Crise de representação ameaça médicos e pacientes



Houve um tempo no Brasil que ares de mudanças sobravam no campo da assistência em Saúde. Vivíamos a reta final dos anos 80, aos embalos de uma Assembleia Nacional Constituinte que, em certos aspectos, apontava para a modernidade, para a construção de relações sociais um pouco mais equilibradas e justas.
Foi justamente nesta época que nasceu o nosso Sistema Único de Saúde, o SUS, até hoje considerado por países de todo o mundo como um dos projetos mais avançados do setor, em termos teóricos. O SUS, é importante destacar, não nasceu de milagre. Nem foi filho de pai e mãe únicos, adotado em seguida pela sociedade. O SUS veio à luz em um tempo em que a representação dos médicos brasileiros era unida, mostrava coesão e tinha capacidade de sensibilizar outras forças sociais e segui-la em propostas inovadoras e de fato benéficas à saúde dos brasileiros e à qualificação do atendimento.
Foi obra e graça do coletivo, tendo registro de nascimento assinado por gestores, trabalhadores da área de saúde, sanitaristas, profissionais multidisciplinares, políticos comprometidos com avanços para a comunidade e por aí vai. Tudo decisiva participação/liderança de entidades médicas nacionais, então respeitadas e alinhadas com os anseios dos cidadãos, da classe médica e conscientes da relevância da boa medicina.
Trinta anos se passaram e o SUS trouxe algumas conquistas importantes. São exemplos os transplantes hepáticos ou os mutirões de vacinação contra a febre amarela, entre outros. Entretanto, padece de subfinanciamento, a falta de acesso se agrava a cada dia mais, filas de espera para certos procedimentos ultrapassam ano e, não raro, assistimos na mídia pessoas morrendo por falta de atenção.
Há várias causas para o retrocesso, entre as quais, o descompromisso dos homens públicos e a corrupção impregnada em quase todas as estruturas políticas. Nós médicos, contudo, temos de assumir nossas responsabilidades.
Ocorre que o movimento médico, antes coeso e focado no bem coletivo, virou palco de veleidades, de devaneios. A Associação Médica Brasileira, atualmente, é comandada em mandato tampão por um grupo contestado na Justiça, pois a eleição teve todo o tipo de anormalidades.
Muitos Conselhos Estaduais não são mais os mesmos. Em vez de fiscalizar hospitais e unidades de atendimento para garantir condição adequada à prática de uma medicina de nível e minimizar a exposição de médicos a falhas, só querem saber de aparecer na mídia, como se seus dirigentes fossem estrelas do jornalismo global, por exemplo.
Assim, cada passo que dão recebem assessoria direta de um especialista em marketing. Se resultado virá para o bem de pacientes e da medicina não importa, o que vale é falar qualquer coisa às câmeras, vendendo um peixe que nem pesgaram. Já no Conselho Federal, conselheiros muito bem pagos, parecem viver em outra esfera do universo. Nesta semana, pouco depois da comemoração do Dia do Clínico Médico (16 de março), o CFM, talvez por considerar que não há nada de mais sério a lutar pela saúde dos brasileiros e pelos médicos, resolveu tentar mudar o nome da especialidade. Em vez de Clínica Médica passaria a se chamar Medicina Interna.
É lamentável ver a que ponto chegou a inocuidade de nossas representações de classe. Por favor, senhores, nós profissionais de medicinas sérios, assim como nossos pacientes, exigimos seriedade no trato com os assuntos ligados à saúde. Ainda mais de uma instituição pública, para a qual somos obrigados a contribuir com valores altíssimos.
Temos cerca de 30 mil clínicos no País. A população os conhece como tal, são os médicos da sua confiança. Aliás, usamos um slogan que mostra bem a interface o respeito que existe nesta relação: “Clínico Médico, especialista em Gente”.
Na graduação, na residência, na pós, sempre fomos clínicos médicos. Não há lógica, nem necessidade nem explicação plausível para o CFM, de seu berço esplêndido, na Capital Federal, querer mudar a denominação de especialistas que já são patrimônio da medicina brasileira, da saúde e dos pacientes, pelos bons serviços prestados historicamente.
Certamente é algum tipo de retaliação, pois os clínicos médicos sempre se opuseram aos desmandos de grupos que tomam entidades somente para levar adiante planos de carreirismo e ações para benefícios próprios.
O que apavora é que estes, os que se acham senhores do destino da medicina e da saúde, ainda podem fazer mal maior ao Brasil. Mas vamos resistir.

Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica
Alda Jesus

Sobre a autora

Alda Jesus - Doutorada em Robertologia Aplica e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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