Carminho derrama melancolia e poesia em Guimarães

 Carminho e Marisa Monte
por Redacção
 
Depois de uma turné por dez salas em toda a europa, o Multiusos de Guimarães recebeu Carminho, inspirada pelos ventos brasileiros da Bossa, e pelo álbum das suas interpretações das canções de Tom Jobim. A noite fria da cidade minhota pedia um calor especial, proveniente da voz e dos instrumentos, e foi nesta sucessão que se proporcionou este enlevado derramar. Uma mistura de fado e bossa nova a que ninguém pode ficar indiferente.

O espetáculo começa com a cantora e os seus músicos sentados, ouvindo, tal como nós, a voz de Fernanda Montenegro, narrando o poema “Canção do exílio” para introduzir a música “Sabiá”. Se este começo não fosse já bom presságio do que estava por vir, a presença de um número certo de Jobins era a garantia de sucesso. Tom Jobim estava lá em pessoa, nas pessoas do filho Paulo e neto Daniel Jobim.

A temperatura na sala sobe quando Carminho canta um fado oferecido por um amigo que está na plateia, Miguel Araújo, e que confere muito talento junto por metro quadrado. Talento é coisa que não falta durante a noite, com uma Carminho desenvolta pelo palco, ora cantando de pé próxima do público, ora cantando sentada junto a seus músicos; não tendo medo de virar as costas para o público, e dançar e cantar para os que a estão a acompanhar nos instrumentos, numa clara manifestação de gozo pelo ali está a acontecer. Os maravilhosos Jobins e um extraordinário Jaques Morelenbaum (violoncelo) e Paulo Braga (bateria) tocam uma peça instrumental, que poderia ser só para a Carminho – que está sentada a ouvir deliciada – mas é também para nós, que estamos sentados na plateia. O que torna tudo tão especial é esta energia, entre os músicos e a intérprete que provocam arrepios e suspiros na plateia, que reage com calor suficiente, para no palco se sentirem aquecidos. E danem-se as definições, isto é arte.

Carminho estende a mão ao vazio para ser agarrada por outra diva, que sabemos de antemão ser Marisa Monte. Dão a mão uma à outra, e trazem o Sol para a noite gelada de Guimarães, ao fazer esquecer “que chorei, que sofri”. Cantam que o “mundo é grande demais”, e quem ouve, sente-se pequeno demais perante uma ninfa de cabelos negros corados por folhas douradas, que ondula pelo palco num vestido de fundo amarelo, cor do Sol, manchado por flores da cor do amor. Marisa destila suavidade e delicadeza ao pé de uma Carminho sempre forte e intensa, e provam que “frases, vozes, cores, te invade sem parar, te transforma sem ninguém notar”.

Se já não tivéssemos convencidos da audácia desta mulher pequena em tamanho, mas tão grande em alma, ficaríamos ao ouvi-la contar sobre como mandou um email a ninguém menos do que Chico Buarque, dizendo-lhe que queria cantar “Retrato em Branco e Preto” usando “tu” e não “você”, que não conseguia expressar-se ao seu grande amor usando a expressão que usaria para se dirigir ao seu pai. Chico responde-lhe de forma igualmente audaz, dizendo que aceita a alteração com a condição de ficar com os créditos de si mesmo, por ser o tradutor para a sua própria língua. Uma das melhores interpretações da noite, sentada na sua cadeira, pequena demais para a sua emoção, e para a nossa, quando grita “e o que é que eu posso contra o encanto, desse amor que eu nego tanto, evito tanto e que, no entanto, volta sempre a enfeitiçar”.

O concerto parece encaminhar-se para o fim, quando se canta “tristeza não tem fim”, mas ainda bem que parece não ter fim, já que, como diz Carminho os brasileiros cantam a dor em dó maior.

Mas como a generosidade é sempre uma qualidade de quem tem a poesia no coração, Carminho dá-nos ainda aquela que, para muitos, foi o momento alto da noite, um fado escrito por um brasileiro, pelo mestre Vinicius de Moraes, “Saudades do Brasil, em Portugal”. E se até aqui chorávamos “manso e bem baixinho”, aqui já não é possível, quando Carminho desliga o microfone e praticamente sem acompanhamento instrumental, canta a plenos pulmões e a palco aberto que o “sal das minhas lágrimas de amor criou o mar que existe entre nós dois, para nos unir e separar”, e revira-nos as entranhas. E danem-se as definições, mas isto é arte.

O espetáculo termina com o regresso de Marisa Monte e encontrá-las assim, felizes e alegres a cantar uma para a outra, faz-nos sentir crianças, cantarolando com elas que “os peixinhos são flores sem o chão”. Uma noite para gravar na memória do coração. Ai de nós e dessas coisas que só o coração pode entender.

Artigo de: Catarina Fernandes

 
In
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Carminho canta Tom Jobim - Saudades do Brasil em Portugal

Alba Maria Fraga Bittencourt

Sobre a autora

Alba Bittencourt - Doutorada em Robertologia Aplica e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e Administradora/Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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