. Ícone da Jovem Guarda, Wanderléa lança biografia


                    Em livro, Wanderléa fala sobre episódios pessoais

Wanderléa lança autobiografia. Confira entrevista com a cantora!

Após 15 anos em dúvida sobre o lançamento, Wanderléa divulga 'Foi assim', em que fala sobre a vida pessoal e a carreira 

Wanderléa começou a escrever Foi assim – Autobiografia como uma espécie de terapia. Ícone da Jovem Guarda, apelidada de ternurinha por todo o Brasil, a cantora tomou a caneta para relembrar momentos difíceis. Escreveu, em formato de diário, sobre dois abortos realizados antes dos 30 anos, a morte do pai, o acidente que fraturou a coluna do marido, José Renato, a perda do filho Léo, aos dois anos, a morte do irmão querido e o assassinato da irmã. Quando uma editora descobriu o material, quis publicá-lo, mas Wanderléa não tinha certeza. “Não aceitei de cara”, conta. “Mesmo depois de ter dito sim para a editora, fiquei ainda uns 15 anos com esses escritos guardados. Eu tinha um ciúme, um apego, porque você escrever na primeira pessoa é uma coisa muito delicada. Foi muito difícil entregar o trabalho.”

Ao receber a autobiografia, a editora achou que os relatos das tragédias vividas pela cantora ocupavam espaço maior que as realizações da carreira. Com a ajuda do jornalista Renato Vieira, Wanderléa se debruçou então sobre os louros para dar a Foi assim um equilíbrio que ela mesma já havia encontrado há muito. “Eu me identifiquei logo de cara com o Renato porque ele sabia tudo da minha carreira e me ajudou a revisitar as memórias dos bons acontecimentos da minha vida. Foi um processo interessante porque eu relembrei coisas de início de carreira”, garante. 

Wanderléa estreou nos palcos ainda menina. Nos anos 1950, aos 9 anos, ganhou o concurso do programa de televisão A mais bela voz infantil. Não foi o primeiro, mas foi um marco que levaria a voz da artista para todo o país. O encontro com Roberto Carlos aconteceria poucos anos depois, quando os dois passaram a frequentar o estúdio da mesma gravadora, antes de começarem a gravar, ao lado de Erasmo Carlos, o programa Jovem guarda, veiculado na TV Record entre 1965 e 1968.

Era uma geração de jovens moderninhos e considerados alienados por muitos dos grandes nomes da MPB que, naquela época, já se engajavam contra a ditadura e pela liberdade de expressão. Mas a turma da Jovem Guardamexeram com o Brasil. As roupas usadas por Wanderléa ditavam moda, Roberto e Erasmo tinham legião de fãs adolescentes. As músicas carregavam mensagens de rebeldia e o visual roqueiro era a marca do trio. 

Foi assim é cheio de detalhes dessa trajetória. O primeiro beijo roubado por Roberto Carlos, o sucesso, a rejeição e, mais tarde, a aceitação do pai para a carreira da filha, a rebeldia que a fazia comprar motos e carros esportivos conversíveis, as apresentações em um leprosário quando ninguém queria interagir com os doentes, tudo escrito com muita generosidade e sinceridade. O toque pessoal está presente, apesar de Wanderléa ter contado com a ajuda de um jornalista para escrever e organizar as histórias. Há datas, mas nem sempre elas estão presentes, e o tom confessional está por todo o livro. As passagens mais marcantes são as mais trágicas.

O acidente de José Renato, o primeiro marido, filho de Chacrinha, durante um mergulho em uma piscina não foi o primeiro drama da cantora, que perdera uma irmã, assassinada por uma bala perdida, e o pai, de quem era muito próxima. Anos depois, Wanderléa perderia também o filho Leonardo, o primeiro do casamento com Lalo, com quem se casou depois de se separar de José Renato. Leo morreu afogado na piscina de casa enquanto a mãe gravava uma participação no programa de Flávio Cavalcanti, no SBT. A cantora conta que nunca teve tempo de viver profundamente seus lutos por conta da carreira, que se desenvolvia muito bem. “ Normalmente, você tem um tempo para destilar tudo, e eu não tive”, lembra.

Mãe de Yasmin e Jadde, casada com o guitarrista chileno Lalo Califórnia há 38 anos e prestes a ser avó, Wanderléa embarcou em uma experiência que nunca havia vivido. Em abril, ela estreou o musical 60! Década de arromba, dirigido Frederico Reder e no qual vive ela mesma. O espetáculo faz um passeio musical pela década que teve movimentos como a Bossa Nova, a Tropicália e a Jovem Guarda. Foi diferente de fazer um show. “Meus shows sempre foram uma coisa mais intuitiva, mais solta. Agora, são 64 pessoas trabalhando, 24 músicos, atores, cantores”, explica a cantora, que divide o palco com a filha Jadde e tem o marido na orquestra do musical. Ponderada, ela demorou um ano para decidir se queria mesmo fazer o musical. Quando aceitou, achou que o espetáculo ficaria em cartaz por apenas dois meses, mas já se foram nove. Depois de uma pausa, 60! Década de arromba volta a ser apresentado no Theatro Net Rio a partir de 4 de janeiro. 

 » ENTREVISTA / WANDERLÉA 

O que te levou a escrever o livro? 
Minha carreira começou muito cedo. Muito jovem eu já estava num processo de trabalho profissional e começaram a acontecer coisas difíceis na minha vida, situações embaraçosas, dolorosas, luto e tudo. Ficou uma ambiguidade muito grande porque nunca parei para vivenciar meus lutos, minhas tristezas, como todo mundo faz quando tem um acontecimento difícil. Fiquei com essas emoções engasgadas dentro de mim muito tempo. Quando tive um espaço, um tempo, comecei a buscar essas memórias, a escrever sendo muito verdadeira, muito intensa na escrita, contando os detalhes do que vivi. Era como uma terapia para mim e foi juntando um material muito grande. Vazou que eu tinha esse material de escrita pessoal e me convidaram para fazer o livro, mas não aceitei de cara. Mesmo depois de ter dito sim para a editora, fiquei ainda uns 15 anos com esses escritos guardados. Quando decidi, a editora adorou o material, mas tinha só os momentos difíceis. A vida profissional, as alegrias, não tinha muito.

Escrever foi um processo de cura também?
Foi um pouco, mas você nunca se cura totalmente. Falando você põe pra fora, não fica com aquilo entalado. É muito difícil se curar totalmente. De certa forma, você vai empurrando com a barriga, continuando a vida porque você tem que continuar. E tem momentos em que você sai, que aquilo que vivencia sai de dentro de você. 

A condição da mulher mudou muito desde que você começou a cantar. E você virou, de certa forma, um símbolo de rebeldia. Você tem essa consciência de que pessoas como você ajudaram a abrir caminhos também? 
Tenho consciência porque eu sou uma rebelde até hoje. Sou ternurinha na delicadeza com o próximo. Agora, se quiser me impor alguma coisa, a rebelde está aqui dentro. Na realidade, eu já tinha essa rebeldia dentro de casa. Éramos muitos irmãos e tudo separado, as meninas não podiam brincar de carrinho de rolemã, as brincadeiras dos meninos eram muito mais divertidas que as das meninas, que eram preparadas para prendas domésticas. Aquilo já me incomodava muito. A forma de querer fazer diferente sempre foi uma coisa muito natural dentro de mim. Até hoje, nunca deixei de ser essa pessoa que quer fazer as coisas diferentes. 

Você chegava a se considerar uma feminista?
Não, porque não se dava nome aos bois. E tudo aquilo era contestado, achavam que éramos alienados, mas a gente estava fazendo uma cultura jovem no país, trazendo um glamour para a adolescência, uma nova forma de ser, de cantar, de se relacionar com os pais. Não tínhamos um discurso político-partidário, uma coisa preparada, engajada, para mostrar que era atuante. Nós buscávamos uma liberdade real.

E hoje, quando você vê esse discurso feminista tão forte, com meninas muito conscientes disso cada vez mais novas, o que você pensa? 
Acho interessante. Quanto mais jovem você perceber sua posição na sociedade, mais vai ser respeitada. Fico triste quando vejo mulheres que não se colocam de uma maneira íntegra.

Como lidar com o envelhecimento, especialmente quando se foi um símbolo de uma geração?
Na realidade, a gente envelhece mas quer ter sempre 20 anos. Mas a idade chega e a gente tenta administrar isso. Lógico que você vai percebendo a vida melhor, tendo mais tolerância e compreensão da existência. E percebe que é finito, tem um tempo de passagem por aqui. Mas trabalhando, a gente não tem muito tempo de ficar pensando no tempo. Eu acho que o importante é estar com a vida saudável, levar a vida com maior equilíbrio possível, ter sabedoria em todos os acontecimentos. Mas não existe uma fórmula, cada um administra seu tempo de uma forma.

in-correiobrasiliense.com.br
Alda Jesus

Sobre a autora

Alda Jesus - Doutorada em Robertologia Aplica e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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