Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Aquilo é um desvairado daquela cabeça

Lisboa, 23 de Dezembro
O meu medo é que algum dia os meus cães se apercebam da vida que levam os cães dos pedintes e dos malabaristas. Devem ser os cães mais felizes do mundo. Em primeiro lugar, passam imenso tempo com os donos ao ar livre. Em segundo, estão sempre rodeados de cheiros fortes (às vezes muito fortes). E, em terceiro, as pessoas que passam gostam quase sempre mais deles do que dos donos.
Pelo menos, recebem mais guloseimas do que os donos recebem moedas, os cães dos pedintes e dos malabaristas. Aquelas guloseimas e aqueles cheiros são tudo o que o Melville – sobretudo o Melville – gostaria de ter. Todos os dias seria Natal.
Imagino-o rebocando um malabarista Rua Garrett abaixo, ao perseguir uma borboleta, o rapaz já cuspindo fogo pelas orelhas enquanto se tenta equilibrar no monociclo. Imagino-o a olhar, muito intrigado, para o violinista que tenta recuperar o instrumento depois de ele próprio o ter levado entre os dentes até ao telhado dos Armazéns.
Haveria de ser um espectáculo à parte, o Melville e o seu malabarista. Uma moeda para cada um.
Seja como for, comovem-me os pedintes e os malabaristas de Lisboa, com os seus cães e a sua desesperada falta de talento. É sempre a eles que volto quando, como hoje, tento recuperar num dia só o consumismo que voltei a perder ao longo do ano. Comove-me que lhes falte tanta coisa, mas nunca falte o que quer que seja aos seus cães nutridos e realizados.
Quanto aos presentes de Natal, a ideia que me dá, hoje, é que não deixam ninguém feliz. Talvez façam felizes quem os recebe, durante dez minutos – sobretudo as crianças (durante três). Nos que os oferecem, não consigo detectar o mais breve sinal de felicidade. Ninguém está feliz, aqui à minha frente, enquanto me passeio pelo Chiado entre os comprantes da quadra. Têm um suplício no olhar, todos eles. Como se não se limitassem a comprar presentes, mas a cada presente que compram se aliviassem de mais um peso enorme. Como se, dada a tarefa por concluída, se libertassem do sufoco de comprá-los – até que chegue o sufoco de de comprá-los outra vez.
Suponho que não seja muito diferente do que se passa com as chamadas e as mensagens natalícias. Mesmo num ano como este, em que a televisão anuncia a retoma e os cartões SIM estão carregados. Talvez seja o grande paradoxo do consumismo: não faz ninguém feliz.
Portanto, cirando entre a turba, carregado eu próprio de sacos, infeliz também (a verdade é essa). Desvio-me dos carrinhos de bebé conduzidos como tanques militares. Detenho-me a olhar os vegans que se juntam agora ao habitual rapaz dos cartazes, para aquela espécie de vigília silenciosa e de olhar muito sério onde parece, de súbito, concentrar-se toda a virtude.
Nunca gostaremos de nada como gostamos de um pouco de proselitismo. Nunca gostaremos de nada como de reclamar superioridade moral. Mas, ao menos neste caso, a causa é boa. Quase me sinto tentado a ir juntar-me à vigília e a pôr-me com uma daquelas cartolinas na mão, a olhar em frente:
– Faz.
– Não faças.
– Come.
– Não comas.
Tudo no imperativo.
Entretanto, a certa altura – já venho a descer a Rua do Carmo – ouço atrás de mim:
– Não tanto Miami, sabe? Orlando, sim. Orlando tem muitas.
São duas brasileiras, altas e loiras como Gisele Bündchen – alemoas do Sul, provavelmente. Trazem muitos sacos nas mãos e, em poucos segundos, discorrem sobre mais de uma dezena de cidades, as lojas que proporcionam e os produto que lá compraram. O seu mapa-mundo tem nomes de lojas no lugar dos nomes dos países, nomes de marcas no lugar dos nomes das cidades, nomes de modelos no lugar dos nomes das ruas. E, porém, em nenhum dos seus sacos há um presente embrulhado – compram para si mesmas.
Nisto, um rapaz que vem a subir, com ar de rufia da Mouraria, faz-lhes:
– Pst!
Elas não olham. Ninguém olha. Em toda a volta, do topo ao fundo da rua, ninguém vira a cara para aquele rapaz a não ser eu. O campo treina-nos para responder aos “Pst!” como a cidade nos treina para não lhes responder. Chego a ter pena daquele rapaz também – ali subindo a Rua do Carmo, com o seu andar gingão e o seu casaco de napa, sem dinheiro para compras ou importância sequer para que uma daquelas raparigas olhe para ele.
Deprimem-me sempre, os dias dos presentes de Natal. Penso no meu jardim, mas minhas begónias e nos meus gerânios, nas iresines e nas tibouchinas. Pergunto-me se já chegaram os vasos que encomendei na Amazon, ao preço da chuva, para fazer os viveiros das flores com que quero embelezar o pomar. Volto a perguntar-me sobre como estarão os meus cães, lá em casa do Henrique – se a Valéria e a Vitória os terão levado a passear, se já andaram a brincar em volta do medronheiro.
Depois entro na loja que procurava e, escolhido o que preciso, saco do cartão de crédito e alivio-me de mais um peso. Ainda me faltam uns quantos, e o telefone não pára de tremer com mensagens de bem-aventurança que vêm passando de mão em mão há cinco Natais, até que alguém achou que expressava na perfeição o tipo de afecto que sente por mim.
Sempre achei triste não se gostar do Natal. Mas isto já não é bem Natal, pois não?



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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