Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Teu home havera d’i ao doutô

Lugar dos Dois Caminhos, 3 de Janeiro
Tenho-me perguntado sobre qual terá sido o destino daquele esfregãozinho de loiça Ballerina que se montava num cabo de plástico amarelo em cujo interior era depositado o detergente. Eu e a minha sogra, aliás. Da última vez que ela cá veio, em Setembro, percorreu tudo o que era loja da ilha, à procura de restos de colecção. Foi ao Guarita, ao Continente, até ao Basílio Simões – mesmo sabendo que eu já lá tinha ido. Podia ter-me escapado. E nos últimos dias, de passagem por Lisboa, eu próprio fui ao Pingo Doce, ao Pão de Açúcar e ao Feira Nova – mesmo sabendo que ela já lá tinha ido também. Podia ter-lhe escapado a ela.
(E com isto, permitam-me a vaidade, se consagra a primeira vez que alguém escreve num jornal nacional uma crónica sobre um esfregão de lavar a loiça. A não ser que o MEC já tenha escrito.)
Era o esfregão perfeito, aquele esfregãozinho Ballerina. Nos supermercados e nas mercearias, em armazéns e até em lojas de decoração quase finas: tenho encontrado todo o tipo de ideias para lavar a loiça. Nenhuma tão boa. Conservamos o mesmo cabo há uns dez anos – nem sei quantas esponjas já terão passado por ele. De resto, nunca deixámos de nos munir de meios para as tarefas domésticas. Temos os mesmos electrodomésticos da maior parte da classe média, detergentes para isto e para aquilo, toalhetes e vassourinhas, máquinas de lavar e até empregada duas vezes por semana. Se eu tivesse de conservar apenas um meio, era aquele esfregãozinho (excepto, talvez, o abre-cápsulas).
Pouco antes do Natal, andávamos nós pelo Chiado, a Catarina perguntou-me o que queria eu de presente. Falei logo num casaco verde-escuro que tínhamos visto.
– Mas, se vês que vai entrar em saldo – ressalvei, já em jeito de prece –, então deixamos para mais tarde. Oferece-me antes esponjas para o esfregãozinho Ballerina.
Aquele esfregão era um achado, para uma família grande como para um casal que trabalha em casa e todo o dia passa pela cozinha. Uma pessoa não queria meter a sua caneca preferida na máquina, porque só gostava de tomar café naquela caneca e se não tomasse café naquela caneca parecia que nem sequer escrever sabia? Não havia aliado como o esfregãozinho. Com aquele esfregãozinho, uma pessoa quase nem molhar as mãos molhava, quanto mais encarquilhá-las. E, além disso, poupava imenso detergente.
Só com aquele esfregãozinho o Fairy seria efectivamente capaz de lavar uma Ponte Vasco da Gama de pratos. Pensando bem, enquanto tivemos aquele esfregãozinho, um frasco de Fairy dava-nos para uns bons três meses. Desde que deixámos de tê-lo, ao fim de três semanas (se tanto) estamos a comprar novo frasco.
Não vem daí grande ataque à boa mordomia: ao preço a que estão a electricidade, as comunicações e a rosuvastatina, meio litro de detergente para a loiça é uma coisa barata. Mas irrita que o esfregãozinho tenha desaparecido. Até porque possuo uma teoria.
A minha teoria é que alguma marca de detergente – sei lá, a própria Fairy, a Sonasol, ou a multinacional-de-grande-consumo em que ela esteja integrada – comprou a fábrica dos esfregõezinhos Ballerina só para a mandar fechar. Aqueles esfregões faziam demasiado bem o seu trabalho: quem os tinha consumia apenas um quarto do detergente que podia consumir. Melhor investimento não poderia haver, pois, do que comprar a patente e mandar fechar a fábrica.
O esfregãozinho Ballerina era como que um pequeno vírus no sistema capitalista. Um bug. No capitalismo, não há lugar para coisas que fazem demasiado bem o seu trabalho. Cinco estrelas, no capitalismo, são as quatro estrelas. Como as do iPhone, que é excelente, salvo que ao fim de algum tempo as actualizações de software dão cabo do hardware. Como as da HP Deskjet, que dura uma vida, mas depois os consumíveis custam uma fortuna.
Com o esfregão Ballerina não era nada disso. Os cabos eram eternos e as próprias esponjas duravam longas semanas. Mas os detergentes perdiam 75% de mercado, pelo que das duas uma: ou se piorava a qualidade do produto – parasita com que o capitalismo sempre tem mais facilidade em pactuar –, ou então tinha de se aumentar o preço dos consumíveis. E foi assim: aquele esfregãozinho começou a morrer no dia em que pela primeira vez chamaram consumível à sua esponja. No fim, mandaram simplesmente fechar a fábrica.
Por mim, tenho solução: encontrei online uma loja espanhola que ainda as vende, com o nome Ballerina Limpia Vajillas Con Mango Dosificador De Jabón Recambio. Ainda não sei se vende para Portugal, e o site é tão rudimentar que me manda registar-me da maneira o mais básica possível e depois nem as suas próprias instruções consegue seguir. Mas tenho esperança, e, quando amanhã tentar de novo, vou encomendar umas dez embalagens para mim e outras dez para a minha sogra (que tem nome e se chama Ana).
O sistema continuará seguro: costuma prever pequenas perdas, para devoluções e espertices. E, seja como for, é a última vez que consigo comprar aquelas esponjas, pelo que ao fim destas dez embalagens – e talvez já com reflexo nos resultados operacionais do terceiro ou quarto quarter do ano – o problema está resolvido. Hei-de tentar gozá-las o melhor possível, até que também eu tenha de quadruplicar de vez o consumo de detergente. Mas o bê-a-bá do capitalismo já ninguém mo tira.



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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