Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Fui lá largar meia dúzia de conversas

Lugar dos Dois Caminhos, 1 de Dezembro
O obituário do dia é do domínio da cultura. Ainda bem que ganhámos este hábito do obituário do dia: sempre se pára um instante a celebrar a memória, que é aquilo de que este tempo mais precisa. Mas agora mesmo, que tenho o televisor ligado ali ao canto, estão dois jornalistas a falar de Zé Pedro – e riem-se.
Riem-se porque Zé Pedro era um homem bem disposto. Riem-se porque não há nada de errado em rirmo-nos na cara da morte. Riem-se porque, se não é urgente, é pelo menos saudável rirmo-nos na cara da morte. Zé Pedro teria gostado. Considerá-lo-ia uma celebração da sua vida. Mas eu lembro-me do obituário de ontem, em que se falava de Belmiro de Azevedo – e ninguém se riu.

Na verdade, não há razões para que uma vida dos meandros da economia, ademais com tantos sucessos, não mereça ser celebrada também. Só que a economia é uma coisa séria. A cultura é uma coisa a brincar, e esse é que é o problema.
A cultura é para animar a malta. Seja o rock ‘n rol ou o bailado, a literatura ou o teatro: ou se trata de um festival de Verão, daqueles com que a TV faz uma parceria, ou a notícia vem no fim do telejornal. Nas autarquias, a cultura segue sempre para o pelouro do desporto e da juventude. Os programas escolares ensinam as línguas e a filosofia como ferramentas, mas a cultura é extracurricular.
A cultura serve para entreter. Para divertir. Morre um músico rock e nós falamos dele aos risinhos, porque teve uma grande vida, foi um homem caloroso e ajudou-nos a criar memórias reconfortantes. Morre um jogador de futebol e, pelo contrário, ninguém se ri. É porque não teve uma grande vida, não foi um homem caloroso e não nos ajudou a criar memórias reconfortantes, ou é porque ele, sim, foi um tipo importante?

Lugar dos Dois Caminhos, 6 de Dezembro
Ontem veio cá o Nody, com o tractor. Eu tinha perguntado ao Chico Galão se me podia vir lavrar o cerrado, de modo a poder plantar o pomar. E ele:
– Vendi o tractor.  Quem te pode ajudar é o Nody, conheces?
Ri-me um pouco, porque imaginar um calmeirão ao volante de um tractor com a alcunha de Nody nem sequer era o pior: o pior era que os homens de trabalho da minha terra já são de uma geração em que podem ser alcunhados a partir de um desenho animado que eu nem sequer vi.
De maneira que, quando o Nody chegou, perguntei-lhe logo porque se chamava Nody. Ele sorriu, meio atrapalhado:
– Isso vem do tempo de escola. O meu nome é Rúben.
E eu decidi chamar-lhe Rúben, mais para preservar a minha dignidade do que a dele.
A verdade é que gostei logo do Rúben, porque não tem um daqueles tractores gigantes que alguns lavradores compram por motivos fálicos: tem um tractor pequenino e, agora, planeia trocá-lo por um apenas pouco maior, já com pá, porque a sua exploração começa a caminhar pelo próprio pé. Ademais, enquanto ajudava o Fábio e o Chico a remover as últimas pilhas de pedra, terra e infestantes, o Rúben conduzia-o pelo cerrado com o máximo de atenção, de modo a não pisar as hortênsias e as faias recém-plantadas.
Decidi num ápice: vai ser ele a ocupar-se dos terrenos de que não posso cuidar, para seu próprio usufruto. Cheguei àquela idade em que me comovo quando encontro um rapaz com juízo.
Entretanto, até sexta-feira, se não chover, vem cá lavrar o cerrado, a ver se para a semana o Fábio faz as covetas e podemos deixar a terra em sessão uns quinze dias. O desenho do pomar está pronto. Na primeira versão, tinha vinte árvores de fruto. Eram demais, porque lhes faltava espaçamento. Já estabeleci que serão apenas dezoito: tirei uma linha inteira, mas por outro lado destinei dois limoeiros e duas pitangas aos cantos, onde ficarão mais abrigadas e não consumirão demasiado espaço.
À entrada vamos ter dois damasqueiros. A Catarina gosta de damasqueiros. Os damasqueiros fazem uma copa linda – quando estão em flor, chegam a fazer lembrar as amendoeiras. A seguir, uma pereira, uma nespereira e, à esquerda, uma ameixeira e uma clementineira. Tenho de ter cuidado com a ameixeira, porque cresce mais do que eu pensava. Mas, felizmente, não cresce tanto como as anoneiras.
A essas, num total de três, reservei-lhes a fila do fundo. Na fila do lado do jardim, ficam uma macieira e duas laranjeiras. Ao centro, em lugar de nobreza, uma nogueira e uma figueira. O Sr. Dimas garante-me que se conseguem obter figos na Terra Chã e eu hei-de obter figos na Terra Chã, nem que seja a última coisa que faça na minha vida (sou do tempo é do Gasganete, não do Nody).
A macieira já está plantada no seu lugar. As anoneiras, uma laranjeira, a clementineira e uma pitanga vêm do jardim. O resto é preciso ir comprar. Fica a faltar-me o diospireiro, de que o meu pai gosta tanto. A verdade é que uma pessoa mete-se numa coisa destas e o espaço acaba sempre por revelar-se curto. Mas guardo-a como primeira suplente: tenho a certeza de que pelo menos uma das outras não vingará. Há-de ser a natureza a decidir.
Suspeito que um dia hei-de olhar para trás e considerar este o melhor Inverno da minha vida. Ainda há dias fui colher tangerinas à tangerineira que restou do passado e logo me pus a distribuir saquinhos pelos vizinhos. Dali a pouco a D. Fernanda veio à janela, mastigando ainda:
– Ai que coisa boa. Belíssimas. Teu avô, lá em cima no céu, está a ver.
Acho que podia viver só para isto.



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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