectualidade.

    Gostei dessa sua imaginação, de viajar num mundo onde envolvia fantasia, mistérios, do cosmus, de seres extra-terrenos de questionamentos, de buscas e preocupações com as consequências do progresso. Usa a telepatia para intermediar as cominicações
    escolhidas, entre os interplanetários e o homem. A forma analítica, vem dicernir as interrogativas feitas e racionalmente interpretadas.

    Adorei, pois além de narrar divinamente bem, o Armindo descreve o ambiente, detalhando as cenas ocorridas, ora de forma concreta, ora de forma abstrata.

    A ESFERA DO MINDO, TEM PODER!
    LINDA A SUA " ESFERA "! CONCORDO COM A CARMEN AUGUSTA.

    Beijos da amiga que adora o que escreves.
    Mazé Silva.
    Fortaleza/Ceará.

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  6. Gostei de ler! Muito criativo! E pensar que vim aqui parar por causa da salada/ Alface.. a vida tem destas coisas! ehehehe

    Abraço Armindo

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  7. A imagem qeu coloquei no blog assentava perfeitamente neste texto!

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  8. Nobre Marley:

    Imagino que ao dizeres que os centaurianos talvez tenham sido ex-feras, que te lembraste do nosso mais que tudo, quando diz:

    "Sou fera ferida, no corpo, na alma e no coração".

    É isso!

    Grande Marley!

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  9. Olá, Rosangela!

    Consegui prender-te até ao final?

    Nem estou em mim, carago!

    Pensei que só o nosso mais que tudo te conseguia prender!!!

    ehehehehe

    Grande abraço

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  10. Oi, Mazé!

    Como vai você? Cê sempre me fazendo babar com seus elogios me fazendo até falar (escrever) brasuca.

    Si eu vou além do horizonti, cê sabe que nosso mais que tudo tem culpa disso, né? Ele inspira todo mundo, mora! E como você sábi, ele até tem aquela "Além do horizonte", que é muito légau.

    E por falar em légau, me tô lembrando que você é bem légau, e então aí eu nem sei como ágrádecer, não!

    Brigado por tudo, viu?

    Ábráção pra você!

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  11. Olá, Tá-se bem!

    Obrigado pela visita, pá!

    Gostei de saber da tua surpresa e que gostaste de "A esfera".

    Já fui dar uma olhadela ao teu "Tá-se bem!" e não é que mal entrei ri-me pra carago? eheheheheh

    Vou estar atento! Afinal, quem é que não gosta de estar bem?

    Abraços

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  12. Francisco!

    Para a próxima, antes de anexar foto falo contigo, ok?

    Abraços

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  13. Amigo Armindo,

    Li o seu texto e quando acabei fiquei com aquela vontade de querer mais.
    Falar mais é chover no molhado diante do que já falaram os amigos que me antecederam nos comentários.
    Quando é que vamos ter um livro seu?
    Um abraço,

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  14. Mindo, cê não tem que agradecer!

    Que legal vê cê falando brasuca! Não esqueça quando falar com o Berto, diz que mando um abraço, e que estou com ciúmes, dele andar de conversa com esse portuga que todos adoram.

    Sei que tá aprendendo com o Roberto, falar assim, e quanto a canção dele Além do Horizonte, é linda mesmo e muito legal como você.
    Brigado, também pelo legal, viu?

    Beijos, adoro o teu Blog.

    Mazé Silva.

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  15. Meu Amigo Sandro!

    Alegra-me quando te vejo por aqui sempre com as tuas palavras amigas.

    Disseste que ficaste com vontade de queres mais e mais vais ter.

    Quanto ao livro...

    Grande abraço

    NOTA PARA OS AMIGOS ROBERTOCARLEANOS: Se não souberem, fiquem a saber que o Sandro Rogério é o nosso amigo SANDRORLS do Portal.

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  16. Meu Amigo Sandro!

    Alegra-me quando te vejo por aqui sempre com as tuas palavras amigas.

    Disseste que ficaste com vontade de queres mais e mais vais ter.

    Quanto ao livro...

    Grande abraço

    NOTA PARA OS AMIGOS ROBERTOCARLEANOS: Se não souberem, fiquem a saber que o Sandro Rogério é o nosso amigo SANDRORLS do Portal.

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  17. Olá, Armindo
    Visitei seu blog e achei muito interessante. Valeu, gostei, visitarei outras vezes.
    Gilvânia - Santos/SP

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  18. Olá, Gilvânia!
    Obrigado pela visita e pela simpatia.
    Abraços

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