Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Entre vocês pra dentre

Lugar dos Dois Caminhos, 25 de Janeiro
Esta manhã não havia chicharro do alto, de maneira que trouxe um pargo e uma lula grande. Como não estava com demasiado serviço, a senhora da peixaria picou-me com todo o cuidado a cabeça e as barbatanas à lula, para reforçar o recheio. A ver se a cozinho no sábado – com chouriço e arroz, talvez. O pargo, havemos de comê-lo hoje. É róseo e luzidio. Mas não deixa de ser pena que não houvesse chicharro do alto.
Sempre que digo que o chicharro do alto é o meu peixe preferido, há quem se insurja. Até a senhora da peixaria estranha, o que às vezes me leva a condescender: “Mas amanhã levo uma cavala.” A surpresa é a mesma. São dos peixes mais baratos da lota. Mas são também carnudos, saborosos e cheios de gorduras, o que nos permite uma combinação de sabores e texturas quase ilimitada. Gosto de polir-lhes as cabeças, que é o que distingue um bom garfo de um curioso.
Falo de chicharro do alto e é bem possível que muitos leitores não saibam do que estou a falar. Os peixes, nos Açores, têm nomes diferentes. Um chicharro do alto é aquilo a que em Lisboa se chamaria – creio – chicharro. Chicharro, em vez disso, é o que nós chamamos àquilo a que em Lisboa se dá o nome de carapau. Por seu lado, carapau é o nome que aqui se chama às crias de goraz, besugo e demais miudezas que se acumulam junto à costa – saborosíssimas também, fritas e comidas de uma vez só, mas de pesca condicionada agora.
Jaquinzinhos, já que fomos por aí, também não temos: chamamos-lhes chicharrinhos. Carapau graúdo é chicharro grado. E por aí fora. Isto só no domínio de uma espécie. Exige aprendizagem, caso contrário não se passa, mais uma vez, de um curioso.
Claro: também nos faltam aqui peixes. Não temos corvinas (é pena). Não temos linguados (idem), embora de vez em quando apareça uma solha. Já ouvi dizer que na Praia da Vitória se apanha tamboril, mas nunca vi nenhum. Entretanto, não há robalos, douradas ou qualquer outra espécie criada em cativeiro, vendida a metro e a saber a esferovite temperado com ómega 3 de pacote. E, embora estejamos longe de ajustar contas com tal desgraça, também não temos perca do Nilo, essa maravilha do mundo global.
Mas o que temos não acaba, de facto. De peixes maus, como a tainha (demasiado macilenta), a bicuda (que sabe sempre menos a peixe fresco do que parece) ou o sargo (o peixe mais sobrevalorizado à excepção do boca negra, mas o melhor é eu nem começar); a peixes magníficos, como a veja (o peixe barato mais suculento para um dia quente), o lírio (o rei do Verão) ou o escolar (que tem de ser amanhado de uma maneira especial, caso contrário até a perca do Nilo faz menos mal).
A verdade é esta: chego à peixaria e, se vejo muitas cores, desanimo. Peixe a sério, peixe magnífico, é cinzento. Mesmo a veja é melhor quando é da preta. Bodiões, peixes-rei, peixes-rainha: ficam lindos nas fotos dos pescadores de fim-de-semana (eu tiro sempre), mas é só. Fazem-me lembrar o boca negra (afinal sempre falo nele). Talvez seja do nome cómico, da mancha preta na bochecha, de ser vermelho como o Benfica. Não há um turista que não adore. Não há um amador que não adore. Qualquer bom garfo dirá que sabe a pouco.
Com franqueza: boca negra é peixe para dar às crianças. É a brindeira com cabecinha. É giro.
Naturalmente, alguns destes peixes existem no continente também, todos os dias ou de vez em quando. Comi muitos sargos em Lisboa, para citar apenas o exemplo mais evidente. Mas nunca uma garoupa soube tão bem daquele lado do Cabo da Roca como sabe deste. Jamais um salmonete continental – mesmo os melhores, como os que se comem no Algarve – se poderá comparar àqueles que compro no Silveira quando o Fernando do Beira-Mar deixa sobrar alguma coisa para os mortais. E nunca, até vir aos Açores, um continental saberá o que vale, verdadeiramente, uma abrótea.
Imagine-se: peixe de segunda, a abrótea... Sempre gostava de ver o que chamaria um lisboeta a uma juliana.
O peixe dos Açores é tão diversificado e omnipresente que até o há domesticado. Durante anos, diferentes pessoas, em diferentes ilhas, mantiveram meros como animais de estimação. Mergulhavam à volta da rocha do costume e ficavam ali, não sei quanto tempo, a alimentar e a afagar o seu mero de 70 quilos. E quem duvide pode ir ao Silveira – sempre ele – fazer festas ao Silveirinha, que está num aquário, mas imbuído de espírito de missão. Desde que conheço o Silveirinha, nunca mais consegui comer uma salada de mero. Pergunto sempre se não há antes de rocaz.
Isto só sobre os peixes, note-se. Dos mariscos é melhor nem falar.
No fim, se alguma coisa lamento na fauna marinha destas ilhas é haver tão pouca sardinha. E não aparecer mais peixe-galo. E às vezes o alfonsim ser vendido como imperador. Ainda há dias fiz um figurão ao explicar a uma vendedora porque é que aquele peixe que tinha à venda não era todo imperador, mas algum dele alfonsim. No fim não trouxe nenhum, porque gosto cada vez menos deles também – são vermelhos. Até porque o que eu queria era um chicharro do alto. Cada dia em que não há chicharro do alto, nesta momento, é um dia em que me apetece trazer frango.
Juro: amanhã, se não houver chicharro do alto, vou aos congelados ver se há perca do Nilo – só por vingança.



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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