Wanderléa revive independência e morte em fluente livro de memórias

(Créditos das imagens: capa do livro Foi assim – Autobiografia. Wanderléa em fotos 
de divulgação de Jairo Goldflus)
 
Mauro Ferreira

Em 1972, Wanderléa travou numa das sessões de gravação de … Maravilhosa, álbum que repaginou a imagem dessa cantora mineira para sempre associada à Jovem Guarda, movimento que, entre 1965 e 1968, esboçou protótipo de rebeldia juvenil no então nascente universo pop do Brasil. Angustiada, a artista não conseguia pôr voz em determinada música do disco e a sessão comandada por Nelson Motta resultava infrutífera. Então conhecida como Baby Consuelo, Baby do Brasil ia ocupar o estúdio com o grupo Novos Baianos na sequência da gravação de Wanderléa. Percebendo o nervosismo e o sofrimento da colega, Baby chamou Wanderléa para ir ao banheiro com ela. Lá, tirou da bolsa um cigarro de maconha e o acendeu.

“Fuma um pouco para se acalmar. Vai te ajudar a terminar a gravação”, receitou Baby. Wanderléa obedeceu e fumou maconha pela primeira vez, mas a droga surtiu efeito contrário. Em vez de acalmar a cantora, como imaginou Baby, a maconha provocou rompante emocional que fez Wanderléa entrar em colapso. Foi tirada do estúdio e, ao entrar no carro, começou a gritar e a espernear, revoltada com a morte então recente do pai e o trágico mergulho na piscina que deixara o namorado, José Renato Barbosa de Medeiros (1951 – 2014), o Nanato, tetraplégico em abril de 1971.

Tão hilária quanto densa, a experiência vivida com Baby do Brasil está relatada na primeira pessoa por Wanderléa na página 193 de Foi assim – Autobiografia, o livro de memórias da cantora que a editora Record põe esta semana nas livrarias. Rascunhado pela artista desde 1995, o livro ganhou corpo e consistência nos últimos três anos por conta do empenho do jornalista Renato Vieira, que organizou e checou as informações presentes nos originais de Wanderléa, além de ter pesquisado e colhido outros dados biográficos que solidificaram a narrativa.


A capa frustrante do livro – que expõe a artista em foto (de Jairo Goldflus) já exaustivamente usada na mídia e em materiais promocionais da cantora – é redimida pelo texto fluente, de leitura envolvente. Mérito tanto da edição de Vieira quanto da história em si de Wanderléa Salim, cuja vida tem sido alternada por glórias profissionais e tragédias pessoais, numa gangorra de perdas e ganhos que levou a artista a contínuos movimentos de superação. No livro, ela fala basicamente de independência e morte.

Batizado com o nome da música Foi assim (Juventude e ternura) (Ronaldo Corrêa e Roberto Corrêa, 1967), canção melancólica lançada há 50 anos que se tornou um dos maiores sucessos da cantora no encantado reino pop da Jovem Guarda, o livro conta “história surpreendente, rica em solidariedade, beleza e independência”, como contextualiza o compositor e músico fluminense Egberto Gismonti no texto escrito para a orelha do livro.

Aliás, uma crise de choro tida por Wanderléa ao ouvir melodia de Egberto – com quem fez nos anos 1970 dois álbuns incompreendidos pelo público e a crítica da época, Vamos que eu já vou (1977) e Mais que a paixão (1978) – também é contada nesse livro em que, no limite da intimidade permitida, a cantora faz relato confessional de quem viveu fortes emoções.


A propósito, o capítulo Leo, meu filho, sobre o nascimento e a morte precoce (aos dois anos e três meses, por conta de afogamento na piscina) do filho Leonardo Salim Flores (1981 – 1984), tem naturalmente alto teor emocional, ainda que a cantora nunca soa melodramática ao reviver momentos trágicos como a morte da irmã mais velha, Wanderlene Salim (1934 – 1955), a Leninha, atingida por uma bala perdida em 1º de janeiro de 1955 quando tinha 17 anos. Outro irmão, Wanderbil, o Bill, braço direito e confidente de Wanderléa, morreria em 1994, em decorrência de infecção pelo vírus da Aids.

Mesmo para quem conhece a trajetória biográfica de Wanderléa, o livro traz revelações. A maior delas talvez seja a real idade da artista, atualmente com 73 anos. Como conta na página 19, Wanderléa nasceu em 5 de junho de 1944, e não em 5 de junho de 1946, como sempre sustentou. A mentira vem desde os tempos de escola. Por se achar a menor da turma, sempre afirmou ser dois anos mais nova do que efetivamente era. “Acabei me acostumando com essa nova realidade e a assumi”, justifica no livro.

A autobiografia também revela que, em 1974, ao passar temporada nos Estados Unidos para tentar tratamento alternativo para a tetraplegia de Nanato, a cantora recebeu convite para gravar álbum que seria produzido por ninguém menos do que Quincy Jones. O convite foi feito quando músicos norte-americanos ouviram gravação do samba-rock Mané João (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1972) feita por Wanderléa naquele ano de 1974 com o toque do Azymuth. O disco acabou ficando no plano das ideias porque, em fins de 1974, Nanato achou que era hora de retornar ao Brasil. Na volta, Wanderléa faria em 1975 um dos shows mais aplaudidos da carreira, Feito gente, objeto de orgulhoso capítulo do livro de memórias.

Ao analisar a carreira fonográfica, Wanderléa se mostra sincera e até bem crítica ao avaliar os próprios discos. Desanca o romantismo pasteurizado do álbum Wanderléa (3M, 1989) e revela consciência das manipulações da indústria fonográfica quando discorre sobre os LPs feitos na gravadora CBS entre 1963 e 1968. São seis LPs, e não cinco, como a cantora informa erroneamente na frase que abre o capítulo No estúdio da CBS, na página 151. O quarto álbum, A ternura de Wanderléa, é apresentado equivocadamente como o terceiro na página 153.

Tais confusões são detalhes apequenados diante da capacidade da artista de apontar erros e acertos dos repertórios deste discos, cujas capas infelizmente não estão reproduzidas nem na (completa) discografia alocada ao fim do livro e tampouco no luxuoso caderno de fotos que expõe imagens da cantora em todas as fases da vida, inclusive na infância. Em contrapartida, há excesso de capítulos (101!). Alguns são tão curtos e soltos que poderiam ter sido suprimidos do texto final.

Os relatos da infância e adolescência são interessantes porque reconstituem os primeiros passos profissionais da artista em concursos, programas de rádio e em conjuntos de bailes, além de já delinear a personagem independente de Wanderléa, incansável na busca da própria liberdade. Os conflitos com o pai amoroso, mas de costumes rígidos, atravessam o livro até a morte de Seu Salim. São especiamente tocantes os relatos sobre um desentendimento no carro (em que o pai saiu do veículo e andou a pé até a filha alcançá-lo com um pedido de desculpas) e sobre uma briga de família que culminou com Wanderléa sendo esbofeteada pelo pai em festa caseira pontuada pela discórdia causada pelo fato de Salim ter desaprovado o ousado vestido usado por umas das filhas (presente, aliás, de Wanderléa para a irmã).

Presença por vezes meramente ornamental no reino da Jovem Guarda, Wanderléa soube tirar proveito do fato de ser a principal voz feminina do movimento encabeçado por ela com Roberto Carlos e com Erasmo Carlos, os amigos com quem nunca aceitou ter intimidade sexual (sexo, aliás, é assunto nunca desenvolvido no livro). Em Foi assim, a cantora rememora o beijo (“com gosto de coxinha de frango”) roubado por Roberto e um outro beijo também roubado por Erasmo, realçando o carinho sentido ainda hoje pelos amigos, ambos com vidas também marcadas por tragédias pessoais no âmbito familiar.

Espécie de espelho para garotas que, inspiradas no visual nada doce da Ternurinha, quebraram padrões comportamentais na moda e na vida dos anos 1960, Wanderléa fala com evidente orgulho desse momento de glória como popstar. Ciente de que jamais será dissociada daquele reino encantado, Wanderléa retrata com carinho a Jovem Guarda ao longo das 392 páginas de Foi assim – Autobiografia.
 

Enfim, um ano após a rainha do rock Rita Lee ter virado fenômeno editorial com livro autobiográfico, Wanderléa – outro nome ilustre da dinastia feminina do universo pop nativo – expõe as próprias memórias com aparente sinceridade e uma inabalável força de vida.

In
g1.globo.com/
Alba Maria Fraga Bittencourt

Sobre a autora

Alba Bittencourt - Doutorada em Robertologia Aplica e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e Administradora/Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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