Com 4,7 mi de seguidores, criador de 'Simon's Cat' fala sobre o sucesso de seu felino

O gato do Simon
Amanda Ribeiro
SÃO PAULO

Até onde a reportagem conseguiu apurar, gatos não atiram vasos de planta uns nos outros, arrumam malas ou acordam seus donos pela manhã usando tacos de beisebol. Essas e outras atrocidades felinas, no entanto, vêm povoando as animações do britânico Simon Tofield há pelo menos dez anos.

Tofield é criador do canal de animação “Simon’s Cat”, atualmente com 4,7 milhões de inscritos no YouTube, nove livros lançados e transformado em marca agora licenciada para ter seus produtos vendidos no Brasil. 

Ele gosta de contar que a empreitada surgiu por acaso, fruto de um exercício que decidiu fazer para melhorar seus conhecimentos técnicos. Em 2007, decidiu colocar no YouTube um vídeo curto, de um minuto e meio, que narrava as tentativas ardilosas de um gatinho de acordar um dono profundamente adormecido para o café da manhã.




Vídeos da série protagonizada pelo gato somam 970 milhões de visualizações 
Simon's Cat Ltd. 2018

Uma empresa americana gostou do vídeo e pediu para hospedá-lo em seu novo site. Poucos dias depois, o servidor havia caído duas vezes graças aos 35 mil acessos. Sem saber muito bem como, Tofield produzira um sucesso instantâneo. Atualmente, seu vídeo mais antigo, “Car Man Do”, ultrapassa 60 milhões de visualizações. 

Hoje, 11 anos depois, diz ter uma noção mais clara de por que as animações foram tão bem recebidas. “Uma das principais características de ‘Simon’s Cat’ é que a personalidade do gato é inspirada no comportamento de felinos reais. As pessoas gostam porque é muito fácil se identificar”, disse à Folha.

A pedido do jornal, ele desenhou o logotipo do caderno Ilustrada com a participação de seu gato. Talvez essa também seja a razão pela qual a imagem do bichinho se transformou em uma marca rentável, agora licenciada no país, com camisetas, chaveiros e pelúcias vendidas em cerca de cem países.

Tofield passa a ter suas criações representadas no país pela Endemol Shine Brasil, que não informou valores para os licenciamentos. Uma produtora de cadernos, por exemplo, pode agora lançar uma coleção com a imagem do gatinho, desde que firme um contrato com a Endemol. 

A marca passa a estar disponível para empresas de diversos ramos. Mas nada disso teria acontecido sem Hugh, o grande inspirador da animação. Adotado em 2005 de uma ninhada nascida em um galpão, ele tinha, como muitos outros, o hábito de acordar o dono muito cedo pela manhã. 

As estratégias, apesar de não envolverem tacos de beisebol, eram ardilosas e chegavam a mordidas na orelha. Isso, que começou como algo fofo nos primeiros meses, acabou se tornando um problema quando o animal ficou “do tamanho de uma pequena pantera”.

A relação de Tofield com gatos, no entanto, começou bem antes de Hugh. Aos nove anos, ele encontrou um animal abandonado em uma fazenda próxima de onde vivia. Depois de convencer a mãe, levou para casa a pequena Shelly, primeira de uma dinastia de sete bichinhos: Jess, Maisy, Hugh, Lilly, Poppy e Teddy.

Apesar de Jess e Hugh já terem morrido, Teddy, Maisy, Poppy e Lily continuam servindo de inspiração para os vídeos. Foi o pequeno Teddy, aliás, que inspirou um personagem que surgiu mais tarde nas animações: o amigável filhote, que gosta de agradar o dono —e, consequentemente, irritar o irmão mais velho— e não consegue ficar um frame parado. Nada, aliás, que fuja muito do comportamento dos milhões de filhotes que existem por aí.

E esse é um dos principais motivos que explicam a falta de nome dos personagens: sem identificação, eles podem ser quaisquer bichinhos, inclusive os de quem assiste. “Eles podem ser os gatos de qualquer pessoa, e o fato de não terem um nome deixa tudo mais fácil. Quando experimentamos fazer as animações coloridas e deixamos o protagonista branco, algumas pessoas disseram pensar que ele tinha outra cor.”

VÍDEOS DEMORAM DE 6 A 10 SEMANAS PARA FICAREM PRONTOS

Desenhados quadro a quadro, em sua maioria em preto e branco, os vídeos de Tofield geralmente levam de seis a dez semanas para ficarem prontos, a depender da história. Como, à medida que os anos se passaram, outros personagens —como o cachorro da irmã de Simon— começaram a surgir, as narrativas ficaram um pouco mais complicadas de produzir. 

Essas mudanças, no entanto, foram acompanhadas por uma melhoria nas condições de trabalho: inicialmente sozinho, hoje o animador trabalha com uma equipe de cerca de dez pessoas.O principal criador das histórias, no entanto, continua sendo ele mesmo, que também é responsável por fazer os efeitos sonoros. “As animações são tão cheias de humor e de personalidade que me pareceu melhor usar sons exagerados que realmente combinassem com os personagens.” 

Para não dizer que tira tudo do nada, Tofield cita algumas de suas referências: o ilustrador inglês Angus McBride (1931-2007) e o cartunista americano Bill Watterson, criador da série Calvin e Haroldo. No Brasil, a celebridade felina Chico, da página Cansei de Ser Gato, ajuda a inspirar os trabalhos. 


Mas, em meio a todo o sucesso dos vídeos, dos livros e dos produtos que colecionou ao longo dessa última década, Tofield diz ter um remorso: nunca ter conseguido atingir seu público alvo. “Eu sempre me sento com os meus gatos para tentar mostrar os filmes. Eles, no entanto, sempre se interessaram mais em dormir profundamente no meu colo.”



Carmen Augusta

Sobre a autora

Carmen Augusta - Administradora e Redatora do Portal Splish Splash. Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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